Eduarda narrando
Depois que eu respondi a mensagem, fiquei alguns segundos parada, olhando pra tela. “Estarei lá.” Simples. Direto. Mas meu coração… não estava nada simples. Batendo rápido. Forte. Ansioso.
Eu ainda não entendia direito o porquê daquele convite. Muito menos o que exatamente ele queria comigo. Era por causa do Benjamim? Era sobre o dinheiro? Era pra me demitir de vez?
Passei a mão no rosto, soltando o ar devagar.
— Para de pensar demais… — murmurei pra mim mesma.
Guardei o celular e fui direto pro banheiro. Eu precisava me arrumar. Precisava estar… minimamente apresentável.
Liguei o chuveiro e entrei, deixando a água cair sobre mim. Diferente de ontem, aquele banho não foi de desespero. Foi de preparo. Cada minuto ali parecia uma tentativa de me organizar por dentro. De acalmar o coração. De diminuir a ansiedade. Mas não adiantava muito.
Saí do banho e fui direto pro quarto, abrindo o guarda-roupa e foi aí que bateu o problema.
— O que eu vou vestir? — falei em voz baixa.
Porque, aquilo não era qualquer lugar. Era um restaurante chique e eu… olhei pras minhas roupas. Simples, básicas. Nada ali parecia “adequado”. Mordi o lábio, pensando. Até que meus olhos pararam em um vestido. O vestido que a Rebeca tinha me dado de aniversário.
Peguei ele com cuidado.
— Acho que vai dar certo…
Coloquei. Ajustei no corpo e fui até o espelho. Parei. Observando. O tecido caía bem. Simples, mas bonito. Delicado.
Respirei fundo. Fui até o cantinho onde deixava meus sapatos e peguei uma rasteirinha branca. Calcei. Voltei pro espelho. Soltei o cabelo. Deixei ele cair natural pelos ombros.
Peguei minha maquiagem e fiz algo básico. Nada exagerado. Só o suficiente pra dar uma aparência mais… arrumada. Quando terminei, fiquei me olhando por alguns segundos.
— Não sei se tá apropriado… — murmurei.
Mas dei um pequeno sorriso.
— Mas pelo menos não vou fazer ele passar vergonha.
Peguei minha bolsa, conferi o celular… e fiquei esperando dar o horário.
Quando chegou a hora, respirei fundo e saí do apartamento. Fechei a porta atrás de mim. E, assim que virei… dei de cara com o síndico.
Meu estômago gelou na hora. Ele cruzou os braços, já com aquela expressão que eu conhecia.
— Ainda está aqui?
Respirei fundo, tentando manter a calma.
— Eu vou dar um jeito…
Ele riu, sem humor.
— Eu já dei ordem de despejo.
Engoli seco.
— Eu sei… mas eu vou pagar o aluguel. Só preciso de um pouco de tempo.
Ele se aproximou um passo.
— Então é melhor você agilizar.
Meu coração apertou.
— Eu vou…
— Porque, se não — ele continuou, me olhando firme — quando você voltar… suas coisas vão estar na rua.
Aquilo me atingiu direto. Fiquei em silêncio. Sem resposta. Sem reação. Só assenti de leve e passei por ele.
Desci as escadas com o peito apertado, tentando não deixar aquilo me abalar mais do que já tinha abalado, mas era impossível. Cada palavra dele ficou ecoando na minha cabeça. “Suas coisas vão estar na rua.”
Respirei fundo quando cheguei lá embaixo e foi aí que vi. O carro. Parado. E, dentro dele… o senhor Roberto. Pai da Rebeca.
Por um segundo, eu fiquei surpresa, mas logo entendi. Claro. Ele tinha vindo me buscar.
Aproximei devagar e abri a porta.
— Boa tarde… — falei, entrando.
Ele apenas acenou com a cabeça.
— Boa tarde!
Fechei a porta e ajeitei a bolsa no colo. O carro começou a andar e o silêncio se instalou.
Eu olhava pela janela, vendo a cidade passar, mas minha mente estava longe. Pensando em tudo. No almoço. No Rafael. No Benjamim. No dinheiro. No despejo. Era coisa demais. Senti meu coração apertar. Mas tentei respirar fundo. Me acalmar. Porque eu precisava estar bem.
Quando o carro começou a diminuir a velocidade, percebi que estávamos chegando. Olhei pela janela e meu estômago revirou. O restaurante era… enorme. Luxuoso. Bonito. Muito além do que eu estava acostumada.
— Meu Deus… — sussurrei.
O carro parou. Senhor Roberto virou levemente o rosto pra mim.
— Ele já está esperando. É só avisar ao garçom que está com o senhor Rafael.
Assenti.
— Obrigada!
Abri a porta e desci. E, no momento em que meus pés tocaram o chão… a insegurança veio com tudo, mas eu fui. Um passo de cada vez.
Me aproximei da entrada. O garçom que estava na porta me olhou. De cima a baixo. Sem disfarçar. Aquele olhar… de julgamento. De desprezo. Meu coração apertou, mas eu tentei ignorar.
— Boa tarde… — falei, educada. — Eu vim almoçar com o senhor Rafael Montenegro.
Ele soltou uma risada. Alta. Desagradável.
— Aqui não estamos contratando — disse, cruzando os braços.
Fiquei sem entender por um segundo.
— Não… eu—
— Pode ir embora — ele cortou, já impaciente.
Senti meu rosto esquentar.
— Eu não vim procurar emprego… eu—
Ele riu de novo.
— Olha pra você — disse, com desprezo. — Uma pé-rapada como você acha mesmo que pode sentar no mesmo lugar que o senhor Rafael?
Aquilo foi como um tapa. Meu corpo inteiro travou. Minha garganta secou. As palavras sumiram. Senti um nó se formar. Vergonha. Humilhação. Tudo junto.
Baixei o olhar por um instante. E, naquele momento… eu só queria sair dali. Dar meia volta. Ir embora. Antes que piorasse. Antes que mais alguém visse aquilo.
Dei um passo pra trás, mas, antes que eu conseguisse sair… uma voz interrompeu. Firme. Fria. Perigosa.
— O que você disse?
Levantei o olhar na mesma hora e lá estava ele. Rafael. Parado. Olhar travado no garçom. A expressão fechada. Pesada.
O ambiente mudou na hora. O garçom travou.
— Senhor… eu—
— Você acha mesmo que pode falar assim com alguém que está comigo? — A voz dele saiu baixa, mas cheia de autoridade.
O homem engoliu seco.
— Eu não sabia que ela—
— Você não precisa saber — ele cortou. — Você precisa respeitar.
O silêncio caiu. Pesado. Constrangedor. Eu fiquei parada. Sem saber onde enfiar a cara. Sem saber o que fazer. Sem saber nem como respirar direito.
Foi quando ele virou o olhar pra mim. E, pela primeira vez… a expressão dele suavizou um pouco.
— Vem!
Simples assim. Sem pressão. Sem julgamento. Só… um convite.
Eu assenti de leve, ainda sem voz. E caminhei até ele. Sentindo todos os olhares. Sentindo meu coração batendo forte.
Ele não falou mais nada pro garçom. Nem olhou pra trás. Apenas colocou a mão de leve nas minhas costas e me guiou pra dentro.
E, naquele momento… mesmo ainda envergonhada… eu senti que, pelo menos ali… eu não estava sozinha.