capitulo 14

1169 Words
Eduarda narrando Eu não sei exatamente que horas eram quando acordei, mas sei exatamente o motivo. Um barulho alto. Forte. Repetitivo. Como se alguém estivesse tentando derrubar a porta. Demorei alguns segundos pra entender o que estava acontecendo. Minha cabeça ainda estava pesada, meu corpo cansado… parecia que eu tinha acabado de deitar. Na verdade, eu tinha mesmo. Dormi rápido demais. Apaguei, mas aquele barulho insistente não dava trégua. — Já vai! — Falei meio embolado, a voz rouca de sono. Levantei da cama ainda de pijama, sentindo o corpo reclamar imediatamente. Minhas pernas doíam, meus pés então… nem se fala. Cada passo era um lembrete da caminhada de ontem. Arrastei os pés até a porta, ainda bocejando, esfregando os olhos com a palma da mão. Quando abri… — AMIGA! Rebeca entrou como um furacão. Nem esperou. Nem pediu licença. Simplesmente passou por mim carregando uma sacola. Eu pisquei algumas vezes, tentando raciocinar. Fechei a porta devagar atrás dela. — O que que tá acontecendo? — Perguntei, ainda meio perdida. Ela já estava indo direto pra cozinha. — Vim te ver! — Respondeu animada. — Trouxe café da manhã pra gente, porque eu tava com saudade. Soltei um suspiro baixo, caminhando atrás dela. — Você quase derrubou a porta… — Drama — ela respondeu, colocando as coisas na bancada. Eu encostei na parede da cozinha, cruzando os braços, ainda com cara de sono. — Acredita que eu tive que voltar pra casa andando ontem? — Falei, lembrando na hora. Ela virou o rosto pra mim, já arregalando os olhos. — Como assim? — Apareceu uma mulher louca lá… dizendo que era assistente do senhor Rafael… e simplesmente me mandou embora. Rebeca revirou os olhos na hora. — Deve ser a Isabela. Franzi a testa. — Você conhece? — Conhecer eu não conheço — ela respondeu, abrindo o pão. — Mas meu pai vive falando dela. Diz que essa mulher é uma cobra. Que sente que ela não presta. Fiquei em silêncio por um segundo, lembrando do jeito que ela me olhou… do tom… da forma como falou comigo. — Ela me pareceu uma pessoa muito soberba… — comentei. — Como se fosse melhor do que todo mundo. — Exatamente!— Rebeca concordou, balançando a cabeça. Me aproximei mais da bancada. — E eu tive que voltar andando… Ela parou o que estava fazendo e me olhou. — Por que você não me ligou? Dei de ombros. — Pra quê? — Pra eu te mandar dinheiro, ué! Pra você pegar um Uber! Balancei a cabeça na hora. — Amiga… você já me ajuda tanto. Eu não quis te incomodar mais. Ela soltou o pão na bancada com um pouco mais de força do que o necessário. — Para de palhaçada, Eduarda. Abri a boca pra responder, mas acabei rindo fraco. — Sério… — Sério nada! — Ela cortou. — Você tem que parar com isso de querer resolver tudo sozinha. Respirei fundo, sem saber muito o que dizer. — Não… e você não sabe — falei, mudando de assunto. — Depois ainda caiu um Pix de cinco mil reais na minha conta. Do doutor Rafael. Ela congelou por um segundo. — Cinco mil? Balancei a cabeça, confirmando. — Uhum. — Amiga… — ela abriu um sorriso incrédulo. — Com certeza não tá errado. Franzi a testa. — Como assim não tá errado? Eu nem cumpri minha carga horária. Ela riu. — Eduarda… ele é rico. Muito rico. Cinco mil pra ele não faz nem cócegas. Cruzei os braços. — Mas não é certo… — Claro que é! — Ela insistiu. — Você ficou com o filho dele. Trabalhou. Só saiu porque aquela louca te mandou embora, não porque você quis. Mordi o lábio, pensativa. — Mas e se eu gastar… e depois ele pedir de volta? — Para com isso — ela disse, voltando a mexer no café. — Você pensa demais. Suspirei, me sentando na cadeira. Fiquei olhando ela preparar tudo, enquanto minha cabeça girava. O dinheiro. O aluguel. A comida. O desespero. Tudo misturado. Mas, no fundo… eu ainda sentia que não era certo. — Vou escovar os dentes — falei de repente, me levantando. — Vai lá! — Ela respondeu. Fui até o banheiro, prendendo o cabelo em um coque bagunçado. Olhei pro espelho por um segundo. Olheiras. Cansaço. Mas ainda ali. Respirei fundo, lavei o rosto e escovei os dentes, tentando acordar de verdade. Quando voltei pra cozinha… o café já estava pronto. Pão, café, algumas frutas… simples, mas parecia um banquete pra mim. Sentei. — Obrigada… — falei baixo. Ela sorriu de leve. — Para com isso. Começamos a comer. E, por alguns minutos… parecia que tudo estava normal. Conversamos. Rimos. Ela começou a me contar coisas da faculdade. Matérias. Professores. Trabalhos. Eu ouvi tudo com atenção, tentando acompanhar, mas no fundo… meu coração apertava. Porque, eu queria estar lá também. Queria ter terminado. Queria ter continuado... mas não deu... e tudo bem. — Você ainda vai voltar — ela disse, como se lesse meus pensamentos. Sorri fraco. — Quem sabe… — Não “quem sabe”. Vai. Balancei a cabeça, sem discutir. Porque, no fundo… eu também queria acreditar nisso. Terminamos de comer, e ela começou a se levantar. — Já vai? — perguntei. — Tenho que ir — respondeu. — Vou sair com a minha mãe. Assenti. — Obrigada por ter vindo! Ela se aproximou e me abraçou rápido. — Qualquer coisa, você me liga. Sem frescura. — Tá bom… Ela pegou as coisas e saiu. Fui até a porta, fechando atrás dela. Assim que fiquei sozinha… o silêncio voltou. Olhei ao redor. Suspirei e fui pro banho. A água caiu sobre mim, morna, confortável… e por alguns minutos, eu só fiquei ali. Sem pensar. Sem sentir. Só existindo. Foi quando ouvi. Meu celular tocando. Ignorei. Depois, uma notificação. Também ignorei. Fechei os olhos, deixando a água cair. Por um minuto… pensei e se eu vendesse meu celular? Talvez, desse pra pagar pelo menos uma parte do aluguel. Mas aí… como eu ia me virar depois? Como ia falar com alguém? Arrumar trabalho? Não… não dava. Desliguei o chuveiro e saí. Me enrolei na toalha, indo direto pro quarto. Peguei o celular. Desbloqueei. E foi aí que eu vi. Mensagem. Dele. Meu coração disparou na hora. Abri. — Estou esperando você às 12h30 no bistrô do centro. Parei de respirar por um segundo. Continuei lendo. —Não se atrase. O Benjamim está acostumado a almoçar nesse horário. O Carlos irá buscar você às 11:40. Fiquei parada. Imóvel. O celular na mão. Relendo. De novo e de novo, e de novo. Meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvir. Ele estava me chamando. Pra ver o filho dele. Pra ir até ele. Passei a mão no rosto, completamente sem reação. — Meu Deus… — sussurrei. E agora? O que eu respondo? O que eu faço? Olhei pra mensagem mais uma vez. E, pela primeira vez desde que acordei… meu dia realmente começou.
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