— O que você vai querer? — Resmungou o barman assim que Onyx sentou em um dos bancos altos de frente para o balcão largo e madeira polida. O rapaz não vestia mais do que uma cueca Boxer preta, era humano, aparentava ter mais ou menos a mesma idade que ele (cerca de vinte anos) e definitivamente não estava hipnotizado por algum vampiro. O olhar de tédio e superioridade no rosto do barman fez Onyx constatar que ele era um dos que estavam alí por conta própria, se prostituindo, servindo bebidas e sendo bebido pelos vampiros para que dali um tempo também se tornasse um deles.
— Uma dose de gin. — Onyx disse, também sem qualquer educação na voz. Ele perguntou a si mesmo se aquele rapaz iria realmente se tornar um vampiro dalí algum tempo, e se fosse o caso, talvez também cairia na mira dele, que ficaria mais do que satisfeito em matá-lo assim que seu último resquício de humanidade fosse pelo ralo. Onyx também sabia que vampiros eram cuidadosos em relação à quem transformam para evitar uma super lotação de seres imortais, o que poderia ameaçar o segredo da sua existência. Pequenas populações de sanguessugas passavam despercebidas entre os mortais, mas um grande grupo com vampiros recém-transformados e incontroláveis poderia ser um problema gigantesco.
Vampiros eram seres tão asquerosos que apesar de um dia já terem sido humanos, desprezavam os mortais e não o viam mais do que como comida. Além disso, eles também procuravam humanos para t*****r, desejando um buraco quente para enfiarem seus paus, ou um p*u pulsante e quente para f***r suas bocetas gélidas, porquê além de não terem calor próprio, também não tinham batimentos cardíacos.
Onyx não sabia ao certo como funcionava a fisionomia dos vampiros, mas sabia que os mais velhos e poderosos deles possuíam certos... Poderes. Dons sombrios que iam muito além da capacidade de hipnotizar as pessoas. Ele próprio já havia encontrado com um que conseguia fazer pequenas coisas levitarem.
— Com ou sem sangue? — O barman perguntou, colocando o copo de vidro cheio até a metade com um líquido amarelado, já erguendo o pulso esquerdo, onde havia dois cortes na pele feitos por presas e por onde filetes de sangue escorriam.
— Sem. — Onyx puxou o corpo antes que uma gota de sangue pingasse dentro da bebida, tentando se controlar para não fazer uma careta de nojo. O barman deu de ombros e caminhou para longe de onde Onyx estava, deixando-o sozinho alí.
O rapaz encarou as gotas escarlates que haviam caído sobre o balcão de madeira. Ele era apenas meio vampiro, então não sentia vontade alguma de provar sangue. Onyx odiava com todas as forças ser quem era. Ser O QUE era.
Sua mãe havia sido apenas mais uma jovem que nasceu naquelas cidadezinhas esquecidas. Mesmo em um lugar como aqueles, ela poderia ter tido uma vida normal e feliz caso não tivesse tido a má sorte de acabar caindo diretamente nas garras de um vampiro asqueroso, que a hipnotizou e fez o que quisesse com ela. Roselyn jamais ficou sã novamente depois disso, e nove meses depois, Onyx e Adeline nasceram.
Por muito tempo, Roselyn sequer conseguia olhar para os filhos sem conseguir lembrar do que havia acontecido. Sem conseguir lembrar do vampiro que tinha feito aquilo com ela. O pais deles.
Onyx só descobriu que não era inteiramente humano aos dezesseis anos, depois de acordar de um pesadelo com presas afiadas rasgando as suas gengivas e perfurando os seus lábios, enquanto seu coração batia à mil por hora e os seus sentidos ficaram absurdamente aguçados. Onyx jamais havia ouvido a mãe gritar tanto, completamente imersa em puro terror como fez ao vê-lo naquele estado, gritando sem parar que ele era idêntico ao monstro que um dia tinha conhecido.
Adeline sempre havia sido mais calma do que ele, mas pouco tempo depois, Onyx a viu tentando retrair as presas que haviam surgido na sua boca em frente ao espelho do seu quarto. Os dois compartilhavam o mesmo sangue, embora enquanto Adeline tentava ignorar totalmente que não era completamente humana, Onyx se agarrou ao ódio que sentia pelos vampiros e começou a caça-los.
Aos dezoito anos, a mãe de Onyx finalmente lhe deu o nome do monstro que era seu progenitor. Ele disse a si mesmo que iria destroçar o vampiro, mas até lá, teria que se contentar em m***r alguns outros de forma aleatória, mirando sempre nos mais fracos e recém-transformados.
