08

2191 Words
Dulce  Quinta à noite.  Antes de sair de casa, eu comi uma coisa bem leve. Não era um jantar tradicional, já que eu pretendia me empanturrar com uma pizza inteira assim que chegasse em casa da igreja.  Igreja.  Um local cujo o qual eu jamais imaginei querer frenquentar. Quando criança, eu ia com os meus pais mais como uma obrigação e acabava dormindo no banco durante os sermões. Depois que me tornei adolescente, eu simplesmente parei de ir. Talvez o meu total desinteresse em prestar atenção tivesse me feito ver a igreja como algo chato e monótono.  Depois de conferir que havia pegado as chaves do meu carro, eu fui até a porta da frente e a abri, dando de cara com Alex, que parecia prestes a bater.  — O que você quer? — perguntei seriamente.  — Eu tentei ligar no seu trabalho, mas sempre que eu dizia que era eu, a Anahi desligava na minha cara.  — É mesmo? Tenho que agradecer a ela por isso. — debochei.  — Dá pra parar com a grosseria por um instante? Eu só vim te devolver o seu celular. — ele tirou o celular do bolso e me entregou. — Eu o mantive ligado para caso você fizesse uma ligação, mas parece até que não está nem aí por ter perdido.  — Eu estive ocupada pensando em outras coisas mais importantes. — guardei o celular em minha bolsa. — Onde o encontrou?  — Estava na casa dos meus pais, a Maitê quem encontrou. Eu pedi pra que ela trouxesse, mas sabe como é a Maitê, não é? — riu de leve.  — Tá, se era só isso, obrigada. — falei enquanto trancava a porta. — Tchau. — eu dei as costas começando a andar até o elevador e ele veio logo atrás. — Vai me seguir? — franzi a testa.  — É o único elevador do prédio e eu preciso ir para casa. — disse de forma óbvia. — Por que não vai de escada?  — Você mora no décimo andar! — reclamou.  — É bom fazer um pouco de exercício, quem sabe não diminui essa sua barriguinha de cerveja. — chegamos até o elevador e ele apertou o botão do térreo.  — Meu corpo é um charme! — ofendeu-se.  — Daqui a vinte anos, você vai parecer um tiozão barrigudo. — ele passou a mão sobre a barriga e se analisou no espelho.  — Não, só está me ofendendo porque ainda está com raiva de mim. — balançou a cabeça negativamente. — Quer por defeitos em mim pra ver se me esquece? — sorriu de lado. — Vai se f***r. — eu disse sem olhar para ele.  — Quanta classe! — arqueou as sobrancelhas. As portas do elevador se abriram e eu apressei o passo. — Por falar em classe, está indo a algum lugar formal? — perguntou tentando me acompanhar.  — Não que isso seja da sua conta, mas eu estou indo para a igreja.  — O Christopher tá te doutrinando mesmo, não é? Ele sempre tenta fazer isso!  — Você que é do contra. — passamos pela portaria e eu parei para falar com o porteiro. — Oi, senhor Richard, boa noite! Eu esqueci de avisar, mas o Alex não pode mais subir sem a minha permissão, tá?  — Como quiser, senhorita.  — Obrigada, até mais. — sorri e fui em direção ao estacionamento.  — É sério? Vai me barrar? — ele parou em minha frente, me obrigando a parar também.  — Alguém já te disse que você é insuportável? — coloquei as mãos na cintura.  — Você bem que gostava do insuportável aqui. — ele chegou mais perto, ficando cara a cara comigo. Meu corpo estremeceu e eu engoli em seco. — Viu? Eu ainda tenho efeito sobre você.  — Me deixa em paz! — passei por ele o empurrando com o meu ombro.  — Tudo bem, te vejo na igreja! — começou a ir até seu carro.  — O que? Não ouse ir atrás de mim! — gritei.  — Todos podem ir até a igreja e eu não irei para te seguir. Quero entender o porquê de repente você ficou tão apegada com aquele lugar!  Eu revirei os olhos, entrei em meu carro, dei a partida e comecei a dirigir. Quando cheguei à igreja, notei que a missa já estava em seu fim e quando finalmente acabou, boa parte das pessoas saíram e só as mais jovens permaneceram em seus bancos.  