Eduarda narrando
Eu juro que meu coração quase saiu pela boca quando o celular vibrou no bolso da minha calça. Minha intenção era tranquilizá-lo, mas acho que fiz besteira.
Benjamin se acomodou no sofá da sala — ele já estava menos vermelho, mas ainda fungava como se estivesse a ponto de abrir outra tempestade — tirei o telefone com a mão tremendo. Quando vi o nome Rafael Montenegro na tela, minhas pernas ficaram moles.
—Eduarda, acabei de chegar ao aeroporto e recebi a sua mensagem. Antes de qualquer coisa preciso dizer algo com clareza:
Benjamin NÃO pode comer esse tipo de coisa. Está nas instruções — as que eu deixei em cima do balcão da cozinha, exatamente para você ler antes de tomar QUALQUER decisão.
Meu filho tem alergias. Ele tem episódios de vômito, crise de dor de barriga e fica extremamente agitado quando consome açúcar ou alimentos industrializados.- terminei de ler a mensagem e meu corpo todo se tremia.
Meu estômago se revirou. Me deu até calor, como se alguém tivesse acendido uma fogueira dentro da minha roupa. Eu queria responder na hora, mas só conseguia encarar a mensagem como se ela fosse uma sentença de morte.
Eu... eu tinha acabado de ferrado tudo no meu primeiro dia.
Respirei fundo — ou tentei, porque estava presa naquele meio termo entre o pânico e a vontade de chorar — e comecei a digitar, apagando e escrevendo de novo umas oito vezes.
— Senhor Rafael, me desculpa, por favor… eu não sabia que ele tinha alergia, eu juro. Eu não cheguei a ver as instrução que estava na geladeira. Eu não tive a intenção de machucar o Benjamin. Eu… eu preciso muito desse emprego. Então se o senhor puder me perdoar, prometo que seguirei as instruções ao pé da letra.
Fiquei olhando para a mensagem por uns segundos que pareceram uma eternidade. Então enviei. E foi como jogar uma garrafa no mar, sem saber se alguém ia encontrar ou se ia afundar de vez. A mensagem foi enviada porém não foi entregue o que me preocupou ainda mais.
Benjamin fungou atrás de mim, e isso foi o suficiente pra me trazer de volta ao presente. Ele coçava a pontinha do nariz com as costas da mão, meio aborrecido, meio cansado. Uns fiapos de cereal ainda estavam grudados na camiseta dele. Meu coração se torceu todo de novo.
— Ei… — eu me aproximei devagar, tentando não parecer desesperada, mas provavelmente falhando miseravelmente. — Tá sentindo alguma coisa? Coceira? Falta de ar? Dor na barriga?
Ele me olhou como se eu fosse meio maluca.
— Tô só triste — disse, baixinho.
Eu quase desabei.
Não era reação alérgica. Não ainda. Mas era tristeza. E eu não sabia lidar com criança triste.
Meu instinto foi fazer alguma coisa, qualquer coisa, pra mudar o humor dele. Então eu corri até o cesto de brinquedos que ficava no canto da sala e puxei alguns: carrinhos, blocos, bonecos de super-herói meio arranhados, um dinossauro que fazia barulho.
— Olha aqui… — eu me ajoelhei na frente dele. — Qual desses você mais gosta?
Ele não hesitou. Nem piscou. E, pela primeira vez desde que abriu os olhos chorando, surgiu um brilho no olhar dele.
— Minha pista de corrida.
— Sua pista de corrida? — repeti, como se fosse a melhor notícia do ano. — Onde ela fica?
— No meu quarto — ele respondeu, já levantando de um jeito impaciente. — Eu vou pegar!
Antes de eu conseguir avisar pra ele não correr, o menino já tinha sumido pelo corredor, as meias escorregando no piso, e eu tive um mini-infarto cada vez que escutava um “toc toc toc” ecoando da direção do quarto.
Mas ele voltou inteiro. E trazendo uma caixa grande, pesada demais pra idade dele, mas ele vinha abraçado nela como se fosse um tesouro.
— Me ajuda! — pediu, deixando a caixa cair no tapete com um thump.
Eu me ajoelhei, abri a tampa e… era realmente um tesouro. Uma pista enorme, com loopings, pontes, curvas elevadas, até um pedaço que brilhava no escuro.
Benjamin sentou com as pernas cruzadas e começou a juntar peças, desajeitado e ansioso. E eu… eu esqueci por alguns minutos que meu emprego provavelmente tinha ido pro espaço.
