06

2182 Words
A fazenda dos avós de Onyx não era uma propriedade grande, mas cada centímetro de terra era usada. Havia um poço atrás da casa, dentro de um cubículo de tijolos para manter a água longe de qualquer coisa que poderia deixá-la impura, como animais — Que viessem a cair dentro do poço —, nuvens de poeira ou folhas secas. A água do poço artesiano possibilitava que o pequeno pomar da propriedade fosse irrigado abundantemente, embora a variedade de árvores fosse bastante limitada, pois não eram todas as espécies que se adaptavam ao clima quente da região, então as únicas frutas que a família plantava eram pitaias e figos — que nasciam de cactos —, goiabas, mangas e algumas frutas cítricas, como limão, laranja e tangerina. Onyx estacionou ao lado da cerca de estacas que cercava o terreno, então pulou da caminhonete para abrir o portão de madeira que havia na entrada da fazenda. Ele o deixou aberto e voltou para o carro, apenas para sair poucos segundos depois assim que havia entrado no terreno para fechar novamente o portão. A estrada que levava até a casa não deveria ter mais do que uns cinquenta metros de distância, e enquanto dirigia por ela, o rapaz já conseguia ver a irmã correndo para a varanda e encarando o carro com uma das mãos na frente dos olhos para protegê-los do sol. Ela provavelmente soube que Onyx estava chegando por causa do barulho exageradamente alto e meio esquisito que sua caminhonete tinha. Onyx estacionou ao lado da casa e desceu do carro, vendo a irmã pular os degraus da varanda e correr na sua direção. — Onde você estava?! Eu fiquei tão preocupada!! — Ela rosnou, agarrando Onyx pelo pescoço e o sacudindo sem parar, praticamente o estrangulando. — Calma, calma. Eu tô bem. — Respondeu ele, agarrando os antebraços da irmã de forma gentil. Os dois eram exatamente da mesma altura, tinha o mesmo cabelo ruivo e eram igualmente sardentos. A única diferença mais visível eram — Além de serem de sexos diferentes, obviamente — os olhos. Enquanto os de Onyx tinham um tom de castanho claro meio avermelhado nas bordas e que chegava à ser âmbar quando ele os fazia brilhar, os de Adeline eram de um verde musgo absurdamente forte. — Vovô vai te m***r. — Ela disse, puxando-o pela orelha e sacudindo a sua cabeça. Olívia vestia uma camisa folgada e um short jeans. Ela era bastante vaidosa quando saía para algum lugar, mas em casa vestia a primeira coisa que encontrasse pela frente. Onyx gostava de dizer que ela parecia uma mendiga, embora as roupas e a aparência dele não fosse tão diferente disso também. A casa construída pelos bisavós de Onyx era inteiramente de madeira polida. Inicialmente o lugar tinha quatro cômodos, mas tanto seus avós quanto seus bisavós aumentavam ocasionalmente a casa, criando cômodos e salas novas. Não haveria como criar um segundo andar porque a estrutura inicial não foi feita para suportar tanto peso assim. O rapaz se lembrou de que disse a si mesmo que a construção da casa iria parar na sua geração, já que ele e a irmã iriam embora para uma cidade grande assim que tivessem a oportunidade, mas já haviam se passado anos desde que fizera essa promessa para si mesmo, e mesmo assim continuava ali. Adeline o puxou pela orelha pela varanda da casa, em direção às portas duplas da sala que estavam completamente abertas. O primeiro cômodo era espaçoso e aconchegante, típico de casarões antigos. Os móveis pareciam ter saído de uma pintura antiga, apesar de estarem novinhos em folha. Haviam cortinas brancas e esvoaçantes nas janelas, além de uma tonelada de peças de crochê espalhados por todos os lados, desde tapetes à almofadas. A avó dos gêmeos eram praticamente uma especialista com a agulha, e quando não estava cozinhando ou cuidado do pomar junto com seu avô, ela estava fazendo peças e mais peças de crochê. O olhar de Onyx recaiu sobre a mãe, que estava sentada em uma cadeira de balanço no canto da sala, à pouco mais de uns dez centímetros de onde a luz do sol atravessava as janelas abertas e coincidia com o chão de madeira aos seus pés. Roselyn estava vestindo um vestido folgado e branco; o cabelo preto estava amarrado em um coque