Capitulo 03

1084 Words
Rafael narrando Assim que entrei no carro, o cheiro de couro e o motor ligado me atingiram ao mesmo tempo em que a culpa veio com força. Eu estava indo embora. De novo. Como se meu filho já não tivesse perdido o suficiente. Roberto bateu a porta do passageiro e deu a volta para assumir o volante. Ele estava tenso — dava para ver pela forma como segurava o celular e olhava para o relógio. Ele sabia o quanto essa viagem era importante para mim. E o quanto estava me rasgando por dentro ter que deixar Benjamin para trás com uma desconhecida. A chuva da madrugada começava a engrossar, pingos grossos no vidro. Roberto engatou a marcha e saiu com certa pressa. — Vou pegar o desvio — ele disse. — A estrada principal ainda tá parada. Assenti, mas nem ouvi direito. Minha cabeça estava em outra parte da cidade. Em uma cama pequena. Com um garoto de quatro anos segurando um urso velho como se fosse a única âncora dele no mundo. Eu desbloqueei o celular e abri a conversa com a Eduarda. A foto de perfil dela piscou na tela. Aquela fantasia infantil, aquele sorriso meio torto. Uma menina perdida tentando parecer forte. Meu Deus… por que eu estava fazendo isso? Porque eu precisava. Porque não existia outra escolha. Porque eu não podia falhar de novo. Digitei devagar, como se escrever fosse admitir que eu estava cometendo um erro: Rafael: Precisei sair antes do previsto. Benjamin ainda está dormindo. A porta estará aberta quando você chegar. No balcão da cozinha deixei as instruções. Qualquer coisa, me envie mensagem. Fiquei encarando aquelas palavras por uns bons segundos antes de apertar “enviar”. A sensação foi de um soco no peito. Roberto lançou um olhar breve pelo retrovisor. — Ele vai ficar bem, senhor. Eu soltei uma risada seca. — Você sabe tão bem quanto eu que ele não fica bem sem mim — respondi, apoiando o cotovelo na janela. — Ele não aceita ninguém. Ele… — minha voz falhou um pouco. — Ele ainda está preso naquele dia, Roberto. Como se o mundo tivesse acabado e só restasse eu para segurar tudo. Roberto não respondeu — e agradeci por isso. Eu não queria consolo. Consolo não traz Helena de volta. Consolo não devolve a infância que o Benjamin perdeu. Respirei fundo, tentando me convencer de que eu estava fazendo a coisa certa. Tentando me convencer de que aquela garota — aquela estranha — não ia sair correndo na primeira crise. Tentando me convencer de que eu não estava fodendo ainda mais a cabeça de um menino que já sofria demais. O problema é que eu não me convencia. Abri a janela um pouco, deixando o ar gelado bater no meu rosto. A cidade parecia acordar vagarosamente, com luzes amarelas surgindo nos prédios e algumas pessoas caminhando apressadas nas calçadas molhadas. Enquanto o carro avançava pelas avenidas úmidas, eu só conseguia pensar em uma coisa: E se ela não der conta? E se ele acordar e entrar em pânico? E se… — Respira, Rafael — Roberto disse de repente. — Vai dar tudo certo. A menina é de confiança. Eu fechei os olhos. — Espero que sim. Porque se não for… — minha voz endureceu — eu não sei o que vai sobrar de mim. Roberto não respondeu. Não precisava. Porque ele sabia. Ele estava lá no hospital. Ele viu quando o chão sumiu debaixo dos meus pés. Ele viu quando a Helena partiu. Ele viu quando Benjamin gritou tanto que perdeu a voz. Ele viu quando eu parei de ser gente e virei… Sei lá o quê. Um sobrevivente, talvez. Alguém que tinha perdido tudo, mas continuava respirando por obrigação. O celular vibrou nas minhas mãos. Um segundo de esperança. Talvez fosse a Eduarda respondendo. Mas não. Era só uma notificação do e-mail corporativo. Fechei a tela com força. Eu ia mandá-la embora no primeiro erro. Eu já sabia disso. Era injusto, mas era verdade. Eu não podia colocar meu filho em risco. Não podia colocar meu filho nas mãos de alguém que ainda parecia mais criança que ele. — O senhor quer que eu ligue para ela? — Roberto perguntou. — Não. — Passei a mão no rosto. — Se eu ouvir a voz dela agora, eu volto pra casa e mando cancelar o voo. E não posso fazer isso. — Entendi. A chuva engrossou ainda mais, e os faróis refletiam no asfalto como lâminas prateadas. Era estranho. Quase poético. O tipo de coisa que eu teria comentado com a Helena. Ela adorava chuva. Dizia que parecia que o mundo estava tomando banho para recomeçar. — Recomeço — murmurei para mim mesmo, encostando a cabeça no encosto do banco. — Como se eu soubesse fazer isso. O carro acelerou para pegar a estrada alternativa. E, enquanto a cidade ficava para trás, eu percebi que havia um vazio no banco ao meu lado que nunca seria preenchido. Não importava quantas pessoas entrassem e saíssem da minha casa. Não importava quantas babás eu contratasse. Não importava quantas viagens eu fizesse, quantos negócios fechasse, quantos milhões movimentasse. Nada apagava o fato de que metade de mim tinha ido embora com ela. E a outra metade… Bem… A outra metade fazia o que podia para sobreviver. Olhei para a tela do celular mais uma vez. A mensagem estava lá. Enviada. Sem resposta. Apertei o aparelho entre os dedos. — Por favor, Eduarda — murmurei, mais para o universo do que para ela — não desiste dele. Não hoje. Não como as outras. Porque se ela desistisse… Eu teria que voltar correndo. Ter que cancelar a reunião. Ter que abandonar tudo de novo. E, principalmente… Benjamin teria que aprender mais uma vez que, no mundo dele, ninguém fica. E eu prometi para ele — e para Helena — que eu nunca mais deixaria isso acontecer. Apertei os olhos com força, sentindo o peso daquela promessa esmagar meu peito. — Senhor, chegamos no aeroporto — Roberto disse, desacelerando o carro. Eu respirei fundo pela primeira vez desde que entrei no carro. O dia ainda estava escuro, cheio de incerteza. Mas, por algum motivo que eu não entendia, a imagem daquela menina de fantasia infantil, com aquele sorriso torto, não saía da minha cabeça. E eu só conseguia pensar em uma coisa: Se ela souber acalmar o Benjamin… talvez ela consiga me acalmar também. Mas isso era esperança demais para alguém que já não sabia respirar direito.
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