Eduarda narrando
O carro diminuiu a velocidade, e meu coração acelerou como se soubesse que estava chegando perto do perigo — ou da salvação, dependendo do ângulo. O motorista não disse uma palavra durante todo o trajeto, e eu também não tinha muita coragem de puxar assunto. Estava ocupada demais tentando me convencer de que eu não estava prestes a cometer um erro gigantesco.
Ou talvez estivesse. Mas eu precisava dele.
O carro parou diante de uma casa enorme, bonita de um jeito silencioso, com janelas grandes e arquitetura moderna. Parecia mais um lugar de revista do que uma casa onde uma criança vivia. Suspirei, ajeitando a alça da mochila nas costas.
Minha mochila…
Nela tinha três roupas, uma foto dos meus pais, um bloco de anotações — e algumas comidinhas que eu comprei com as últimas moedas: um pacote de salgadinho simples, barras de cereal e um pacotinho de cereal de bolinhas de chocolate. Eu não fazia ideia do que crianças gostam, mas lembro que eu amava comer essas coisas.
O motorista me lançou um olhar neutro.
— O senhor Montenegro já saiu — ele avisou. — Teve uma emergência na filial, partiu há cerca de meia hora. Ele deixou instruções: era para deixar você dentro da casa e trancar o portão ao sair. A babá anterior foi embora antes do combinado.
Antes do combinado.
Ótimo. Maravilha. Excelente sinal.
Assenti, tentando não parecer mais perdida do que eu realmente estava.
O portão abriu com um bip, e o motorista me guiou até a porta. Ele a destrancou, abriu e fez um gesto para que eu entrasse.
— Boa sorte — disse simplesmente.
O tipo de frase que deveria vir acompanhada de um crucifixo ou de um “que Deus te proteja”.
Entrei.
A porta se fechou atrás de mim. O som ecoou pela casa enorme, e eu engoli seco. Tudo era arrumado demais. Limpo demais. Silencioso demais.
E então ouvi.
Um chorinho.
Baixo.
Sufocado.
E, de repente, alto.
Muito alto.
Meu corpo reagiu antes da minha cabeça. Segui o som como se fosse puxada por um fio invisível. Subi as escadas devagar, quase sem respirar, até parar diante de uma porta entreaberta.
Ali.
Um menininho pequeno, com cabelos castanhos dourados e rosto encharcado de lágrimas, estava sentado na cama, abraçando um ursinho com tanta força que dava para ver os dedinhos tremendo.
— Papai… papai… papaaaai… — ele chorava, soluçando, com a voz partida.
Meu coração caiu aos meus pés.
Eu nunca tinha lidado com crianças, mas eu sabia identificar dor. Dor reconhece dor.
— Oi… — murmurei, baixinho, como se estivesse chegando perto de um animalzinho assustado.
Ele nem me olhou. Chorava de um jeito que fazia o peito de qualquer pessoa doer.
— Oi, Benjamin… eu sou a Eduarda — continuei, me ajoelhando devagar. — Seu papai precisou viajar, mas ele vai voltar logo, tá? Ele me pediu para ficar aqui com você.
Nada.
Só choro.
Mais forte.
Ele se encolheu, apertou o ursinho contra o rosto e gritou:
— PAPAAAAI!
Eu levantei e dei um passo para trás. Não porque eu quisesse fugir… mas porque aquilo me atingiu num lugar que eu tentei esconder nos últimos meses. O grito dele era o meu. O que eu nunca soltei, porque não tinha ninguém para ouvir.
Engoli a emoção quente que subiu pela garganta. Eu precisava ser forte. Forte por ele.
Devagar, me aproximei de novo.
— Benjamin… — falei, tentando manter a voz firme. — Eu sei que você quer seu pai. Eu juro que sei. Também sei como é sentir falta de alguém que a gente ama.
Ele continuou chorando, mas pela primeira vez, ele hesitou entre um soluço e outro.
Aproveitei.
Sentei no chão, cruzando as pernas, deixando claro que eu não ia tentar tocar nele ou chegar muito perto.
