04

2128 Words
A primeira coisa que Onyx pensou em fazer assim que os grilhões saíram dos seus pulsos foi avançar até o punhal perto dos seus pés e atacar o vampiro, mas ele sabia muito bem que o cara seria bem mais rápido que isso, e embora ainda estivesse mantendo a fachada de ser amigável, uma hora ou outra aquela máscara ia cair, e só nesse momento Onyx precisaria agir, caso quisesse poupar forças e ganhar mais algum tempinho. Onyx esfregou os próprios pulsos, apesar do metal frio não tê-los machucado. Ele ainda se pegou surpreso com o calor que emanava do morto-vivo, apesar de ele ter certeza de que o coração dele não batia mais. — De onde vem esse calor? — Perguntou enquanto levantava do chão e dava batidinhas na sua roupa imunda, o que levantou uma nuvem de poeira. O vampiro se ergueu também e deu um passo para trás, fazendo o rapaz acompanhar cada movimento seu, ainda com a guarda completamente erguida. — É outra habilidade minha. — Atticus deu de ombros e abriu a mão esquerda. Onyx percebeu que os dedos pretos dele eram absurdamente longos e terminavam vem unhas curtas, além de tem algumas pequenas cicatrizes pela pele. O rapaz observou enquanto o ar acima da palma da mão aberta do vampiro começou a ficar agitado, do mesmo jeito acontece sobre asfalto em um dia absurdamente quente. Era como se uma onda de vapor estivesse saindo da palma do vampiro e agitando as moléculas de ar, e um segundo depois, uma bola de fogo surgiu a poucos centímetros acima da mão do cara. — Pirocinese. — Onyx cruzou os brancos e fingiu indiferença, tentando não parecer impressionado. As asas de Atticus se abriram levemente com a confirmação, como se ele estivesse dando de ombros, só que sem usar os ombros. — Vamos. Você ficou apagado por algumas horas. Deve estar com sede. — O vampiro virou e começou a andar em direção a saída daquela câmara vazia, quase acertando o rapaz com as asas pretas no processo. O olhar de Onyx recaiu sobre a adaga aos seus pés, então ele a pegou rapidamente, embora soubesse de alguma forma que era justamente isso que Atticus queria que ele fizesse. Ele colocou a adaga de volta na bainha presa na parte interna da sua calça imunda e começou a seguir o vampiro, percebendo que andar com apenas uns dos pés calçados o deixava manco, e sem muitas esperanças de encontrar o outro sapato, Onyx se livrou rapidamente do que estava usando. Após saírem do quarto cavernoso e virarem à esquerda, outra câmara se abriu diante de Onyx. Essa era bem mais espaçosa e com vestígios de ação humana — ou vampirística — por todos os lados. Havia uma cama gigantesca e que parecia ter sido tirada do século XIX em um dos cantos, e fora ela, baús e prateleiras estavam espalhados pelo resto da caverna. O olhar de Onyx recaiu sobre a entrada estreita na parede pedregosa logo à sua frente, a uns quinze metros de distância. Uma luz forte atravessava a entrada, então só podia ser dia e aquela era a saída. — Toma. — O vampiro absurdamente lindo até para os padrões dos mortos-vivos surgiu no seu campo de visão segurando um copo d'água e o estendeu para ele. O rapaz pegou o copo grande e analisou o conteúdo, constatando que se tivesse alguma coisa alí dentro, deveria ser incolor e líquido como água para não alterar sua aparência. A sua garganta estava arranhando tanto que ele resolveu não pensar muito, antes de levar o copo até os lábios e tomar todo o conteúdo dele em longos goles, quase chorando de alívio quando a água molhou sua garganta seca. O líquido não tinha gosto algum à não ser aquele levemente terroso que a água da região sempre tinha por ter sido tirada de leitos ou poços barrosos, embora todos já estivessem acostumados com isso. Onyx aproveitou o momento enquanto terminava de tomar a água para analisar o vampiro com mais calma. Ele deveria ser bastante velho para ter poderes como aqueles, além de que o rapaz jamais havia ouvido falar em algum vampiro que tivesse asas. O corpo gigantesco e musculoso dele deveria ter sido exatamente daquele jeito quando ele era humano, porque apesar da transformação deixar a pele lisa e retirar cicatrizes