Capitulo 13

1302 Words
RAFAEL NARRANDO CONTINUAÇÃO ... Assim que desembarquei no aeroporto, eu não perdi tempo. Nem olhei ao redor direito. Nem esperei. Roberto já sabia. Antes mesmo de eu sair completamente da área de desembarque, ele já estava vindo na minha direção, apressado, com o carro praticamente pronto. — Senhor — ele disse, abrindo caminho. — O Benjamim está chorando — falei direto, sem rodeios, já caminhando ao lado dele. — Eu preciso chegar em casa o mais rápido possível. Ele não fez perguntas. Não precisava. Só assentiu. — Entendi. E aquilo bastou. Em poucos segundos, já estávamos dentro do carro. A porta fechou, e ele deu partida sem perder tempo. O motor respondeu na mesma hora, e eu senti o carro ganhar velocidade antes mesmo de eu terminar de ajustar o cinto. Encostei a cabeça no banco por um segundo, mas não era descanso. Era tensão. Minha mente ainda estava presa nas imagens das câmeras. No choro. Na forma como ele se jogava no chão. Na forma como ela… não fazia nada. Passei a mão pelo rosto, tentando controlar a ansiedade que crescia dentro de mim. — Vai mais rápido — pedi, a voz mais baixa, mas firme. — Já estou no limite, senhor — Roberto respondeu, focado na estrada. Assenti, olhando pela janela. Cada semáforo parecia demorar mais. Cada carro na frente parecia estar no caminho errado. Tudo estava lento demais. E eu precisava chegar. Precisava ver ele. Precisava ter certeza de que estava tudo bem. Foram vinte minutos. Mas, pra mim, pareceram horas. Quando o carro finalmente entrou na garagem da minha casa, antes mesmo de ele parar completamente… eu já ouvi. O choro. Alto. Desesperado. Meu peito apertou na hora. — Merda… — murmurei, já abrindo a porta antes mesmo de o carro desligar. Saí rápido, quase batendo a porta, e acelerei o passo em direção à entrada. E quanto mais eu me aproximava… mais alto ficava. Aquilo me atingia direto. Cada som. Cada grito. Cada respiração falhada. Abri a porta sem hesitar. E a cena que encontrei só confirmou tudo. Isabela. Na sala. Com o Benjamim no colo. Mas não era natural. Era forçado. Assim que ela me viu, foi automático. Ela mudou. Na mesma hora. A postura, o tom, o jeito… — Calma, meu amor… não chora… vai ficar tudo bem — ela dizia, balançando ele de um jeito ensaiado demais. — O papai tá trabalhando, mas ele já vai chegar, tá? Aquilo me irritou instantaneamente. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa… ele me viu. E, no mesmo segundo… ele saiu do colo dela. Sem hesitar. Sem pensar. Correu. Direto na minha direção. — PAPAI! Aquele grito… aquele som… foi como um impacto direto no meu peito. Me abaixei na mesma hora, abrindo os braços, e ele praticamente se jogou neles. Segurei firme. Levantando ele do chão, trazendo contra o meu corpo. — Tá tudo bem… — falei, passando a mão pelas costas dele, sentindo o corpo ainda tremendo. — Eu já cheguei… já tô aqui… você não precisa mais se preocupar, tá? Ele enterrou o rosto no meu pescoço, chorando mais baixo agora, agarrado na minha camisa. E, naquele momento… nada mais importava. Só ele. Só o fato de eu estar ali. Com ele. Passei a mão pelo cabelo dele, devagar, tentando acalmar. E, aos poucos… o choro foi diminuindo. Foi quando eu levantei o olhar. E vi. Isabela. Parada ali. Com aquele sorriso. Um sorriso que me irritava. Como se estivesse certa de alguma coisa. Como se tivesse feito algo certo. — Ainda bem que você chegou — ela começou, dando um passo na minha direção. — Eu tive que vir pra cá, Rafael. Fiquei preocupada. Você estava fora do estado, e quando eu vi que a babá estava cuidando dele tudo errado… Minha expressão fechou na mesma hora. — Tudo errado? — repeti, a voz baixa, mas carregada. — Sim — ela continuou, sem perceber o peso do que estava dizendo. — Eu cheguei e vi tudo. A alimentação, o jeito… completamente despreparada. Eu não podia deixar ele assim, então vim o mais rápido possível. Fiquei em silêncio por um segundo. Só olhando pra ela. E então fiz a pergunta. — Como você teve acesso às câmeras da minha casa? Ela travou. Na hora. O sorriso desapareceu. Os olhos piscaram rápido demais. — Eu… — ela começou, claramente sem estar preparada. — No dia que instalaram… o rapaz precisava colocar em um celular… e acabou colocando no meu. Inclinei levemente a cabeça. — E você esqueceu de me contar? — Eu… acabei esquecendo, Rafael. Foi tudo muito corrido… Soltei um ar pelo nariz, sem humor nenhum. — Esqueceu. Antes que eu respondesse qualquer coisa… senti o Benjamim se mexer nos meus braços. Afastei um pouco pra olhar pra ele. Os olhos ainda vermelhos, o rosto marcado pelo choro… mas agora mais calmo. — Papai… — ele chamou, a voz baixinha. — Oi, filho… — A Duda… Meu corpo travou por um segundo. — A Duda? — repeti. — Cadê ela? Aquilo me pegou completamente desprevenido. O Benjamim… perguntando por alguém? Nunca. Nunca aconteceu. A não ser… pela mãe. E ainda assim… raramente. Engoli seco, olhando pra ele. — Ela… foi pra casa resolver algumas coisas — respondi, mantendo a voz calma. Ele fez uma pequena careta. — Você pode ligar pra ela? Franzi levemente a testa. — Pra quê? — Pra ela vir brincar comigo… — ele respondeu, simples. — Eu gostei dela. Aquilo me atingiu de um jeito que eu não esperava. Forte. Direto. Porque não era só uma frase. Era o que estava por trás dela. Ele gostou dela. Meu filho. Que não gosta de ninguém. Que não se conecta. Que não confia. Gostou. Virei o rosto devagar na direção da Isabela. Minha paciência acabou ali. — Pode ir embora. Ela piscou, surpresa. — Rafael, eu só— — Eu mandei você ir embora — cortei, direto. Minha voz saiu mais firme. Mais fria. — E escuta bem o que eu vou te falar — continuei, dando um passo à frente. — Se eu descobrir que você ainda tem acesso às câmeras da minha casa… ou se você se meter na minha vida mais uma vez sem autorização… — Dei um pequeno intervalo. — Você está demitida. O silêncio caiu pesado. Ela engoliu seco. Assentiu, sem discutir. — Eu entendi. E saiu. Rápido. Como um furacão que entra… e vai embora. Assim que a porta se fechou, a casa finalmente pareceu respirar. Olhei pro Benjamim nos meus braços. Ele já estava mais tranquilo. Cansado. — Vamos tomar um banho, campeão — falei, ajustando ele melhor no colo. Ele assentiu de leve. Levei ele até o quarto. E, enquanto preparava tudo… ele continuou. — Papai… — Oi? — A Duda pode voltar? Parei por um segundo. Olhei pra ele. — Por quê? — Pra brincar comigo… — ele respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Soltei um ar baixo. Aquilo ainda era novo pra mim. Mas, ao mesmo tempo… fazia sentido. — Vamos ver, tá bom? Ele assentiu. E, enquanto eu ajudava ele com o banho, lavando o cabelo, enxaguando, cuidando… ele continuava falando dela. Perguntando. Comentando. Relembrando. E, pela primeira vez… eu não vi resistência. Eu não vi bloqueio. Eu vi conexão. Saí do banheiro com ele enrolado na toalha, levando de volta pro quarto. E, enquanto secava o cabelo dele… uma coisa ficou clara na minha cabeça. Talvez… talvez aquilo fosse exatamente o que eu precisava. Alguém que ele aceitasse. Alguém que ele confiasse. Alguém que pudesse ficar com ele… enquanto eu voltava a fazer o que precisava ser feito. Enquanto eu voltava a comandar tudo. Mas, dessa vez… com a certeza de que ele estaria bem. Seguro. E, pela primeira vez em muito tempo… aquilo parecia possível.
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