— Eu também perdi meus pais — continuei. Minha voz saiu fraca, mas verdadeira. — Não faz tanto tempo. E às vezes… eu também quero gritar por eles.
Os soluços diminuíram.
Ele ergueu o rostinho milímetros. Só milímetros… mas foi suficiente para eu ver os olhos dele procurando algo. Qualquer coisa.
— Dói, né? — perguntei.
Ele esfregou o nariz no ursinho. Não respondeu. Mas não gritou novamente.
Aos poucos, lentamente, o choro foi ficando mais baixo. Depois virou só fungada. E então… silêncio.
Eu respirei fundo, quase aliviada.
— Obrigada — sussurrei sem pensar. — Você não tem ideia do quanto eu já tava ficando nervosa.
Se ele entendeu? Provavelmente não. Mas seu corpo relaxou um pouco, o que para mim já era uma vitória.
Fiquei ali alguns segundos, esperando que ele se acostumasse com minha presença. Ele mantinha o ursinho apertado contra o peito, ainda desconfiado, mas não parecia prestes a desmoronar de novo.
Depois de um tempo, falei:
— Posso te oferecer um lanchinho? Eu trouxe umas coisinhas gostosas. Não sei se você vai gostar… mas posso tentar.
Ele não respondeu, mas virou o rosto o suficiente para me olhar rapidamente antes de esconder de novo.
Criança é rápida. Às vezes em silêncio, mas é.
Me levantei devagar, como se cada movimento pudesse iniciar outra explosão de choro, e fui até minha mochila que deixei no corredor. Abri com cuidado — na verdade, com desespero para não fazer barulho — e puxei o pacotinho de cereal. Era simples, baratinho, mas as crianças amam. Espero que ele goste também.
— olha só o que eu tenho, vamos até lá em baixo para você comer ?.- ele não respondeu.
Ele levantou do chão ainda com o ursinho nos braços e passou na minha frente indo em direção ao correr. Ele se sentou no sofá e pegou o controle da televisão. Fiquei esperando ele ligar ela, mais acho que ele não sabe.
Peguei um potinho que vi no armário. Coloquei o cereal dentro, abri a geladeira vendo se tinha leite para colocar junto e por sorte tinha uma garrafa enorme.
Caminhei até a sala e parei de frente pro sofá. Olhei pro Benjamim que agora está menos encolhido. Os olhinhos vermelhos, as bochechas molhadas.
Sentei longe o suficiente para não invadir o espaço dele e estendi o potinho.
— Aqui.— falei suave.
Ele olhou o pote. Depois olhou para mim. Depois para o pote outra vez.
E então levantou a mãozinha, devagarzinho, como se o ar à volta pudesse quebrar.
Pegou o pote.
E comeu.
Nada extravagante. Nada cinematográfico. Só ele levando o cereal à boca com os dedinhos tremendo.
Eu sorri.
E juro que senti meu peito abrir um pouquinho.
— Tem mais, se quiser — falei. — Posso colocar um desenhos para você também. Quer ver alguma coisa?
Ele mastigou. Engoliu. E… assentiu.
ASSENTIU.
Eu quase comemorei com um salto.
— Ótimo. — falei vendo ele comer.
Coloquei em um desenho qualquer — o primeiro canal infantil que apareceu — e ele se acomodou no sofá, pequeno, frágil… mas quieto.
Quieto.
Meu Deus. Eu queria abraçar esse silêncio.
Sentei num cantinho longe, observando-o sem pressão. Ele comia o cereal devagar, olhando para a tela como se aquilo fosse o primeiro momento de paz do dia.
Eu respirei fundo.
De repente, eu percebi que estava… bem.
— Obrigada, Benjamin… — murmurei baixinho. — Por ter parado de chorar. Eu precisava disso mais do que você imagina.
E ali, naquele sofá enorme, ao lado daquele menino triste que eu m*l conhecia, senti algo dentro de mim se ajeitar pela primeira vez em meses.
Talvez eu não fosse tão inútil quanto achava.
Talvez eu realmente pudesse cuidar dele.
E talvez, só talvez… eu conseguisse dar um jeito na minha vida.