que não fossem absurdamente profundas, depois dela o vampiro não iria conseguir ganhar massa muscular ou qualquer coisa do tipo. Era como se tanto seus músculos e aparência ficassem estagnados justamente naquele momento. Onyx engoliu em seco quando seu olhar percorreu o peitoral largo e marrom escuro do vampiro, dando de cara com uma trilha de pêlos negros que começavam um pouco acima do seu umbigo e desapareciam dentro da calça justa, que evidenciava bem mais do que deveria. — Então. Pode me explicar como você é o que diz ser? Vampiros não conseguem ter filhos. — Atticus cruzou os braços sobre o peito nu e deu um passo para perto do rapaz, que engoliu em seco e encarou os olhos pretos como breu do vampiro, que até aquele momento foi o único que conseguiu hipnotiza-lo, embora não estivesse fazendo isso agora. — Minha mãe foi abusada por um de vocês. Ela ficou grávida e eu e minha irmã nascemos... — Onyx fechou a boca assim que percebeu que havia cometido um grande erro. Ele não deveria ter falado sobre Adeline, pois isso poderia coloca-la em perigo. — Impossível. Vampiros não produzem espermatozóides. — Atticus ignorou o fato de que Onyx havia acabado de dizer que tinha uma irmã gêmea, embora o rapaz soubesse que ele havia guardado essa informação. — Então como você explica o fato de eu ter presas, olhos de vampiros, e mesmo assim continue com o meu coração batendo? — Onyx grunhiu de forma áspera, ainda sem conseguir acreditar que realmente estava socializando com o inimigo daquela forma. O rapaz começou a andar até a entrada da caverna, de onde vinha toda aquela luz forte. A caverna ficava no topo de um precipício gigantesco, com uns bons duzentos metros entre a entrada e o chão semi-árido do deserto escaldante. Até para um vampiro era praticamente impossível chegar ali em cima, e a única forma seria voando. Onyx não tinha medo de altura, mas ao olhar para baixo e ver aquela queda absurda, um calafrio subiu pela sua coluna. Pelo ângulo do sol, já deveria ser mais ou menos meio-dia. Onyx sabia que existiam várias montanhas como aquela espalhadas pelo deserto, mas não sabia qual delas era aquela em específico, além de também ter perdido completamente o senso de direção porque não sabia para que lado a entrada da caverna estava virada. — Também não sei como isso é possível. — Atticus continuou depois de alguns segundos, enquanto Onyx voltava a caminhar para o interior rochoso do lugar, querendo ficar longe da borda. — Você não era o sabichão que sabia tudo sobre os vampiros? Enquanto eu sou o "ignorante que não vejo a verdade diante dos meus olhos"? — Onyx alfinetou, fazendo aspas com os dedos ao citar a frase que tinha escutado poucos minutos atrás. O vampiro revirou os olhos e ignorou a provocação, embora seu olhar fosse afiado como uma lâmina. — Meu palpite é que o seu pai era um recém-transformado quando se relacionou com sua mãe. Um vampiro com apenas alguns dias no máximo, então a sua fertilidade não havia desaparecido por completo. — "Se relacionar", não, cara. Ele abusou da minha mãe. — Onyx rosnou, sentindo as suas presas descerem novamente e roçarem sua língua. — Okay, desculpa. — Atticus ergueu as mãos em sinal de rendição e deu as costas, caminhando até um dos baús antigos que haviam espalhados pelo lugar. Onyx observou as asas dele com curiosidade. Elas se erguiam automaticamente quando ele se abaixava, evitando que assim tocassem no chão. — Quantos anos você tem? — O rapaz perguntou, dando um passo para a frente observando tanto o vampiro alado quanto o interior da caverna. — 283 anos. Tinha 28 quando fui transformado. — Respondeu Atticus, olhando por cima do ombro para encarar o rapaz para ver a sua reação. Onyx arregalou levemente os olhos, mas não ficou tão surpreso assim. Ele sabia que vampiros poderiam viver mil anos sem problema algum. Fazendo as contas rapidamente, ele constatou que Atticus havia nascido em 1740, praticamente três séculos atrás. Ele se perguntou como era viver naquela época, e deveria ser bastante r**m. Viver por tanto deveria tornar a vida meio chata e monótona. — E qual é a