Montar aquela pista foi como resolver um quebra-cabeça gigante, com instruções que definitivamente foram escritas por alguém que odeia pais. Mas Benjamin me mostrava, apontava onde ia cada coisa, e quando eu encaixei a última curva ele bateu palminhas.
— Eu quero ver ele fazer o loop! — pegou um carrinho azul metálico e colocou na largada.
Eu dei corda e soltei.
O carrinho fez a volta completa, subiu a rampa, deu o looping e caiu do outro lado com um barulho seco. Benjamin abriu um sorriso enorme — desses que iluminam o rosto inteiro — e eu senti o peito aliviar um pouco.
Nem parecia mais aquele menino desesperado que acordou achando que estava morrendo. Agora ele ria, mostrava o carrinho favorito, explicava como a pista funcionava como se fosse um engenheiro mirim.
Era lindo. E doloroso ao mesmo tempo.
Porque eu não sabia por quanto tempo eu teria permissão de ficar ali.
Quando ele finalmente se distraiu numa repetição infinita de corridas e quedas, eu respirei fundo e fui até a bancada da cozinha. Eu precisava encontrar a bendita instrução que o senhor Rafael tinha mencionado. Talvez… talvez eu pudesse provar que não tinha inventado aquele cereal do nada.
A casa estava silenciosa. Só dava pra ouvir o “vrum!” exagerado do Benjamin ao fundo. Eu caminhei devagar até a geladeira, com o coração socando minhas costelas, e puxei o papel preso com um ímã preto fosco.
Era uma folha branca, dobrada no meio. Eu abri.
E estava lá, escrito com letra firme e organizada:
“CAFÉ DA MANHÃ: dar torradas sem leite.
SÓ SEM LEITE.
Ele não toma leite.
Não dar frutas cítricas.”
Eu li aquilo três vezes.
Sem cereal. Sem leite.
Exatamente o que eu tinha feito.
Meu peito se apertou de novo, mas dessa vez foi de indignação. Eu não tinha inventado nada. Eu não tinha sido negligente. Eu não tinha seguido o que estava escrito — e me sinto culpada da situação.
O celular vibrou de novo na minha mão.
Por um instante, eu desejei que fosse qualquer pessoa menos ele: minha amiga, até mensagem de operadora serviria. Mas não. Era o nome dele outra vez.
Tive que respirar fundo antes de abrir.
— Eduarda, estou vendo as câmeras agora. Precisamos conversar quando eu chegar.
As câmeras.
Meu Deus.
Ele estava vendo tudo. Cada detalhe. Cada segundo desde que ele saiu de casa.
Eu senti minhas mãos gelarem.
“Quando eu chegar.”
Ou seja, não era agora. Não era uma resposta brava ou um ultimato. Era… esperar. E eu não sabia o que era pior: levar uma bronca na hora ou ficar com aquela sombra de incerteza pesando na minha cabeça.
Voltei meus olhos para a pista e Benjamin, que agora estava brincando no chão, deitado de barriga pra baixo, levando o carrinho com a ponta do dedo. Ele parecia tão tranquilo, tão alheio ao caos dentro de mim, que eu quase tive vontade de sentar no chão e chorar.
Eu precisava muito daquele emprego.
Com todas as forças.
O dinheiro não era luxo — era sobrevivência. Era aluguel. Era comida. Era a chance de ter estabilidade pela primeira vez em meses.
E eu estava prestes a perder tudo por causa de um cereal com leite.
— Eduarda! — a voz do Benjamin me puxou de volta. Ele estava sentado, segurando um carrinho amarelo. — Coloca esse aqui pra correr também!
Eu sorri, mesmo com o coração pingando no peito.
— Claro, campeão. Me dá ele.
Sentei ao lado dele no tapete, tentando fingir normalidade enquanto por dentro eu era um furacão de nervos. Joguei o carrinho na pista, fiz barulho de motor, até brinquei de narrar corrida, e o riso dele virou uma pequena âncora me impedindo de afundar.
Mas a cada olhar para o celular, a cada vibração fantasma que eu imaginava sentir, a cada segundo do relógio na parede avançando, a mesma frase ecoava na minha cabeça:
Quando ele chegar.
E, sinceramente…
Eu não fazia ideia do que ia acontecer quando a porta daquela casa finalmente abrisse.
Olhando para o Benjamin naquele momento eu não consegui entender o motivo de nenhuma babá dar certo para cuidar dele, sendo que ele é só um menino que precisa de atenção e ser tratado como uma criança normal.