desajeitado e seu rosto repleto de rugas estava com aquela mesma expressão de sempre. Era como se os olhos escuros dela falassem "dê mais um passo para a frente e vou estraçalhar você". Ela estava com um livro no colo, como quase sempre estava durante o dia. Roselyn só lia livros do Stephen King, e Onyx e Adeline eram encarregados de encontra-los onde quer que os vendesse pelas redondezas — Fossem usados ou não. Onyx lembrou de quando brincou dizendo que Roselyn parecia a protagonista do livro "misery: louca obsessão", onde a mulher era tão obcecada por seu escritor favorito à ponto de sequestra-lo e fazê-lo escrever só para ela. Ele havia falando isso à uns cinco anos atrás, embora ainda conseguisse lembrar perfeitamente da dor causada quando ela jogou o livro na sua cara e a lombada dura atingiu em cheio o seu nariz. — Oi, mãe. — Onyx acenou para a mulher, olhando rapidamente para as unhas longas pintadas de preto dela. Adeline apertou seu braço com força e o impediu de dar outro passo para a frente, não que ele fosse fazer isso, pois ainda sentia o arder nos braços da última vez que caiu na mira daquelas unhas. Roselyn parou de encarar o livro e ergueu o olhar, focando diretamente nos olhos do filho. Onyx lembrou tardiamente que seu cabelo não estava mais preto, e isso definitivamente foi uma grande mancada, pois ela ficava ainda mais irritada quando o via com a cor natural dos fios exposta, repetindo milhares de vezes sobre como ele era parecido com o demônio que havia encontrado vinte e um anos atrás. Sem responder, Roselyn voltou a encarar o livro desgastado que estava no seu colo. Ele era gigantesco, e só podia ser o último que Onyx havia levado, que foi comprado numa lojinha de convivência de um posto de gasolina. Haviam outros dois livros do Stephen King lá, mas o rapaz só tinha dinheiro para um, então comprou o maior de todos, que era "a dança da morte", um calhamaço com mais de mil páginas. Onyx também havia falado com o balconista da lojinha para deixar os outros dois reservados para ele, que iria voltar depois para compra-los — O velho riu e disse para Onyx ficar tranquilo, pois quase ninguém aparecia sequer para colocar gasolina, quanto mais para procurar livros velhos. — Vem. — Adeline o puxou pelo braço e atravessou a sala, lançando um último olhar para a mãe. Dois dois, Adeline era quem mais interagia com ela, porque mesmo também sendo ruiva como Onyx, não tinha traços masculinos como o rapaz e consequentemente não era tão parecida com o maldito vampiro, apesar de Onyx também já tê-la visto com marcas arroxeadas nos braços. A segunda sala que havia depois da primeira era menor e não tinha praticamente nada, só servindo interligar a primeira sala com a cozinha e o corredor que levava para os quatros. — Ela está piorando. — Onyx disse, vendo a irmã engolir em seco e confirmar levemente com a cabeça. Durante boa parte da vida dos dois, ambos foram simplesmente ignorados pela mãe e ficavam sobre os cuidados dos avós, se escondendo atrás deles quando Roselyn começava a gritar, xingar e amaldiçoar o vampiro. Mas com o passar dos anos, quando os gêmeos começaram a ter traços mais adultos, Roselyn parou de ignora-los e passou a ser um pouco maldosa — principalmente com Onyx. — Sim. Quando você não voltou hoje de manhã, ela estava sorrindo para as paredes, cantarolando uma música esquisita, daquelas que ela aprende nos livros. — Adeline explicou, fazendo o irmão engolir em seco. Onyx sabia muito bem que aquele tipo de coisa acontecia com frequência e que não adiantava ficar abalado, mas mesmo assim não conseguiu ignorar a pontada no peito. — O que acha que devemos fazer? Ir embora? — Perguntou ele. Onyx já havia cogitado aquilo por uma centena de vezes e até começou a juntar dinheiro certa vez, mas não parecia justo ir embora sem a irmã e deixá-la naquele fim de mundo. — Eu não sei, Nyx. Talvez a gente devesse tentar levar ela pra alguma clínica de novo. — Adeline agarrou o braço do irmão novamente e começou a puxa-lo até a cozinha, apressando o passo mais ainda quando ouviu a barriga do rapaz roncar. — Seria bom se ela colaborasse. — Ele respondeu, lembrando de