Dois dias depois, a situação no casarão estava extremamente desconfortável, com Onyx sequer conseguindo andar livremente pelo lugar sem causar gritos histéricos em Roselyn — As vezes ela simplesmente chiava para ele como um animal selvagem —. O quarto do rapaz ficava no limite da casa. O último na parte dos fundos, para que durante a noite, quando a situação da mãe se agravava ainda mais, não tivesse a chance de Onyx cruzar com ela, o que poderia fazê-la agir de duas formas diferentes: gritar até desmaiar ou ataca-lo e tentar rasgar seu rosto com as unhas, pois com as sombras da noite, ele ficava ainda mais parecido com um vampiro puro sangue.
Onyx não culpava a mãe por nada daquilo. Ela estava completamente traumatizada, sem conseguir distinguir a realidade das lembranças ou das coisas que ela lia nos livros. Seu autor favorito — Stephen King — Sempre escrevia coisas macabras e cheias de gatilhos, então certa vez os avós de Onyx resolveram parar de comprar livros dele para a filha, mas a situação ficou ainda mais grave. Adeline até havia tido a ideia de colar uma capa de um livro do Stephen King em outro aleatório, mas Roselyn percebeu a diferença após ler a primeira página, mesmo que o livro adulterado também fosse de terror — Um terror mais ameno e sem cenas fortes.
Onyx simplesmente não sabia o que fazer, ele também sabia que a culpa de tudo aquilo não era sua, mas era inevitável se sentir culpado com toda a situação. Ele passou a maior parte das horas do seu dia vagando pela cidadezinha e ajudando o avô com as entregas de frutas, que eram distribuídas para diferentes mercadinhos espalhados pelo vilarejo.
Na tarde do terceiro dia sem resolver caçar mais nenhum vampiro ou qualquer coisa do tipo, Onyx pegou seu celular e ligou para o vampiro bonitão do outro dia, mesmo sabendo que era uma péssima ideia. Atticus poderia ser um tremendo gostoso e parecer ter um caráter minimamente descente, mas continuava sendo um vampiro. Um vampiro secular com olhos incrivelmente astutos e uma mente rápida.
Uma onda de arrependimento tomou conta do rapaz cinco segundos após escolher o contato "VAMPIRO SABICHÃO" e apertar no pequeno símbolo de telefone que havia no canto inferior da tela, mas antes que ele fosse rápido o suficiente para desligar a ligação, a chamada foi atendida e o contator de segundos começou a rolar.
— Olá, Onyx. — A voz rouca do vampiro ecoou do outro lado, fazendo o rapaz arquejar e sentir um calafrio subir pela sua coluna. Ele não sabia como diabos o morto-vivo sabia que o contato era seu, já que não havia nome nem foto do seu número.
— Será que a gente pode se encontrar? Preciso perguntar uma coisa. — Respondeu, engolindo em seco e tentando ignorar a imagem do vampiro enorme e n***o que surgiu na sua mente.
— aham, Baby. — O vampiro disse, depois de alguns segundos em silêncio. O ronronar rouco fazia Onyx achar que ele estava com um sorrisinho malicioso do outro lado da ligação, e pelos sons agitados de trânsito do outro lado da chamada, Atticus definitivamente não estava no seu "esconderijo secreto", que era absurdamente silencioso.
— O-onde podemos nos encontrar?
— Depende. Você quer que seja em um lugar público ou confia em mim o suficiente para conversar em um lugar mais calmo? — Atticus perguntou. Ele falava de um jeito que era como se além de conversar, eles fossem fazer muito mais do que isso, e essa linha de raciocínio deixava Onyx incrivelmente desconcertado, sentindo suas bochechas arderem.
— Um lugar público parece ótimo. — Respondeu. E mesmo que já tivessem ficado sozinhos no meio do nada por um bom tempo, Onyx definitivamente não iria querer ficar sozinho novamente com um vampiro, UM VAMPIRO, se podesse evitar isso.
— Conheço um bar legal. Vou te mandar o endereço.
— Certo. Que horas?
— Umas 10:00 da noite está bom pra você? — Perguntou o vampiro, então Onyx confirmou. Eles conversaram por mais alguns segundos, então Onyx desligou a ligação, percebendo que já havia recebido a mensagem com o endereço também.