Enquanto bebia o gin de forma tranquila e observava o salão, não demorou muito até um vampiro loiro e bem vestido começar a caminhar na sua direção, fazendo-o abrir um pequeno sorriso. Onyx sempre usava a mesma estratégia para atrair seus alvos. Ele era bonito o suficiente para chamar a atenção dos sanguessugas sem fazer absolutamente nada, então só precisava ficar em algum lugar que o deixava bastante visível, como uma enorme bolsa de sangue esperando o primeiro que quisesse dar uma provadinha.
Depois da primeira vez que tentou fazer aquilo, Onyx também percebeu que caso se mantivesse calmo, jamais iriam desconfiar que ele não era completamente humano, provavelmente devido aos seus batimentos cardíacos — A audição dos sanguessugas era boa suficiente para que eles conseguissem escuta-la de longe — e por causa da sua pele quente e corada.
— Olá, Baby. — O vampiro disse, sentando no banco ao lado do que Onyx estava. O homem deveria ter uns vinte três anos quando foi transformado, e pela forma como ele tinha um sorriso vacilante e andava de uma forma esquisita, como se ainda estivesse se ajustando ao corpo novo, Onyx pressupôs que ele era um recém transformado com apenas alguns meses ou até um ano desde que havia perdido a sua alma e sido preenchido por trevas.
— Oi. — Onyx acenou de forma tímida para o vampiro, tentando soar doce e inocente ao mesmo tempo, porquê sanguessugas eram doentes o suficiente para preferirem os mais jovens e que tivessem uma expressão tímida e doce, como se fosse mais gostoso ouvir essas pessoas em específico gritando enquanto eram mordidas.
Algumas mechas do cabelo do rapaz caíram sobre o seu rosto, mas ele resolveu não passar a mão pelos fios, sabendo que a tinta barata que havia usado para deixá-los escuros poderia sair com o suor e o calor da sua palma.
Encarando os olhos azuis claros do vampiro, que claramente estava interessado nele, Onyx soube que já havia encontrado a sua presa.
— Posso saber seu nome? — O vampiro loiro se inclinou um pouco para a frente, agarrando a mão do jovem e a levando até os lábios.
— Liam. — Onyx mentiu, resistindo ao impulso de puxar a mão que estava perigosamente perto das presas brancas e afiadas do sanguessuga, enquanto os lábios frios como a pele de um cadáver roçaram a sua. O interior do celeiro era quente, mas isso não impediu o calafrio que subiu pela coluna do meio-humano, que cuidadosamente ainda mantinha o sorriso suave nos lábios.
— Lindo nome. — Respondeu o vampiro, tomando um gole da sua própria bebida que estava em uma taça estreita. O líquido de dentro dela era grosso demais para ser apenas tequila, então Onyx supôs que havia sangue diluído nela.
— Obrigado. — Agradeceu. Ele percebeu quando o loiro olhou demoradamente para o seu pescoço, antes de mover o olhar para os seus lábios.
— Está desacompanhado? — O sanguessuga analisou o salão, dando uma rápida olhada nos seus semelhantes, provavelmente tentando saber se Onyx era subjugado de outro vampiro. O rapaz percebeu que o recém-transformado era jovem o suficiente para temer os outros, e que se houvesse algum tipo de hierarquia entre os vampiros, ele deveria estar no primeiro degrau.
— Sim. — Dando de ombros, Onyx se aproximou um pouco mais para perto do vampiro, como se quisesse se aconchegar no calor do loiro, embora nenhum tipo de cheiro ou calor emanasse do corpo frio do vampiro. — Qual seu nome?
— Diego.
— Então, Diego. — Onyx pulou do banco, ainda com sua mão na do vampiro, que poderia quebra-la facilmente se apertasse demais. — Quer dar uma volta por aí?
— Uma volta, é? — Diego abriu um pequeno sorriso cheio de segundas intenções. Os olhos azuis tinham um brilho sobrenatural, como os de todos os vampiros tinham quando se descontrolavam por alguns instantes e revelavam a sua verdadeira natureza.
— Aham. Conversar em um lugar mais privado e... f***r. — Onyx sussurrou a última palavra de uma forma quase inaudível enquanto enrolava a gravata do vampiro no punho, embora tivesse certeza de que ele havia escutado. A expressão do vampiro se encheu de excitação e desejo enquanto encarava o rosto cheio de sardas do rapaz, tensionando o maxilar branco como papel e se deixando ser conduzido pela gravata em direção a saída.