O padre que realizou a missa não era Christopher e eu estranhei não vê-lo por ali. Fui até um dos bancos e esperei, assim como as outras pessoas.  — Dulce! — ouvi alguém me chamar e por um momento, eu achei que fosse Alex, mas quando eu olhei pronta para mandá-lo sair, notei que era o Christopher.  — Olha, acho que estou começando a aprender como diferenciar você e seu irmão. — sorri para ele.  — Por que o Alex estaria numa igreja? — riu.  — Ele me viu vindo para cá e resolveu que queria entender o que tem de especial.  — Ele está aqui? — pareceu surpreso. — Sabe quantas vezes eu tentei convencê-lo de vir? No final, era só atraí-lo com uma mulher por quem ele é fixado. — Ele não é fixado por mim, só não aceita a ideia de ser rejeitado.  — Que bom que percebe isso. — me olhou com aprovação.  — Então, como funciona uma carismática? — perguntei.  — São os ministros que realizam as carismáticas, é uma forma de estar mais próximo das pessoas. Você vai gostar, é muito mais intenso do que uma missa. O ministro responsável por realizar a carismática finalmente a iniciou, começando por agradecer a todos pela presença. Logo depois, ele se aprofundou num tema sobre os jovens e como estão cada vez mais distantes de Deus com o passar do tempo. De fato, a forma como ele falava era bem diferente do sermão de uma missa. Era algo mais cru e simples.  Algumas outras pessoas também falavam no altar, sem leitura de bíblia ou orações, apenas relatos e opiniões, pelo menos por enquanto. E então, o que parecia ser o principal começou. Músicas muito mais felizes e dançantes foram tocadas. As pessoas no altar faziam coreografias e nos incentivavam a imitar.  No começo, eu fiquei um pouco tímida, mas Christopher passou um de seus braços em volta de mim e com muito humor, me sacudiu para que eu dançasse também. Entre risos, eu segui o ritmo de todos, imitando os passos com maestria.  — Você está indo bem! — Christopher me elogiou, enquanto ainda dançávamos. E depois desse momento de risos, o ministro pediu que fechássemos os olhos e abaixássemos a cabeça. Enquanto uma mulher dizia palavras em latim, o ministro nos motivava a esvaziar nossa mente, pensar em tudo o que nos pesa a cabeça e colocar esses problemas nas mãos de Deus, acreditando que nada disso era maior do que a nossa vitória.  Eu senti uma enorme tensão em minha pele, um arrepio correu meu corpo e eu tive vontade de chorar. Foi como se meus problemas parecessem pequenos, incapazes de ferir a mim ou qualquer outra pessoa.  Levantei o meu olhar para observar a igreja e notei que não era a única com o rosto coberto de lágrimas. A cena era linda e cheia de amor.  — Você está bem? — Christopher pousou a mão em minhas costas e me olhou atencioso.  Eu observei o seu rosto, me dando conta do quanto ele estava sendo importante, o quanto estava disposto a me ajudar mesmo nem me conhecendo direito. Talvez ele fosse um anjo enviado por Deus, ou simplesmente alguém que eu precisava muito conhecer pra conseguir enxergar que eu merecia coisas muito maiores do que o amor do Alex.  Sem dizer nada, eu o abracei, envolvendo sua cintura com meus braços e enterrando meu rosto em seu peito. No início, ele pareceu não ter esperado aquele gesto, mas logo o retribuiu, pousando sua mão sobre minha cabeça e permitindo que eu sentisse sua respiração contra a minha orelha.  Eu me sentia em paz dentro daqueles braços, então eu apenas fechei os olhos e me deixei viver esse momento, abrindo um pequeno sorriso de canto. E devo confessar que ouvir a sua respiração deixou o meu coração aquecido, de um jeito que talvez não fosse correto.  O ministro terminou de falar e a igreja se pôs em silêncio. Eu e Christopher saímos daquele abraço devagar, segurando o olhar um do outro. Eu sorri timidamente e ele sorriu também, desviando o olhar para o altar logo em seguida.  