Quando redobrou a consciência, Onyx achou que deveria ter dormido por uns mil anos. Antes mesmo de abrir os olhos ele percebeu que estava com tanta sede que sua garganta estava arranhando sem parar, como se estivesse revestida por cacos de vidro. Ele engoliu em seco repetidas vezes, tentando umedecer seu esôfago com o máximo de saliva possível, o que apesar de não ajudar muito, pelo menos diminuía a sensação de desconforto.
Abrir os olhos parecia exigir um esforço tremendo, como se suas pálpebras estivessem pesando duzentos quilos cada uma, então Onyx esperou alguns segundos antes de finalmente se obrigar à abri-los, fazendo isso bem lentamente para que a claridade do mundo exterior não os irritasse.
A primeira coisa que Onyx notou quando conseguiu recuperar o foco dos seus olhos e deixar de lado aquela versão meio desfocada do mundo foi que ele estava dentro de uma caverna espaçosa, cujo às paredes eram constituídas de rochas avermelhadas e barrosas típicas das montanhas e planaltos do deserto. A segunda coisa que notou foi que estava sentado contra uma das paredes rochosas, preso à ela por uma grossa corrente de ferro, que estava folgada o suficiente para não causar nenhum tipo de dor, mas apertado o bastante para que fosse impossível fugir.
Ao analisar a corrente grossa e os grilhões ao redor dos seus pulsos finos e sujos com mais calma, Onyx também percebeu que seria impossível quebra-la ou lhe arrancar da parede rochosa. Ele poderia até ter uma força sobrehumana, mas não o suficiente para partir ferro maciço, e aquelas correntes pareciam ser usadas especificamente para seres que não eram humanos. Até onde o rapaz sabia, existem vampiros, Ghouls e lobisomens espalhados por aí, mas havia uma grande chance das bizarrices ocultas entres os humanos não parar apenas com essas espécies.
Onyx soltou um rápido suspiro e olhou para baixo para analisar seu próprio corpo, sentindo a sua garganta arranhar tanto que era como se ele tivesse engolido quilos de areia. Ele estava completamente imundo, coberto por uma fina camada de poeira. A camisa de renda quase inteiramente transparente que estava vestindo agora não passava de uns fagalhos destroçados que só estavam presos ao seu corpo porque uma das mangas não havia sido rasgada por completo, expondo seu dorso pálido. Haviam grandes marcas avermelhadas e largas que começavam no seu ombro esquerdo e chegavam perigosamente perto do seu mamilo, onde as garras do vampiro provavelmente deveriam ter rasgado a pele, mas as feridas deveriam ter se fechado enquanto dormia, já que sua capacidade de se curar era absurdamente rápida. Onyx também percebeu que a sua calça justa estava rasgada em alguns lugares, além de que ele havia perdido um dos coturnos pretos e uma meia, ficando com apenas uns dos pés calçados.
O rapaz disse a si mesmo que não adiantaria espernear ou ficar desesperado, até porque isso não ajudaria em nada. Ele teria mais chances se bolasse um plano e o executasse na hora certa, até porque se o haviam levado até aquele lugar ao invés de o terem matado ou sugado cada gota do seu sangue, significava que não iam fazer isso logo de cara — Onyx sabia que não o haviam mordido porque as presas dos sanguessugas liberavam algum tipo de anticoagulante que impedia as feridas de se fecharem na velocidade normal e o sangue parar de escorrer pouco tempo depois. Ele havia aprendido isso da pior maneira possível durante o confronto contra um vampiro.
O som de passos pesados e meio silenciosos ao mesmo tempo ecoaram pela caverna, sendo amplificados pelo formato das paredes. Os passos pareciam ser de alguém que pesava uma tonelada, e quando a figura surgiu na entrada da pequena câmera em que Onyx estava preso, ele pode tirar conclusões mais completas.
O vampiro que surgiu no seu campo de visão deveria ter um dois metros de altura. Ele tinha ombros largos, quadris estreitos e pernas grossas e poderosas. Estava descalço e vestia não mais do que uma calça colada sobre suas coxas de uma forma tão indecente que parecia uma segunda pele. E por falar em pele, a do vampiro era de um marrom tão escuro que sequer a morte havia lhe deixada meio pálida ou acinzentada. Ele era tão preto que Onyx ficou completamente abismado com a beleza sobrenatural do morto-vivo.