do lance das asas de morcego? — Perguntou, vendo as asas membranosas se abrirem, como se soubessem que ele estava falando dela. — Outro truquezinho que desenvolvi com o passar dos anos. Alguns vampiros tem afinidade com certos poderes, que vão ficando mais maduros com o passar dos anos. Telecinese, Pirocinese, transmutação... — Todos conseguem fazer isso com o tempo? — Não. Quase nenhum desenvolve poderes, mesmo que viva séculos ou milênios. — Atticus deu de ombros e retirou do baú um par de roupas meio antigas e vitorianas. A calça era de um tecido escuro e grosso que parecia linho, e a camisa sem mangas era cinza e fina. Elas pareciam ser absurdamente pequenas para o vampiro, mas após Atticus estender as roupas para o rapaz, Onyx percebeu que na verdade eram para ele. — Consegue fazer elas sumirem? — Perguntou enquanto recebia a pilha de roupas, olhando para elas como se uma cobra peçonhenta fosse sair das dobras do tecido e ataca-lo a qualquer momento. Atticus confirmou levemente com a cabeça, e ainda em silêncio, fez as asas desaparecerem das suas costas. — Wow! — Onyx arregalou os olhos ao ver a cena. As asas não sumiram como se estivesse retornando para dentro do corpo e se fundinho com as costas de Atticus, mas sim como se não passassem de uma ilusão, desmanchando como se não passasse de uma nuvem de fumaça escura e espessa. Poucos segundos depois, o vampiro n***o já estava completamente sem as asas, embora continuasse enorme e imponente do mesmo jeito. Ele abriu um pequeno sorriso e fez covinhas profundas surgirem nas suas bochechas, além de deixarem expostas as presas longas, brancas e que pareciam ser absurdamente afiadas. Todos os vampiros com que Onyx já havia cruzado tinham apenas as duas presas superiores levemente alongadas, mas Atticus tinha as quatro maiores do que normalmente seriam, tanto as superiores quanto as inferiores. Depois de exibir que conseguia fazer as asas pretas e encouraçadas desaparecerem em um passe de mágica, Atticus às fez aparecer novamente um milissegundo depois da mesma forma como haviam sumido, só que ao contrário. Invés de se dispersar, a fumaça n***a começou a surgir e se juntou atrás das costas do vampiro, assumindo o formato das asas de morcego e desaparecendo rapidamente, deixando as gigantescas asas encouraçadas para trás. Atticus inclinou o corpo um pouco mais para cima, como se sustentar o peso das asas exigisse isso. — Terminou de se exibir? — Onyx revirou os olhos e apertou as roupas contra o peito. — Ainda não, Baby. — O vampiro flexionou os enormes músculos dos seus braços e os deixou ainda mais visíveis, além de estufar ainda mais o peitoral marrom escuro para frente e tensionar os músculos do abdômen, fazendo aquela pose típica de competições de fisiculturismo. Onyx revirou os olhos com tanta força que achou que não conseguiria fazê-los voltarem ao normal mais. — Vou trocar de roupa. — Disse ele, já começando a andar para a câmera da caverna onde estava preso quando acordou. — Há uma nascente de água alí do outro lado, em outro quarto. Você está imundo, deveria tomar um banho. — Atticus apontou para o lado oposto, na direção de uma entrada estreita e escura que ficava ao lado da cama. O rapaz franziu levemente as sobrancelhas para o vampiro, perguntando a si mesmo se deveria ou não confiar nele, então depois de alguns segundos, constatou que não tinha o que fazer, até porque ele estava preso no topo de um precipício junto com um chupador de sangue, e que usar o banheiro dele não iria fazer tanta diferença assim. — onde você deixou a minha caminhonete? — Onyx perguntou, lembrando que o vampiro tinha dito que havia vasculhado as suas coisas. O rapaz tinha um apresso imenso pelo carro, que havia comprado depois de anos trabalhando nos pomares da fazenda dos seus avós. — Ainda está estacionado ao lado do celeiro. — Atticus respondeu, então o rapaz confirmou levemente com a cabeça e continuou andando até a entrada estreita e meio escura que o vampiro havia indicado, sentindo o olhar do outro encarando suas costas.
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