Houve mais cantoria e mais discursos, até finalmente a carismática chegar ao seu fim. Eu e Christopher saímos dali e paramos na porta da igreja. Vi ele colocar a mão em seu bolso e de lá, retirou um terço diferente, mais parecido com uma pulseira.  — Eu queria te dar isso pra que se sinta mais protegida. — ele abriu o fecho da pulseira e eu ergui o meu pulso. Depois de colocá-la, eu automaticamente segurei a sua mão e sorri agradecida. — Parece muito bem agora. — sorriu para mim.  — Me sinto renascida!  — Creio que virá na próxima semana.  — Mas é claro!  — Olha só vocês! — ouvimos a voz de Alex se aproximar e Christopher soltou a minha mão. — Sabe, eu achei tudo muito exagerado. — riu olhando para Christopher.  — Você é tão desagradável. — Christopher o olhou com reprovação.  — Só estou dizendo o que eu achei, aceite a minha opinião! Eu respeito que vocês gostem disso aqui, tá? — A única coisa que você não respeita são as mulheres com quem se envolve. — fui irônica.  — Christopher, a bíblia não prega o perdão?  — Perdoar não é o mesmo que aceitar, Alex. — Christopher foi claro. — Concordo que a Dulce deva perdoa-lo, mas não por você e sim por ela.  — Você acha mesmo isso? — franzi a testa confusa.  — Guardar mágoas de outras pessoas não é saudável para o nosso espírito. É bom que você perdoe o Alex, mas lógico que não deve aceitá-lo de volta. Seria como aceitar o pecado do pecador.  — Sendo assim, tudo bem, tanto faz, eu até te agradeço! — sorri para Alex. — Você me livrou de coisas piores, eu tenho certeza! Se não fossem os chifres eu jamais teria conhecido a igreja, ou o Christopher.  — Parece que você finalmente conseguiu manipular alguém importante pra mim. — Alex encarou Christopher.  — A sua vida inteira você achou que eu estava armando um grande plano maligno contra você. — Christopher riu. — Ponha os pés no chão, meu irmão.  — Você pode até ser padre, mas não é tão bonzinho assim.  Os dois começaram a se encarar fixamente e até para mim a cena estava sendo um incômodo. Parecia até que iriam voar no pescoço um do outro a qualquer instante.  — Christopher, você pode me acompanhar até o meu carro? — perguntei pousando a mão em seu ombro.  — Será um prazer. — sorriu gentilmente e ignorou o seu irmão.  — Até mais, Dulce! — Alex acenou quando nos afastamos. Eu forcei um sorriso e enfim dei as costas.  — Por que ele tem que ser assim com você? — perguntei enquanto caminhávamos em direção ao estacionamento.  — A inveja é um pecado comum e terrível. — riu. — Eu sempre fui o gêmeo comportado e obediente. Já ele, é o rebelde. Com isso, nossos pais facilitavam as coisas para mim, afinal, eu fazia por merecer. O Alex sempre teve ódio disso.  — E a May? Eu sei que ela é quase a versão feminina dele.  — May é a única mulher e é mais nova que nós, foi natural ela se tornar a princesinha de porcelana da casa, enquanto eu e Alex tínhamos que competir entre nós pra merecer regalias.  — Não se sente m*l tendo sido o filho preferido?  — Dulce, eu não sou o preferido, é só uma questão de lógica. Uma lógica que o Alex se recusa a entender. Imagine que você tem dois filhos e manda os dois estudarem em troca de ganharem sorvete depois. Você percebe que apenas um deles fez todas as lições enquanto o outro usou os lápis para riscar as paredes. Pra quem você dá o sorvete? — Para o filho que estudou. — eu assenti compreendendo tudo.  — Eu tento ser o melhor irmão que posso, mas como você pode ver, Alex não está tão afim de me ter por perto. E eu sei que não devo, mas não consigo ficar em paz e me manter superior. — Vocês são irmãos, é normal que haja um espírito de briga, mesmo que já sejam adultos.  — Não há nada de normal comigo e com o Alex. — paramos ao lado do meu carro.  — Espero que vocês consigam se unir um dia e que ele tente ser alguém melhor.  — Para Deus, nada é impossível. — ele beijou a cruz que estava em seu pescoço.  — Nada é impossível. — repeti com um sorriso de canto.
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