Onyx não conseguiu esconder o pequeno sorriso sombrio que surgiu no seu rosto. Ele conduziu o vampiro sem muita pressa em direção a porta do celeiro, sentindo a adaga fria contra a sua coxa como se fosse uma lasca de gelo.
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— Acho que já andamos o suficiente, Baby. — O vampiro disse uns quinze minutos depois, enquanto andavam pelo deserto completamente escuro, se afastando do celeiro até ele não passar de um ponto luminoso no horizonte. A visão sobrehumana de Onyx o permitiu ver com clareza o rosto do vampiro loiro, apesar de a falta de luz fazer as cores serem limitadas à tons de cinza escuro e preto. Os olhos do vampiro eram como duas bolotas fluorescentes contra a noite sombria.
O rapaz sabia que só tinha uma chance de atacar, porque caso o vampiro levantasse a guarda e percebesse suas verdadeiras intenções, as coisas ficariam bastante complicadas para ele.
Onyx sabia que deveria agir antes que o vampiro tentasse beijá-lo ou qualquer outra coisa do tipo — Na verdade, ele estava surpreso por o sanguessuga ainda não ter tentado fazer isso.
— Liam? — O vampiro sussurrou com uma voz açucarada. Onyx o deixou agarrar sua cintura e erguer uma das mãos para agarrar o seu queixo. O contato com a pele gélida do homem o fez querer grunhir e se afastar, mas ele continuou com a máscara de desejo cuidadosamente erguida.
— Sim, Baby? — Onyx tateou o corpo absurdamente frio do vampiro, roçando na sua excitação com a palma da mão, o que na verdade o deixou um pouquinho enojado.
— Antes de tudo, quero que você me dê. — O olhar do sanguessuga ficou sombrio, enquanto um sorriso lupino surgia nos seus lábios finos e deixavam à monstra as presas longas e afiadas. Os olhos azuis dele ficaram ainda mais brilhosos, assim como o aperto frio na cintura do rapaz ficou mais forte.
— Dar o que?
— A faca presa na sua coxa, Baby. — O vampiro ronronou, não dando sequer um segundo para Onyx assimilar suas palavras antes de ataca-lo, abrindo a boca e avançando contra o pescoço do rapaz, mirando diretamente na sua jugular.
— AH! — Onyx jogou o corpo para trás, escapando por pouco dos dentes do vampiro, e sem conseguir aguentar o peso do corpo, ele caiu com um baque s***o contra o cascalho duro do deserto, perdendo completamente o fôlego.
— Achou que eu não ia perceber? — Rosnou o vampiro, subindo em cima do rapaz e tentando agarrar os seus braços.
Onyx deu um chute forte e certeiro na virilha do loiro, agarrando a adaga presa na sua coxa e a empunhando com habilidade. Ele sabia que para m***r um daqueles demônios precisaria fazer um belo estrago no seu cérebro ou no coração, mas isso não significava que ele não poderia desferir golpes aleatórios.
O meio-humano ergueu o braço e tentou enterrar a adaga no peito do vampiro, que deu um pulo felino para trás e se esquivou, embora não tenha se livrado totalmente do golpe e acabou com um corte longo e profundo no peitoral, abrindo tanto o terno escuro contra a pele fria por debaixo dele.
— Vou acabar com você, seu merdinha. — O vampiro soltou um rosnado. Não de dor, mas de pura irritação. A próxima coisa que Onyx percebeu foi o corpo de morto-vivo absurdamente pesado e frio sobre o seu, enquanto duas mãos gélidas agarraram o seu pescoço, pronto para destroça-lo, porque pelo visto ele sequer se importava se Onyx estaria vivo ou não antes de tomar o seu sangue.
Um segundo antes de perder a consciência, Onyx sentiu o corpo do vampiro ser bruscamente arrancado de cima do seu, liberando a sua traquéia e o fazendo inspirar profundamente e sentir o ar invadir os seus pulmões. Ele olhou para o lado e conseguiu ver um vulto absurdamente veloz agarrar o vampiro e o jogá-lo de qualquer jeito no chão, antes de se virar para encarar o rosto de Onyx, que apesar de não conseguir ver mais do que um borrão, percebeu tardiamente que era outro vampiro, e que os sugadores de sangue pareciam apenas estar disputando para ver quem o teria como lanchinho.