Rafael narrando
Eu cheguei no restaurante com o Benjamim alguns minutos antes do horário.
Não por acaso.
Pontualidade sempre foi algo natural pra mim… mas, naquele dia, tinha mais coisa por trás.
Ansiedade.
Não minha.
Dele.
Desde que saímos de casa, o Benjamim estava diferente.
Agitado.
Olhando pela janela.
Perguntando.
— Ela já tá chegando?
Olhei pra ele de lado, mantendo a atenção na direção.
— Já, filho.
Alguns minutos de silêncio.
E de novo:
— Falta muito?
Soltei um ar baixo.
— Não e não era impaciência.
Era… expectativa.
O que, vindo dele, era raro.
Muito raro.
Encostei o carro, desci e dei a volta pra pegar ele.
Segurei a mão pequena dele na minha enquanto entrávamos.
— Fica tranquilo! — falei, sem olhar diretamente pra ele. — Ela já deve estar chegando.
Ele assentiu, mas eu senti o apertar leve na minha mão.
Ansioso e aquilo me fez pensar.
Porque, o Benjamim nunca foi assim.
Nunca se apegou a ninguém rápido.
Nunca criou vínculo em poucas horas.
Muito pelo contrário.
Depois que a mãe se foi…
Era eu.
Pra tudo.
Para absolutamente tudo.
Mesmo assim, levei tempo para conseguir alcançar certas coisas com ele.
Então, ver aquela mudança…
Era estranho, mas, ao mesmo tempo… era significativo.
Nós sentamos.
Pedi um whisky e fiquei observando.
Ele não parava quieto.
O olhar indo direto pra entrada o tempo todo.
— Papai…
— Oi.
— Ela vai mesmo vir?
Olhei pra ele.
— Vai.
Ele assentiu, mais tranquilo.
Peguei o copo, girando o gelo devagar enquanto levava aos lábios, mas, no fundo…
Eu também estava atento, mais do que queria admitir.
Foi então que, senti o movimento ao meu lado.
— Papai! — ele falou de repente, apontando.
Olhei na direção.
E vi.
Eduarda.
Na entrada, mas… tinha algo errado.
Muito errado.
Minha expressão fechou na hora.
Pela postura dela.
Pelo jeito que estava parada.
E, principalmente…
Pelo garçom na frente dela.
Falando.
Gesticulando.
Pelo olhar dela…
Baixo.
Constrangido.
Meu maxilar travou.
— Fica aqui! — falei pro Benjamim, já me levantando. — Eu já volto!
Ele olhou pra mim.
— Tá bom!
Assentiu.
E eu fui.
Cada passo mais firme que o outro.
Aquele restaurante era meu.
Meu.
E ninguém ali tinha o direito de tratar alguém daquela forma.
Muito menos alguém que estava comigo.
Não ouvi tudo, mas ouvi o suficiente.
O tom.
As palavras soltas.
O desdém e isso já bastava.
— O que você disse? — Perguntei, chegando.
O garçom travou na hora.
O resto… foi rápido.
Direto.
Sem espaço pra discussão.
Deixei claro.
Limite.
Respeito e posição.
Porque, ali dentro…
Quem define as regras sou eu.
Depois disso, nem fiz questão de prolongar.
Olhei pra ela.
E vi.
O desconforto.
A vergonha, mas também algo mais…
Uma tentativa de se manter firme.
— Vem! — falei e levei ela até a mesa.
Assim que nos aproximamos…
O efeito foi imediato.
— DUDA! — Benjamim praticamente gritou, levantando da cadeira.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa…
Ele já estava correndo.
Direto pra ela.
Eduarda se abaixou no mesmo instante, abrindo os braços.
Ele se jogou ali.
Sem hesitar.
Sem medo.
Ela segurou ele no colo com naturalidade.
Como se já estivesse acostumada.
Como se aquilo fosse comum e aquilo…
Aquilo me pegou de novo.
Porque não era...
Não era comum.
Fiquei observando.
Parado por um segundo.
Antes de me sentar novamente.
— Oi, meu amor… — ela falou com ele, a voz doce, baixa.
Ele sorriu.
Um sorriso que eu não via com frequência.
— Você veio!
— Eu vim…
Eles ficaram ali por alguns segundos.
Como se o resto do mundo não existisse.
E eu…
Eu só observei.
Em silêncio.
Analisando.
Absorvendo.
Ela é diferente.
Muito diferente, mais do que eu tinha percebido pelas câmeras, mais do que pelas mensagens.
Ali…
Pessoalmente…
Era outra coisa.
Eu não tinha conseguido ver o rosto dela direito antes, mas agora…
Dava pra ver.
Os traços.
A expressão.
O jeito.
Simples, mas… marcante.
Ela se sentou.
E, como era de se esperar…
O Benjamim foi direto pro lado dela.
Nem cogitou sentar comigo.
Aquilo quase me fez rir, mas mantive a postura.
Ela olhava ao redor.
Claramente desconfortável.
Insegura.
Fora do lugar e isso era visível, mas não tinha arrogância.
Não tinha interesse.
Só… alguém que não estava acostumada com aquilo e isso dizia muito.
Foi ela quem quebrou o silêncio.
— Senhor Rafael… — começou, ainda meio sem jeito. — Sobre o Pix…
Suspirei baixo.
Já imaginando.
— Eu acho que o valor está errado… — ela continuou. — É muito dinheiro, eu não..
— Não está errado! — cortei, direto.
Ela parou.
Me olhando.
— Mas eu—
— Você ficou lá — falei, firme. — Você cuidou do meu filho.
Silêncio.
— Isso é suficiente!
Ela desviou o olhar por um segundo.
Claramente sem saber como reagir, mas eu continuei.
— E… — pausei, escolhendo as palavras — me desculpa pelo que aconteceu ontem.
Ela me olhou de novo.
Surpresa.
— A Isabela não tinha o direito de fazer aquilo.
Ela assentiu de leve.
— Tudo bem… mas eu sabia que não estava.
Não completamente, e aquilo foi mais um ponto, mais um detalhe que eu guardei.
Olhei pro Benjamim.
Ele estava completamente à vontade.
Encostado nela.
Tranquilo.
Seguro e aquilo foi o suficiente pra eu tomar a decisão.
Sem rodeios.
Sem pensar demais.
— Eu tenho uma proposta pra você.
Ela levantou o olhar na mesma hora.
Atenta.
— Eu quero que você trabalhe pra mim.
Ela piscou, confusa.
— Eu já trabalhei…
— Não daquele jeito — interrompi. — Eu quero que você more na minha casa.
Silêncio.
Pesado.
Ela ficou completamente imóvel.
Sem reação.
— Pra cuidar do Benjamim — completei. — Tempo integral.
Ela abriu a boca.
Fechou.
Tentou processar.
— Eu… — começou, sem conseguir continuar.
O Benjamim olhou pra ela.
Depois pra mim.
— Você vai morar com a gente? — Ele perguntou, esperançoso.
Aquilo não ajudou em nada!
Ela ficou ainda mais sem reação.
E eu…
Eu só observei.
Esperando.
Porque, pela primeira vez em muito tempo…
Eu não estava fazendo aquilo só por lógica.
Tinha algo mais ali.
Algo que eu ainda não tinha nome, mas que, de alguma forma…
Fazia sentido.