Dulce
Eu caminhei por entre as paredes silenciosas daquela igreja, vendo algumas pessoas ajoelhadas, lendo suas bíblias ou apenas parecendo esperar. O número de fiéis era inferior ao número que eu vi durante a missa de domingo. Isso poderia se dar ao fato de que estávamos no meio da semana e não tinha nenhuma missa sendo realizada.
Procurei por Christopher pela igreja, mas logo deduzi que ele estava no confessionário, tendo em vista que observei uma pessoa saindo de lá e logo depois, outra tomou o seu lugar. Christopher estava ouvindo confissões.
Sentei em um dos bancos, esperando que as pessoas terminassem, mas comecei a ficar impaciente ao ver que a fila de fiéis só aumentava. Como eu estava sem o meu celular para me distrair, achei que seria mais fácil se eu entrasse naquela fila e avisasse ao Christopher do jantar lá mesmo no confessionário.
A fila foi andando e finalmente chegou a minha vez. Sentei num banco que ficava ao lado da porta de madeira que separava o padre do fiel. Apenas uma pequena janela com furinhos servia de alcance para uma conversa clara.
— Conte-me os seus pecados. — ele disse com uma voz mansa.
— Christopher, sou eu, a Dulce.
— Dulce? Devo dizer que estou surpreso.
— Só vim para avisar que o jantar está confirmado para hoje, às 20:00h. Restaurante tailandês da avenida Belmont.
— Tudo bem, eu sei onde fica.
— Ótimo! Vou deixar que continue a trabalhar. — me preparei para sair.
— Espere! Já que está aqui, por que não faz uma confissão?
— Te contar os meus pecados? — ri sem jeito. — Eu nunca fiz isso.
— Sabe que tudo o que me disser ficará entre nós e Deus.
— E o que eu confessaria? Que eu falo muitos palavrões, minto vez ou outra, bebo demais quando estou chateada e até posso, por acaso, ter experimentado alguma droga ilícita na adolescência? — eu ouvi ele soltar um riso baixo.
— Fale-me sobre aquilo que a faz sentir culpada.
— Culpa? — respirei fundo. — Não sei... eu posso pensar muito nas coisas estúpidas que já fiz.
— E que coisas são essas?
— Não ter insistido com o meu pai quando eu era mais jovem. Sei que vamos tentar agora, mas já se passou tanto tempo... às vezes é como se eu tivesse desperdiçado uma parte da minha vida. — ele ficou em silêncio, me dando espaço para prosseguir. — Também me arrependo de ter me envolvido com o Alex, por mais que eu tenha recebidos tantos sinais antes. Como eu pude escolher ser tão cega? Agora eu penso com a cabeça em relação ao Alex, mas se tivesse ouvido a razão antes, teria evitado todo esse conflito. E também... — suspirei, sentindo uma dor no meu peito. — Eu queria ter dito mais vezes para a minha mãe o quanto eu a amava.
— Sobre o seu pai, você não estava pronta para tentar e se tivesse forçado uma aproximação sem estar devidamente preparada, tudo poderia acabar m*l, você não saberia como segurar o relacionamento. Limpe o seu coração e tenha em mente que não é tarde para mostrar aos entes queridos o quanto o queremos em nossas vidas. Sobre o Alex, não é culpa sua. Não foi você quem mentiu, foi ele. Se tem uma pessoa que deveria ter agido diferente, essa pessoa era ele. E mais uma vez, não é tarde para aprender a ouvir a sua razão. Sobre a sua mãe, ela sabia o quanto você a amava e ainda sabe disso, porque ela pode te ver lá de cima. Realmente nunca parece ser o suficiente o número de vezes em que dizemos amar alguém. Mas não são só as palavras que demonstram esse amor. Você disse o que tinha que dizer, tenha certeza disso.
— Obrigada. — a essa altura, eu já tinha o meu rosto coberto de lágrimas. — Você sempre sabe o que dizer.
— E você precisa fazer uma coisa agora, para que o seu coração se livre dessa culpa.
— O que?
— Conecte-se com Deus. Ajoelhe-se em frente ao altar e reze três pai nossos e cinco ave marias.
— Isso vai ajudar?
— Só vai saber se tentar, mas vá com a mente aberta, apesar de não ser uma pessoa tão religiosa.
— Ok, eu posso tentar.
— Que Deus te abençoe.
— Amém.
Eu saí do confessionário e sentei em um dos bancos, um pouco afastada das outras pessoas. Devagar, eu me abaixei até que meus joelhos tocassem o chão. Uni minhas mãos como as outras pessoas faziam e olhei diretamente para o altar.
