Dulce
Senti um forte incômodo em minha cabeça e coloquei minhas mãos sobre minha testa, mantendo meus olhos bem fechados. Quando os abri, a luz solar invadiu a minha retina e eu esfreguei meu rosto, tentando me acostumar com a claridade.
Com um pouco de esforço, eu consegui sentar e senti um pouco de enjôo. Coloquei minha mão sobre a minha barriga e respirei fundo, concentrando-me para não vomitar. Eu com toda certeza passaria muito tempo sem beber.
— Mas... que? — indaguei olhando em volta. Aquela não era a minha sala ou nenhuma outra sala que eu me lembre de já ter estado.
O meu primeiro pensamento era que eu havia saído da festa com algum desconhecido e transado com ele, mas a minha última lembrança era de ter cogitado ir até o apartamento de Christopher.
Sobre uma das mesinhas de canto, eu vi algumas fotos dos Uckermann's e respirei aliviada, mesmo que o fato de eu estar ali fosse uma loucura da minha parte. Era menos m*l do que ir para a cama com alguém que não conheço.
Eu ainda estava com a roupa da noite anterior e sobre mim, havia um cobertor. Eu nem conseguia pensar com que cara eu iria olhar para o Christopher. E foi só ouvir passos aproximarem-se que meu coração gelou.
— Bom dia, está bem? — ele perguntou, ainda com o rosto um pouco sonolento.
— Depende. O que eu fiz?
— Você veio até aqui e achou que eu fosse o Alex.
— Meu Deus, eu não te tratei m*l, tratei? — perguntei com preocupação.
— Não, você só ficou muito, muito emotiva. — riu pelo nariz. — Depois você me abraçou e acabou apagando. Eu te deitei no sofá e trouxe um travesseiro e um cobertor.
— Eu te abracei? Isso é um pouquinho desrespeitoso, não? — arqueei a sobrancelha.
— Dulce, eu sou um ser humano como qualquer outro. — sorriu de lado. — Fique tranquila. — eu assenti. — Como descobriu o meu endereço?
— Devo ter visto em algum lugar na casa dos seus pais.
— E por que veio até mim?
— Bem, eu estava m*l e queria me sentir melhor. A última vez em que me lembro de estar totalmente bem foi quando conversamos. Uma pena que eu tenha saído do meu restinho de consciência assim que cheguei aqui. — sorri sem jeito.
— Ainda bem que não bateu o carro. — riu. — Eu vou preparar uma coisa para a sua ressaca.
— E o que um padre que nunca bebeu na vida saberia sobre como curar ressaca?
— Eu tenho uma irmã bem festeira que adora aprontar desde muito nova. Sei tudo sobre curar ressacas. — deu uma piscadela. — Já volto e se precisar vomitar, o banheiro fica na primeira porta do corredor.
— Ok, obrigada! — ele assentiu e se retirou.
Pude ouvir o barulho do liquidificador e não demorou muito para que ele retornasse segurando um copo de vitamina. Ele me entregou e sentou ao meu lado.
— Banana, abacate e mel. Aposto que vai se sentir bem melhor. — ele disse.
Comecei a ingerir a vitamina que tinha um sabor até que muito bom, apesar da estranha combinação de abacate com banana. Ouvimos algumas batidas na porta e Christopher fez uma cara confusa, já que o porteiro não havia interfonado.
Ele pediu licença, levantou e abriu a porta, ficando cara a cara com Alex. Aquela era a primeira vez que eu via os dois juntos e a cena foi um pouco curiosa. Eles se encararam como se fossem se socar a qualquer momento.
— Já disse pra parar de se passar por mim na portaria! — Christopher falou bravo.
— Mas assim é mais fácil de entrar. — Alex sorriu sarcasticamente. — Eu saio daqui a pouco, só vim buscar a Dulce. — olhou em minha direção. — Fiquei preocupado com você. — ele veio até mim, sentou ao meu lado e segurou uma de minhas mãos. Vi Christopher revirar os olhos.
— Como soube que eu estava aqui? — perguntei.
— Christopher avisou para a Maitê e ela veio me atacar dizendo que eu era o motivo de você ter enchido a cara e surtado. Não sou o motivo, sou? — pendeu a cabeça para o lado.
