Rafael narrando
Existem decisões que parecem certas até o exato segundo em que você as toma.
E existem aquelas que parecem desesperadas desde o início, mas você finge que não vê para conseguir seguir em frente.
Deixar o Benjamin com uma estranha antes do sol nascer se encaixava perfeitamente na segunda categoria.
No banco do aeroporto, rodeado de gente apressada, malas barulhentas e vozes falando línguas que eu não tinha paciência para identificar, tudo o que eu conseguia pensar era: o que diabos eu fiz?
O relógio marcava 7h12. O voo decolaria em vinte minutos. O café na minha mão já estava frio. E minha cabeça martelava.
Eu nem vi o rosto daquela menina. Só vi uma foto que aparentemente ela está vestida de algum personagem em cosplay, com o cabelo rosa parecendo até uma criança.
Minha casa estava quieta quando saí — quieta demais. Benjamin dormia, encolhido com o ursinho da mãe. Eu fechei a porta do quarto dele devagar, tentando ignorar a sensação de estar cometendo um crime emocional.
E então simplesmente fui.
Eu deveria, no mínimo, ter esperado a garota chegar. Olhado nos olhos dela. Perguntado… qualquer coisa.
Mas não. Eu só deixei uma pasta com instruções — detalhadas até demais — em cima do balcão da cozinha e fugi como um covarde.
Respirei fundo. Passei a mão pelos cabelos.
— Você está fazendo isso pelo seu filho — murmurei para mim mesmo. — Você precisa dessa viagem. Precisa resolver esse problema. São só dois dias. Dois.
Dois dias que pareceriam uma eternidade.
Meu celular vibrou no bolso, tirando meus pensamentos do buraco n***o. Peguei sem pensar.
Mensagem de número desconhecido.
Mas eu sabia quem era.
Eduarda.
Abri o chat.
A mensagem era curta:
— Ele acordou agora. Está comigo.
E logo abaixo…
uma foto.
Benjamin sentado no sofá, olhos ainda inchados de choro, mas comendo cereal dentro de um pote colorido.
Cereal.
Meu coração parou por um segundo.
Cereal.
Criança de quatro anos.
Com alergia alimentar.
Com histórico de vômitos quando come guloseimas.
Com sensibilidade.
Cereal.
Eu apertei o celular tão forte que pensei que ia quebrar a tela.
— Não… não… não… — murmurei, me levantando abruptamente.
Comecei a andar de um lado para o outro, ignorando completamente as pessoas ao meu redor. Algumas até olharam, mas não me importei.
Eu deixei TUDO anotado.
Em letras grandes.
Em tópicos.
Em folhas separadas.
NADA de açúcar. NADA de industrializados. NADA de “porcarias”.
E a primeira coisa que aquela garota fez foi…
— Cereal — rosnei baixo. — Meu Deus, essa garota está completamente louca.
Senti minha respiração acelerar. Uma mistura de medo e raiva.
E se ele passasse m*l?
E se tivesse uma crise?
E se…?
Engoli um palavrão.
Não. Não podia começar a pensar no pior. Mas era inevitável. Benjamin era sensível. Quase tudo desregulava o organismo dele.
Como alguém contratado para cuidar de uma criança simplesmente IGNORA as instruções deixadas na casa?
Eu abri a foto de novo. O cérebro dividido entre alívio por ver que ele não estava chorando… e revolta pelo que ela estava fazendo.
Crianças se acalmam com comida. Isso eu sabia.
Mas não com esse tipo de comida.
Peguei o celular e comecei a digitar. As palavras saíam rápidas, furiosas, quase impulsivas.
— Por que você está dando isso para ele?
Apaguei.
Comecei de novo.
— Você leu as instruções que deixei?
Apaguei outra vez.
Eu não queria parecer um monstro.
Só que… eu estava surtando.
Fechei os olhos, respirei fundo e deixei tudo sair, exatamente como meu cérebro estava pensando.
Escrevi um texto enorme, quase sem pausar.
— Eduarda,
Acabei de chegar ao aeroporto e recebi sua mensagem. Antes de qualquer coisa, preciso dizer algo com clareza:
Benjamin NÃO pode comer esse tipo de coisa.
Está nas instruções — as que eu deixei em cima do balcão da cozinha, exatamente para você ler antes de tomar QUALQUER decisão.
Meu filho tem alergias. Ele tem episódios de vômito, crises de dor de barriga e fica extremamente agitado quando consome açúcar ou alimentos industrializados.
Eu sabia que estava arriscando ao deixá-lo com alguém que eu sequer conhecia, mas eu realmente esperava que você fosse ao menos responsável o suficiente para seguir o que eu pedi.
Isso que você fez pode prejudicar meu filho.
SE algo acontecer, a responsabilidade é inteiramente sua.
Eu preciso que você leve esse trabalho a sério.
Estou viajando, não posso voltar agora — mas se eu voltar e encontrar meu filho passando m*l por causa disso, você vai sair da minha casa na hora.
Leia TODAS as instruções imediatamente.
Espero que você não repita esse tipo de erro.
Reler aquilo fez meu estômago revirar. Parecia duro demais. c***l até.
Mas eu estava no limite. Era o meu filho. Meu único filho. A única parte da Helena que ainda respirava.
E eu deixei uma estranha cuidar dele.
Apertei “enviar”.
O celular vibrou confirmando o envio, e imediatamente senti um arrependimento quente subir pelas costas.
Mas ao mesmo tempo… não.
Eu não podia ser flexível quando se tratava da saúde do Benjamin. Já tinha visto ele sofrer antes. Já o tinha levado ao hospital três vezes naquele mesmo ano por causa de descuido de outras babás.
Eu não admitiria que isso acontecesse de novo.
Continuei andando, agora mais devagar, tentando diminuir o aperto no peito.
O alto-falante do aeroporto anunciou o embarque do meu voo, mas eu demorei a processar.
Me sentei por um segundo.
Passei a mão no rosto.
Eduarda.
Eu m*l lembrava do nome dela duas horas atrás.
E agora estava aqui, no aeroporto, brigando com o ar por causa dela.
Droga.
Eu deveria ter falado com ela antes.
Olhar nos olhos dela.
Ver se era confiável.
Avaliar seu comportamento.
Mas a vida não espera ninguém. E eu tinha responsabilidades demais, pressões demais, culpas demais.
— Desculpa, Ben… — murmurei baixinho.
O anúncio do embarque soou de novo. Levantei-me como um robô, peguei minha mala e me dirigi ao portão.
Antes de entrar no avião, olhei a foto mais uma vez.
Benjamin.
Comendo cereal.
Quieto.
E algo desconfortável nasceu dentro de mim.
Ele parecia… calmo.
Com uma estranha.
Mais calmo do que com as últimas cinco babás juntas.
Balancei a cabeça, espantando o pensamento. Não. Era só o cereal. Criança adora besteira.
Apertei o celular na mão e entrei no avião.
Quando sentei, coloquei o cinto e fechei os olhos.
A culpa veio primeiro.
Depois a raiva.
Depois o medo.
E por fim… a estranha sensação de que, apesar de tudo, alguma coisa estava diferente.
Eduarda.
Eu não fazia ideia de quem ela realmente era.
Mas uma coisa era certa:
Se ela achava que eu seria fácil de lidar, estava extremamente enganada.
O avião começou a se mover.
E pela primeira vez desde que Helena morreu, eu não sabia o que esperar do dia seguinte.