— Não custa nada tentar...
Baixei minha cabeça e comecei as orações indicadas por Christopher, sempre mantendo em mente todas as coisas ditas no confessionário, como se aquelas palavras se misturassem às minhas orações. Era mesmo reconfortante e aliviador imaginar que toda a minha "culpa" estaria saindo de mim assim como as palavras que eu proferia.
Quando eu terminei, tornei a sentar no banco e fiquei encarando aquele altar, com uma sensação estranha e nova surgindo em mim. Senti vontade de chorar, mas não era um choro de tristeza, mas sim algo aliviador. Eu sorri, com minhas lágrimas misturando-se com o meu sorriso, limpando-me de dentro para fora. Fazia tempos que eu não sentia esse tipo de alívio.
Continuei ali e aos poucos, observei a igreja começando a se esvaziar, até estar sem ninguém. Do confessionário, Christopher saiu. Ele usava uma roupa toda preta, da cabeça aos pés, com exceção do colarinho clerical branco que vez ou outra ele ajeitava, como uma mania que poderia ter adquirido com o passar dos anos.
— Você ainda está aqui! — ele sorriu para mim.
— Eu fiquei refletindo um pouco. — sorri de lado.
— Quer conversar mais? — sentou ao meu lado.
— Não, acho que a confissão foi o suficiente, me fez sentir renovada.
— Sinto que você está começando a ter uma relação íntima com Deus. — ele parecia muito animado com aquilo. — Espero que esteja aqui na quinta à noite, pelo menos após a missa.
— Após? — franzi a testa.
— Todas as quintas, nós realizamos uma carismática administrada pelos jovens sentinelas da nossa paróquia. Costuma ser algo voltado para os adolescentes, mas todos podem vir. Nós cantamos, dançamos, contamos relatos, enfim... é um momento de ser mais íntimo uns com os outros.
— Parece divertido. — falei com sinceridade. — Eu virei.
— Que bom! — sorriu.
— Você está me ajudando muito. Eu gostaria de poder retribuir tudo isso.
— Bem... — pendeu a cabeça para o lado. — Você é fotógrafa, não é?
— Sim.
— Já trabalhou numa quermesse?
— Não.
— E que tal se você fotografasse a nossa próxima quermesse? Por um preço bem amigável, claro. — riu.
— Isso poderia ser a minha... como vocês dizem mesmo? Doação angelical?
— Isso!
— Será um prazer.
— Obrigado, Dulce.
— Eu que agradeço. Bem, eu tenho que voltar para o estúdio. Até mais tarde.
— Até. — acenei com a cabeça e saí de lá.
O resto do dia foi bem leve. Até mesmo Anahi percebeu que eu estava diferente, com um tipo de brilho especial. Talvez eu estivesse mesmo construindo uma relação mais íntima com Deus e me peguei pensando que eu deveria ter começado isso antes, mas lembrando-me das palavras de Christopher, "nunca é tarde".
À noite, eu me arrumei uma hora antes do horário. Como a noite estava fria, eu optei por usar uma calça jeans, botas de couro marrom e uma blusa verde escura, com mangas até os meus pulsos. Prendi meu cabelo num r**o de cavalo e coloquei um sobre-tudo preto, para afastar o clima gélido.
Saí do meu prédio e cheguei ao restaurante exatamente às 20:12h. Eu estava um tanto quanto atrasada, convenhamos. Depois de dar o meu nome na recepção, fui guiada até a mesa nove, onde avistei meu pai e Christopher conversando animadamente. Assim que me viram, os dois ficaram de pé.
— Filha, que bom que chegou! — meu pai veio até mim, me ajudou a tirar o sobre-tudo e o colocou no encosto da cadeira onde eu iria sentar.
— Boa noite, Dulce. — Christopher me cumprimentou com um beijo no rosto.
— Boa noite. — eu sorri. — Me desculpem o atraso, perdi a noção do tempo. — nós três nos sentamos.
— Não se preocupe, querida, só faz doze minutos e nós tivemos uma ótima conversa. — meu pai disse.
— O Christopher sempre sabe o que dizer. — sorri para ele.
— Imagina. Eu estou muito feliz por ter sido convidado e por poder ser, de certo modo, um intermédio para que vocês consigam reconstruir a relação de pai e filha. — ele disse no tom mais calmo possível.
— Eu sinto que essa noite será preciosa. — meu pai colocou sua mão sobre a minha e sorriu para mim.
