Eduarda narrando
Eu não consegui responder na hora. Na verdade… eu nem consegui pensar. Fiquei parada, olhando pra ele, tentando entender se eu tinha ouvido certo.
— Eu quero que você more na minha casa.
As palavras ainda ecoavam na minha cabeça. Morar. Na casa dele.
Com ele.
Com o Benjamim.
Meu coração começou a bater mais rápido, mas não era só nervosismo… era choque. Eu não esperava por isso. Em nenhum momento.
Eu achei que aquele almoço fosse pra esclarecer o dinheiro, ou talvez… pra encerrar tudo de vez. Mas aquilo? Aquilo mudava tudo.
Completamente tudo.
— Eu… — tentei falar, mas a voz não saiu direito.
Olhei pro Benjamim. Ele estava me olhando com os olhos brilhando. Esperança pura.
— Você vai morar com a gente? — ele repetiu.
Engoli seco. Meu olhar voltou pro Rafael e antes que eu conseguisse formular qualquer resposta… Ele continuou.
— Eu vou te pagar cinco mil por mês.
Meu corpo inteiro travou. De novo. Cinco mil. Por mês. Aquilo era mais do que eu já tinha ganhado na vida inteira.
— Você não vai precisar se preocupar com nada — ele disse, firme, direto. — Moradia, comida… tudo por minha conta.
Eu não conseguia desviar o olhar.
— A única coisa que você vai precisar fazer… é cuidar do Benjamim.
Silêncio.
— Para isso… você vai precisar aprender tudo sobre ele.
Aquilo fez sentido. Muito sentido e, ao mesmo tempo… Me deu um frio na barriga. Porque, eu sabia que não era simples. Eu tinha errado. Mesmo sem saber e aquilo poderia ter sido grave, mas ainda assim…
Ele estava ali.
Me oferecendo aquilo.
Respirei fundo, sentindo minha mente correrendo rápida pensando em tudo.
No aluguel.
Na notificação de despejo.
Nas palavras do síndico.
— Suas coisas vão estar na rua.
Meu peito apertou. Se eu aceitasse… Eu não precisaria mais me preocupar com isso.
Não teria mais aquele medo constante. Não teria mais aquele aperto todo dia. Pensei na Rebeca. Em tudo que ela já tinha feito por mim.
Em quantas vezes ela me ajudou, mesmo sem eu pedir. Se eu aceitasse… Ela não precisaria mais carregar esse peso comigo e isso… já valia muito.
Pensei na faculdade. Nas aulas que eu perdi. Nos sonhos que eu deixei de lado. Se eu aceitasse… Talvez eu pudesse voltar. Recomeçar. Fazer dar certo e, pela primeira vez em muito tempo… Aquilo pareceu possível.
Pensei também… Na solidão. Nas noites vazias. No silêncio da minha casa.
Na sensação de estar sempre lutando sozinha e então… Olhei pro Benjamim.
Ele estava ali. Encostado em mim. Tranquilo. Como se já fosse natural. Como se eu já fizesse parte e aquilo mexeu comigo, mais do que eu esperava. Respirei fundo, mais uma vez e, finalmente… Falei.
— Eu aceito!
As palavras saíram baixas… mas firmes. Eu mesma me surpreendi., mas, no fundo… Eu sabia que aquela era a decisão certa. O Benjamim abriu um sorriso enorme.
— Sério?!
Não consegui evitar o sorriso de volta.
— Sério…
Ele me abraçou na mesma hora. Apertado. Como se estivesse com medo de eu mudar de ideia e aquilo… Aquilo me desmontou um pouco por dentro. Levantei o olhar pro Rafael.
Ele apenas assentiu de leve. Como se já esperasse por aquilo. Como se já tivesse certeza.
— Então está resolvido — ele disse.
Meu coração ainda estava acelerado. Mas agora… de um jeito diferente. Era medo. Era ansiedade. Mas também era… esperança. De verdade. Foi então que ele continuou.
— Você vai ter liberdade dentro da casa — falou, tranquilo. — Pode fazer o que quiser, se sentir à vontade.
Assenti. Tentando absorver tudo.
— Só tem uma coisa — ele acrescentou.
Olhei pra ele, atenta.
— Se você tiver namorado… ou alguém… — ele pausou por um segundo — quando for levar lá, respeite a casa.
Fiquei completamente sem reação. Meu rosto esquentou na hora.
— Eu… eu não tenho namorado — falei rápido demais.
Ele apenas assentiu.
— Ótimo!
Voltou a atenção para o copo dele, como se aquilo fosse só um detalhe qualquer, mas, para mim… Não foi. Baixei o olhar por um segundo, completamente sem graça. Meu coração ainda batia rápido, mas, dessa vez… Era por tudo. Pelo que tinha acabado de acontecer. Pelo que estava prestes a mudar. Pela vida nova que, de repente… Se abriu na minha frente. Olhei pro Benjamim mais uma vez. Ele estava feliz. De verdade e aquilo foi suficiente pra me acalmar um pouco.
Porque, no meio de tudo aquilo… Tinha uma coisa que eu tinha certeza.
Eu ia cuidar dele. Do jeito certo. Do jeito que ele precisava e, talvez… No meio disso tudo… Eu também conseguisse cuidar um pouco de mim.
continua...