[•••]
Onyx vestiu um jeans surrado e uma camisa preta. Seus únicos sapatos novinhos em folhas — Os coturnos pretos —, foram perdidos para a sempre no pandemônio de alguns dias atrás, então o rapaz precisou se contentar com um par de all stars velhos e meio amarelados nos lugares que inicialmente eram brancos.
Quando saiu da fazenda e começou a dirigir pela estrada de terra, já eram pouco mais de 9:45 da noite. Onyx sacou o celular do bolso e checou o endereço, chegando na interestadual asfaltada e completamente escura cerca de vinte minutos depois.
Onyx percebeu tarde demais o grande furo no seu plano. O endereço que o vampiro havia lhe dado era de algum lugar na cidade vizinha, e a sua caminhonete definitivamente não tinha gasolina o suficiente para chegar até lá, o que fez o carro morrer no meio da estrada completamente escura e fria que cortava o deserto. O rapaz tinha quase certeza de que havia um posto de gasolina ali por perto, embora não funcionasse durante a noite.
— p**a que pariu. — Ele exclamou para si mesmo. Saindo de dentro do carro e tentando avistar alguma luz nas extremidades da estrada, mas não havia absolutamente nada. A única luz visível vinha da lua e do céu completamente estrelado. Onyx praguejou novamente e arrancou o celular do bolso, tentando ignorar a noite congelante ao seu redor e apoiando o corpo no carro, que ainda estava quente por causa dos longos minutos em que esteve ligado.
O rapaz mandou uma mensagem rápida para o vampiro explicando toda a situação em que havia se metido, dizendo também que o encontro deles iria ficar para outro dia, ou talvez... Para nunca. Onyx entrou na caminhonete e deitou no banco, ainda completamente surpreso com o quão burro ele era por ter saído daquele jeito sem sequer ter checado o endereço antes ou a quantidade de quilômetros que era até lá no Google maps.
Não demorou mais do que uns cinco minutos até um baque s***o fazer a caminhonete inteira balançar, como se algo de duzentos quilos tivesse acabado de aterrissar na carroceria. Onyx abriu os olhos rapidamente e sentou no banco, olhando pelo vidro atrás deles e dando de cara com Atticus em pé lá em cima. Estava completamente escuro, e apesar de ter uma visão sobrehumana, o rapaz não conseguia ver muita coisa. O vampiro estava com as asas levemente fechadas, vestindo uma calça preta e uma camisa branca com os botões abertos, deixando o peitoral n***o completamente exposto.
Onyx abriu a porta do carro e saiu para o exterior gélido, sem desgrudar os olhos do vampiro que estava em cima da caminhonete.
— Hey. — O rapaz disse à contragosto, sentindo um pouco de vergonha por causa da situação. Atticus o encarava com um sorriso felino, e com um pulo absurdamente longo, ele aterrissou de frente para Onyx, à mais ou menos meio metro de distância.
— posso te levar à um lugar? — Atticus perguntou, fazendo Onyx exitar por alguns segundos, mas ele constatou que se não fosse com o vampiro iria ficar alí no meio do nada até que outro carro passasse pela interestadual, o que poderia acontecer apenas no dia seguinte.
— Pode. — Respondeu, vendo o vampiro cruzar a pequena distância que os separava e envolver seu corpo com os dois braços. Onyx soltou um suspiro baixinho quando foi pressionado contra aquele peitoral cheiroso, n***o e absurdamente quente, deixando o vampiro pega-lo no colo e envolvendo o pescoço dele com os dois braços. A cena era embaraçosa como a da outra vez, mas pelo menos agora a escuridão ao redor deles escondia um pouco da sua vergonha.
Dessa vez, Atticus não o fez envolver sua cintura com as duas penas, mas sim passou um dos braços por debaixo das pernas do rapaz e o outro pelas suas axilas, o segurando nos seus braços grossos e musculosos antes de se lançar nos ares e bater as asas com força.
— AAAH!! — Onyx soltou um gritinho de surpresa e abraçou o pescoço do vampiro com mais força, sendo protegido do frio da noite pelo color delicioso que emanava do corpo de Atticus, que parecia estar mais quente do que a última vez. O jovem pressupôs que o vampiro conseguia controlar o calor, e que conseguiria ficar frio se quisesse.