A noite realmente foi preciosa e crucial para ditar como eu e meu pai iríamos lidar um com o outro dali em diante. Ele foi gentil e atencioso a noite inteira e Christopher, como esperado, sempre dizia as coisas que precisávamos ouvir. Eu achei que ficaria nervosa o tempo inteiro, mas me senti em paz.
Quando terminamos o jantar, nos despedimos do meu pai na porta do restaurante e eu prometi que ligaria novamente para marcamos algo.
— Como se sente? — Christopher perguntou.
— Bem. — sorri. — Eu estou feliz!
— Que bom! — sorriu também. — Antes de pedir para o manobrista trazer os nossos carros, você não quer dar uma caminhada? Tem um parque aqui perto com um lago e uma ponte belíssimos.
— Acho que será um agradável fim de noite.
Ele me ofereceu o seu braço e eu enlacei o meu ao dele. Começamos a caminhar em direção ao parque que ainda estava movimentado, apesar de já não estar tão cedo. A maioria ali estava em casal e pareciam estar de namoricos.
Nós fomos até a ponte, nos encostamos no corrimão e ficamos observando o resto do parque.
— Sinto falta disso. — falei olhando para o casal que mais parecia estar no início do relacionamento.
— Você terá isso de novo, eu tenho certeza. — Christopher falou.
— Mas será que vai ser tão intenso quanto o Alex? Ele podia ser um babaca, mas sabia como tratar uma mulher. Talvez seja por isso que ele atraía tantas. — revirei os olhos.
— Tendo em vista o comportamento do meu irmão, vai ser muito fácil achar alguém melhor que ele.
— Tudo bem. — olhei para o céu. — Não sei onde você está agora, mas se for a minha alma gêmea, por favor, apareça. — ouvi Christopher rir de leve.
— Almas gêmeas não existem.
— Não acredita nisso?
— Não existe ninguém no mundo diretamente destinado a você. Existem muitas pessoas que possam ser compatíveis umas com as outras e isso não tem relação com alma gêmea e sim com personalidade e necessidade. Você faz o seu destino.
— Acho que essa foi a primeira coisa deprimente que você me disse. — o olhei de canto.
— Por que seria deprimente?
— Não sei se você percebeu, mas eu não estou me saindo bem na tarefa de "fazer o meu destino". — fiz aspas com os dedos.
— Como não? Você é uma mulher talentosa, conseguiu montar o seu próprio negócio antes dos trinta anos, é chefe de si mesma, tem um apartamento num dos melhores prédios da cidade e acabou de se reconectar com o seu pai. Não acho que está fazendo nada de errado com o seu destino.
— É, eu acho que o amor pode ser destrutivo mesmo. Você acaba de citar todas essas coisas e de fato, são verdades. Mas por que eu só consigo pensar no Alex quando penso em meus fracassos?
— Não pense em seus fracassos, pense em suas vitórias. Você é uma mulher brilhante demais para se preocupar com homens. Não precisa de um homem, precisa de uma carreira, uma moradia, saúde e as pessoas que já te amam. Você já tem tudo isso.
— p***a! — resmunguei, colocando a minha mão sobre a boca logo em seguida. — Desculpa, eu nunca fui amiga de um padre antes e como eu já disse, falo muitos palavrões. — expliquei sem jeito.
— Não tem problema. — riu. — Mas eu disse algo de errado?
— Não, você é sempre sensato, sensato demais. É que eu me peguei pensando que sempre procurei um homem assim e quando eu o encontro, ele é um padre! Eu devo ser muito azarenta! — comecei a rir, mas fui parando quando notei que ele continuou sério. — Eu estou brincando, ok?
— Eu sei. — sorriu sem mostrar os dentes. — Você me deixa com um ponto de interrogação na cabeça.
— Por que? — franzi a testa.
— Essa é a questão. Eu não sei o porquê.
— Mas é um ponto de interrogação r**m? — me preocupei.
— Não, eu gosto de você, faz bem pra mim estar ao seu lado. É só... diferente. — deu de ombros. — Você é diferente.
Eu sentia que aquilo era sério e a tensão em seu olhar só me deixou ainda mais curiosa. Nós dois ficamos nos encarando com a expressão totalmente neutra.
— Ok... — tornei a observar o lago, tentando quebrar o clima incômodo. — Acho que já está tarde e acabou de ficar ainda mais frio.
— Concordo.
Nós retornamos ao restaurante, pedimos nossos respectivos carros e quando o meu chegou primeiro, nós nos despedimos com um beijo no rosto e dois sorrisos sinceros.