O rapaz sabia que todos os vampiros eram sobrenaturalmente lindos e assustadores, mas aquele alí estava em outro patamar. O rosto daquela coisa parecida ter sido esculpido em mármore, com um queixo quadrado, lábios absurdamente carnudos e cheios, um nariz elegante e bem grande, maçãs do rosto altas e olhos pretos como breu que o encaravam com certa curiosidade. As sobrancelhas do vampiro eram grossas e retas. Seu cabelo afro era raspado dos lados e possuía um topete curto e elegante.
Como se tudo isso não fosse o suficiente, o olhar de Onyx recaiu sobre o par de asas gigantescas que haviam nas costas do vampiro. Se sua pele era de um marrom absurdamente escuro, as asas encouraçadas eram de um preto tão intenso e leitoso que pareciam duas manchas de piche contra a visão do rapaz. Elas possuíam a mesma fisionomia que as asas de um morcego e estávamos levemente abertas, deixando à mostra o quão gigantescas e imponentes eram. Cada asa saía das costas do vampiro por uma extensão flexível, ossuda e extremamente musculosa, essas por sua vez se dividiam em cinco longas hastes pontudas de diferentes tamanhos e que terminavam em uma espécie de garra afiada, como se fossem dedos, que eram interligados por uma membrana preta, que apesar de ser fina, parecia incrivelmente resistente. A pelagem escura que revestia as asas parecia brilhar levemente, como se fosse camurça.
Onyx nunca havia encontrado um vampiro com modificações físicas como aquelas, mas pressupôs que era uma habilidade especial como a de telecinese do vampiro que ele havia encontrado — E matado — tempos atrás.
O sanguessuga assustador e sobrenaturalmente lindo deu alguns passos para frente, ficando à pouco menos de dois metros do rapaz, que apesar de acorrentado e imundo, ergueu o queixo em sinal de desafio.
— Veio terminar o serviço? — Perguntou, erguendo uma das sobrancelhas e vendo o vampiro se inclinar levemente sobre ele, flexionando as asas e as deixando levemente abertas. Falar fazia sua garganta seca protestar, mas Onyx ignorou completamente isso.
— Não vou m***r você. — A voz grave e absurdamente rouca do vampiro ecoou pela caverna. — Porque não sou sádico o suficiente para sair matando pessoas por aí de forma aleatória.
— Pessoas, é? — Onyx riu, sabendo muito bem que aquilo havia sido uma alfinetada para ele. — Vocês não são pessoas. São monstros nojentos que sequer deveriam existir. Ter matado alguns sanguessugas foi um favor para a humanidade.
— Então você é um caçador de vampiros. — O vampiro disse, com a sombra de um sorriso presente no seu rosto. Ele pegou alguma coisa do bolso da calça, e após olhar para baixo, Onyx percebeu que se tratava da sua adaga.
Ela era simples, feita de titânio, mas absurdamente afiada. Onyx descobriu com a prática que água benta, alho, estacas de madeira e crucifixos eram apenas baboseiras e que não serviam para absolutamente nada. Ele descobriu que independentemente do material, desde que causasse um bom dando ao cérebro ou no coração — que embora não batesse mais, ainda continuava sendo um órgão vital — eram as formas mais fáceis de m***r um vampiro, além de outras formas óbvias também. Não haveriam como se curarem caso fossem completamente carbonizados ou decapitados.
— nas últimas horas andei me perguntando o que você é. — Começou o vampiro, com a adaga em uma das mãos e a ponta da lâmina apoiada no dedo indicador da outra. Ele estava girando lentamente a arma como se tivesse soltando um parafuso invisível. — Você não é um lobisomem. Seu coração bate, então também não é vampiro ou Ghoul. Diga-me, Baby, o que você é.
— E-eu... — Onyx não estava pretendendo responder, mas percebeu que havia cometido um erro grave ao encarar aqueles olhos pretos como breu, porquê ordem que o vampiro ronronou entranhou no seu cérebro e obrigou seus lábios a se moverem contra a sua vontade, enquanto estava sob efeito da hipnose do morto-vivo. — Sou mestiço. Meio humano, meio vampiro.
— Isso é impossível, Baby. Vampiros não tem filhos. — Disse o morto-vivo, retraindo as asas e analisando o rosto do jovem, que deixou seus olhos castanho claros assumirem um brilho sobrenatural, assim como os dos vampiros possuíam. Onyx fez as suas presas longas descerem, e embora odiasse aquilo mais que tudo, saboreou a surpresa presente nos olhos do vampiro que estava na sua frente, ignorando a garganta seca e as fisgadas de dor nas suas gengivas, por onde os dentes haviam acabado de sair rapidamente.