Não havia muito o que ver olhando para baixo e encarando o deserto completamente escuro, então Onyx fechou os olhos com força e esperou o vôo acabar, apenas sentindo o corpo quente e musculoso pressionado contra o seu e escutando o bater das asas poderosas. Ele estava quase cochilando quando sentiu o vampiro pousar, parando de bater as asas.
Quando abriu os olhos, Onyx percebeu que estavam no topo de uma daquelas montanhas que haviam espalhadas pelo deserto, embora não soubesse se era aquela em que ficava a esconderijo do vampiro ou se era qualquer outra. Ele foi colocado no chão, notando também que eles estavam à poucos metros da borda da montanha e que era possível ver as luzes de uma cidadezinha no horizonte, beeeem longe de onde estavam.
— Aqui, baby. — O vampiro disse, chamando a atenção de Onyx. Atticus estava deitado em uma espécie de toalha quadriculada cuidadosamente esticada no chão. O rapaz ergueu uma das sobrancelhas, se perguntando onde ele havia arranjado aquela toalha, então o vampiro respondeu logo em seguida, como se tivesse lido sua mente: — Eu venho aqui as vezes, dormir debaixo das estrelas.
— Ah. — Onyx começou a caminhar até lá, dando um pulinho para a esquerda quando uma fogueira grande foi acesa à pouco mais de dois metros de distância de onde Atticus estava deitado, iluminando todo o lugar com uma luz amarelada e fazendo o rapaz notar o pequeno sorriso tranquilo no rosto do vampiro.
— Sobre o que você queria falar? — Atticus perguntou assim que Onyx sentou na borda da toalha e puxou as pernas contra o peito, saboreando o calor que chegava até ele, emanando do corpo grande à pouco mais de um metro de distância.
— Você consegue usar compulsão em um humano e fazê-lo esquecer algumas memórias? — Ele perguntou, olhando para a fogueira, cujo o fogo sobrenatural não queimava absurdamente nada. Era como se as chamas surgissem do nada e não consumissem nada como combustível.
— Nah. Hipnose só funciona por alguns minutos antes do efeito acabar. O que acontece quando estão hipnotizados pode até ser esquecido, mas esquecer uma memória antiga é impossível. — Atticus explicou, dando de ombros.
— Ah.— O rapaz repetiu, vendo suas esperanças de ajudar a mãe indo pelo ralo. O vampiro lhe olhou com curiosidade, embora não tenha feito qualquer menção de perguntar para quem era a hipinose.
— Você quer que eu tente? Não custa nada eu...
— Não, obrigado. — Onyx o interrompeu, descartando rapidamente a ideia. Se não havia qualquer certeza de que daria certo, colocar um vampiro em frente à Roselyn iria piorar mil vezes a situação.
Um silêncio confortável tomou conta do lugar, enquanto ambos encaravam as estrelas absurdamente brilhantes do céu. Atticus abriu as asas grandes, fazendo boa parte delas ultrapassar os limites da toalha.
— OLHA ALÍ c****e!! — Onyx se sobressaltou quando viu a asa direita dele cair sobre o fogo, fazendo a luz da fogueira atravessar a membrana absurdamente fina e a deixando de um tom avermelhado. O rapaz se lançou até o vampiro e agarrou a asa dele, puxando-a bruscamente para cima.
— Calma aí, Baby. — Atticus riu, fazendo o rapaz soltar um rosnado raivoso e dar um suco no peitoral dele, encontrando uma resistência tão dura que é como se tivesse acertado uma parede de tijolos.
— você não sente nada nelas, então?
— Já te falei é bem sensível, Nyx. Mas eu sou imune ao fogo. — Explicou o vampiro, estendendo a asa novamente e a colocando em cima das labaredas. Onyx encarou aquilo com os olhos arregalados, esperando que o fogo consumisse a membrana fina como consumiria uma folha de papel, mas não aconteceu absolutamente nada. Ele farejou o ar e tentou sentir algum cheiro de queimado, mas também não havia nenhum cheiro no ar a não ser o que emanava do vampiro, levemente amadeirado.
— Que bizarro. — Ele grunhiu, tentando voltar para o cantinho da toalha onde estava sentado antes, mas Atticus agarrou sua cintura com as duas mãos e o fez permanecer sentado alí, ao lado do corpo enorme dele.
— Pra onde vai, baby? — Perguntou o vampiro, abrindo um pequeno sorriso maroto.