quando fizeram isso e Roselyn rasgou cada centímetro de pele visível de Onyx com as unhas enquanto os quatro a tentavam colocar dentro do carro. Por mais que seus dois avós e Adeline também estivessem juntos, ela descontava sua ira apenas em Onyx. E quase uma hora depois, quando finalmente a conseguiriam colocar dentro do carro, Roselyn simplesmente abriu a porta e pulou dele em movimento. Depois desse dia, ninguém mais se atreveu a tentar tirá-la do casarão. — Onde você esteve, aliás? E que roupas são essas? — Adeline perguntou quando chegaram até a cozinha, analisando o irmão de cima à baixo. Onyx seguiu o olhar dela e analisou o próprio corpo, vendo que estava descalço e ainda vestindo a calça e a camisa de linho que Atticus o havia dado. — É uma longa história. — Onyx deu de ombros e tirou algumas mechas do cabelo ruivo que estavam caindo sobre seu rosto. Ele caminhou até a mesa e encarou o bolo de cenoura que estava sobre ela, coberto por uma tigela de vidro virada ao contrário. O rapaz pegou uma faca em uma das gavetas do armário e atacou o bolo, cortando um pedaço que daria para dividir com três pessoas. — Sou toda ouvidos, Nyx. — Adeline disse, sentando em uma das cadeiras da mesa e apoiando os cotovelos nela. Onyx começou a contar para ela tudo que havia acontecido desde a última noite, mesmo sabendo que ela provavelmente iria surtar. [•••] Já eram quase quatro da tarde quando Onyx saiu do casarão e caminhou em direção ao pomar, depois de ter tomado um bom banho e vestir roupas do seu século — embora estivessem tão desgastadas que não pareciam tanto assim ser daquele século — O jeans surrado era confortável, assim como a camisa de gola, mesmo que já tivessem clareado uns três tons de tão antigos que eram. Os avós de Onyx estavam retirando as frutas maduras e às colocando em caixotes de madeira. Ambos ainda eram bastante ativos, apesar da idade. — Oi, vovô. Oi vovó. — O rapaz abriu um sorriso amarelo, sabendo que eles provavelmente também estavam preocupados por ele ter ficado fora por tanto tempo. Joseph, seu avô, levantou uma das sobrancelhas grisalhas e revirou os olhos como dissesse "esse garoto..." — Onde estava esse tempo todo, Onyx? — perguntou sua avó, enquanto o rapaz se abaixava ao lado de um dos caixotes cheios de laranja e começou a organizar as frutas com calma dentro dele para que não caíssem quando o caixote fosse levantado do chão. Onyx olhou para as dezenas de outros caixotes espalhados pelo pomar, sabendo que era ele quem iria ter que levar todos para a picape do seu avô antes que anoitecesse. O velho não mandava ou sequer dizia que era ele quem deveria levá-las o carro, mas caso não fizesse isso, Joseph iria tentar levar os caixotes sozinhos e ia passar o resto do mês reclamando de dores nas costas, fazendo questão de falar isso na frente de Onyx, como se quisesse deixar subtendido que ele estava daquele jeito por sua causa. — Sabe muito bem, vovó, eu estava cuidando das sanguessugas. — Onyx respondeu sem qualquer arrogância na voz, antes de levantar e colocar o caixote cheio de laranjas sobre um dos ombros. Sua avó confirmou levemente com a cabeça e voltou ao trabalho. Os dois sabiam sobre os vampiros, mas escolhiam cuidadosamente ignorar a existência e falar o mínimo possível sobre o assunto. Eles usavam a mesma estratégia que Adeline, como se ignorar um problema fosse fazê-lo desaparecer. O rapaz começou a andar até o lado oposto do pomar, entre as fileiras de árvores, inclinando o corpo para o lado oposto ao do ombro em que o caixote estava, para assim compensar o peso dele. Aquele pomar era definitivamente um dos lugares favoritos para Onyx, que adorava sentir o cheiro das frutas — E comê-las, obviamente —, além de que o ar dalí era bastante úmido por causa da irrigação artificial, completamente diferente do vento escaldante e absurdamente seco do resto do deserto. Assim que Onyx chegou até a picape do seu avô, ele colocou o caixote com as laranjas em cima da carroceria e deu meia-volta, precisando fazer o mesmo caminho dezenas de vezes até que o carro estivesse totalmente carregado.
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