— Interessante, Onyx. Bastante interessante. — Grunhiu o vampiro, que tentou esconder a surpresa.
— Como sabe o meu nome? — O jovem puxou as pernas para mais perto do corpo, percebendo que estavam perigosamente perto do chupador de sangue.
— Depois de toda a sua ceninha com o vampiro recém-transformado e você ter desmaiado, me dei o trabalho de te trazer para cá e dar uma bisbilhotada na caminhonete. — O vampiro deu de ombros, então Onyx lembrou que sua carteira de motorista estava no carro, assim como a documentação do veículo, que também possuía seu nome.
— Você matou o outro morto-vivo? — Onyx questionou, lembrando do loiro desgraçado que o havia enganado direitinho, fingindo ser meio burro e deixando ser conduzido pela escuridão do deserto.
— Não. Ao contrário de você, não mato ninguém sem necessidade. — O vampiro se aproximou e abaixou ao lado de Onyx, que engoliu em seco e olhou para cima, tentando inutilmente soltar as mãos das correntes.
— Não venha com essa falsa moralidade para cima de mim. Vocês são monstros sem alma, sem qualquer tipo de sentimento que não seja a incontrolável sede por sangue e destruição. — Onyx rosnou, vendo o outro revirar os olhos e soltar um pequeno suspiro. O vampiro ergueu a mão e tocou uma mecha do cabelo do rapaz, que soube que pelo menos metade da tinha barata e escura que cobria seu cabelo ruivo havia saído, não que importasse mais.
— Se somos seres sem alma e sem sentimentos, você é o que, então?
— Eu sou... Sou humano!! — Onyx exclamou depois de um breve momento de exitação, fazendo o vampiro soltar uma risadinha provadora e rouca.
— Sério? Você acabou de me mostrar seus olhos brilhantes e as presas afiadas. Acha mesmo que é um humano? Se tiver resquícios de sangue humano, provavelmente não passa de um pingo, Baby. Você é um vampiro, Onyx. Como se sente sendo um "monstro sem alma"?
— Eu sou humano!! Meu coração bate e eu sou quente, sem NUNCA ter provado ou desejado tomar sangue!! — Onyx sentiu uma onda de raiva Tomar conta do seu corpo, sem realmente acreditar que estava discutindo com um vampiro.
— Eu também sou quente, Baby. — O vampiro se inclinou para a frente e aproximou ainda mais o seu corpo imenso ao do rapaz, que sentiu uma onda de calor emanar dele. Onyx ficou completamente surpreso e irritado com aquilo, não querendo que todos os seus argumentos fossem refutados. Vampiros eram monstros e pronto!!
— Vai me dizer que você tem um coração batendo também, Zé ruela. E que essas asas não são coisa de monstro.
— Olha, Onyx. — Começou o vampiro, ignorando totalmente o que o jovem havia acabado de dizer. — Existem pessoas boas e pessoas ruins no mundo. Independentemente de serem vampiros, humanos, ghouls ou lobisomens, a maldade não tá na espécie, tá na individualidade de cada um. Se o vampiro fosse um assassino sociopata enquanto era humano, ele logicamente vai continuar sendo caso se transforme em vampiro. Muitos se tornam assim com o tempo também, depois que o poder que vem junto com a imortalidade sobe à cabeça.
— Acha mesmo que vou acreditar nisso? — Onyx levantou uma das sobrancelhas, embora as informações entrassem na sua mente com tudo e fizesse seu coração martelar, e ele sabia muito bem que o vampiro conseguia ouvir isso.
— O que tô tentando te dizer é que não ocorre nenhum tipo de mudança na personalidade ou moral das pessoas quando são transformadas. A maioria é como você já sabe porque também eram assim quando humanos, sedentos pela riqueza e pela imortalidade. Não venha tentar me ensinar alguma coisa sobre a minha própria espécie quando você é ignorante o suficiente para fingir não ver a verdade diante dos seus olhos. — O vampiro soltou um suspiro rápido e estalou os dedos das mãos. — Agora vou soltar você das correntes. Só coloquei você aí porque sequer havia conversado com você antes, e ter um caçador de vampiros solto no meu esconderijo definitivamente não era uma boa ideia. Meu nome é Atticus, aliás.