— Ok... — Christopher começou. — Eu vou levar o lixo lá pra fora e vou pegar a minha correspondência. — ele disse, claramente para nos deixar a sós. — Mas já aviso que não irei demorar. — falou a última frase encarando o Alex.
— Leve o tempo que precisar, irmãozinho. — Alex forçou um sorriso. Após Christopher sair do apartamento, Alex voltou a sua atenção totalmente para mim. — Eu fui o motivo?
— Isso definitivamente não importa. — escorreguei minha mão para fora da dele. — E você não deveria ter vindo atrás de mim.
— Por que veio aqui? Eu nem sabia que vocês dois se conheciam.
— Eu o conheci na loja do Christian e depois fui à missa de domingo e nós tomamos um café juntos. — dei de ombros.
— E deixa eu adivinhar... — suspirou pesadamente. — Christopher não foi nada gentil ao falar sobre mim, não é?
— Ele está me ajudando muito, em muitas coisas. — desviei de sua pergunta. — Não interessa pra você o que ele me diz. — fui grossa.
— Eu só queria ficar bem com você, mas acho que nunca vai deixar de me odiar. — mirou o chão.
— Eu posso perdoar você, afinal, o perdão é uma dádiva.
— Uma frase dita pelo Christopher? — ficou sério.
— Alex... — sorri de lado sarcasticamente. — Não interessa. Enfim, eu disse que posso te perdoar, mas eu não esqueci o que você fez. Eu não acho que esteja arrependido e muito menos acho que você vai mudar.
— Eu posso mudar por você.
— Não mudou por mim em três anos, por que faria isso agora? — ele ficou em silêncio. — Pode ir embora, eu vou pra casa sozinha.
— E se você passar m*l durante o caminho?
— O Christopher me ajudou com isso também! — ergui o copo de vitamina que estava pela metade. — Acho que ele é o gêmeo bom aqui. — Alex assentiu devagar.
— Eu fiquei preocupado de verdade e já que você parece bem e o padrezinho está cuidando tão bem de você, acho que eu já posso ir. — ficou de pé.
— Sim, você já pode ir.
— Eu te amo. — levou sua mão até o meu rosto, na intenção de acaricia-lo, mas eu me afastei.
Ele apenas me olhou com uma expressão de dor em sua face, depois me deu as costas e saiu pela porta da frente. Alguns minutos depois, Christopher passou pela porta trazendo algumas correspondências nas mãos.
— Parece que a conversa foi desagradável. Ele nem olhou pra mim quando passou ao meu lado no corredor. — eu apenas assenti, sem conseguir dizer nada. — Você está bem? — ele colocou a correspondência sobre a mesinha de centro e sentou ao meu lado.
— Estou, a vitamina me ajudou. — tentei sorrir.
— Falo emocionalmente.
— É só que... — senti meus olhos se encherem de lágrimas e o choro travou em minha garganta. — Eu queria... — a primeira lágrima correu por minha face. — Queria que ele sumisse da minha mente. — falei por fim.
— Não é fácil esquecer alguém que foi tão importante. O sentimento de perda é duradouro e doloroso, mas tudo bem se sentir assim, faz parte do processo de cura. E principalmente, você precisa admitir que está ferida, só assim vai conseguir lidar com isso.
— Eu admito. — olhei em seus olhos. — E eu tenho que admitir que é bem difícil olhar pra você, entende?
— Sim, eu tenho o mesmo rosto que o Alex, eu entendo perfeitamente. Se você quiser ficar longe de mim...
— Não! — o interrompi. — Vocês se parecem fisicamente, mas toda vez que você abre a boca, eu vejo o quão diferentes são. — coloquei minha mão sobre a dele. — Obrigada por estar me ajudando.
— Eu só estou cumprindo a minha missão. — ele olhou para as nossas mãos e depois voltou a olhar para o meu rosto.
E não é como se eu quisesse me sentir atraída, mas parecia inevitável. Diferente das outras vezes, Christopher não me chama atenção por ser idêntico ao Alex, mas por conseguir ser tão superior a ele. Nós dois ficamos nos encarando por longos segundos, sem dizer absolutamente nada e aquele momento de tensão me trouxe uma paz inexplicável. Era bom poder estar perto dele.
— Então... — ele soltou uma tosse falsa, tirou sua mão de baixo da minha e encostou-se no sofá. — Quando pretende jantar com o seu pai? — mudou de assunto.
— Não tive tempo de pensar em um dia específico.
— Por que não marca hoje? É o único dia da semana em que estarei livre.
— Ótimo! Eu vou ligar para o meu pai e depois ligo pra você avisando do local. — ele assentiu.
— Você não tem que ir trabalhar? — olhou seu relógio de pulso.
— Merda, eu tô atrasada! — exclamei ficando de pé. — Merda, eu falei "merda"! — olhei para ele com um olhar de desculpas. — Perdão, eu falei de novo! — fiquei sem jeito.
— Está tudo bem. — riu. — Consegue dirigir?
— Sim, eu estou bem de verdade, você foi um anjo e me desculpa por tudo isso. — calcei os meus sapatos.
— Não precisa se desculpar, eu estou sempre disposto a ajudar. — ele me acompanhou até a porta. — Até mais tarde.
— Até. — sorri uma última vez e depois fui em direção ao elevador.
Passei em casa e tomei um banho rápido, vesti uma roupa qualquer e depois voltei ao meu carro, começando a dirigir até o estúdio. Quando entrei, vi Anahi na recepção, com um semblante de pânico.
— Por que não atendeu o celular? Os clientes estão impacientes! — ela disse.
— Droga, meu celular! — coloquei a mão sobre a testa. — Eu não faço ideia de onde deixei!
— A Maitê me disse que você dormiu na casa do Christopher. — me olhou com curiosidade.
— Longa história, mas não tem nada de errado nisso. — deixei claro. — Agora vamos ao trabalho antes que alguém arranque o meu pescoço.
Comecei o meu trabalho, tirando todas as fotos que eu precisava para aquela manhã. Durante o expediente, eu vi Anahi secar umas três garrafas de água, tomada pela ressaca causada por toda a vodka que ela tomou na noite anterior.
No horário do almoço, nós resolvemos pedir algo e comer ali mesmo, adiantando o trabalho da tarde.
— O que foi? — Anahi perguntou ao ver que eu não parava de olhar para o telefone da recepção.
— Acho que eu vou chamar o meu pai pra jantar hoje.
— Tem certeza disso?
— Sim. Eu quero tentar.
— Isso é ótimo! — sorriu. — Faz isso antes que perca a coragem. — ela tirou o telefone do gancho e me entregou.
Da minha bolsa, eu peguei o cartão que meu pai havia me dado e disquei o número. Mordi meu lábio inferior ouvindo chamar algumas vezes e quando finalmente foi atendido, eu prendi a minha respiração.
— Alô?
— Hum... pai?
— Dulce? Oi!
— Então, eu te liguei porque resolvi que quero jantar com você.
— Mesmo? Nossa, você não imagina o quanto isso me deixa feliz! Onde você quer jantar? E não se preocupe, eu pago tudo! — ele parecia mesmo amimado.
— Pode escolher qualquer lugar que goste. — sorri de lado. — E só mais uma coisa, eu chamei o padre Christopher pra ir com a gente, tem problema?
— Problema nenhum, mas há alguma razão específica?
— É meio estranho sair com você depois de tanto tempo, não me leve a m*l. O Christopher é meu amigo e é padre da paróquia que você frequenta, achei que ele poderia nos guiar melhor nessa reaproximação.
— Pensou bem, minha filha. Farei as reservas naquele restaurante tailandês que íamos quando você era criança. Você adorava, se lembra?
— Sim, eu ainda adoro a comida de lá.
— Perfeito! Te vejo às 20:00h?
— Às 20:00h. — confirmei. — Até mais tarde.
— Até.
Logo depois de desligar, eu me dei conta de que não poderia ligar para o Christopher pois não estava com o meu celular e não sabia seu número de cabeça. Pedi para que Annie segurasse as pontas por mim, então eu saí do estúdio e fui até o apartamento de Christopher, onde fui avisada de que ele estaria na igreja realizando confissões com seus fiéis.