Dulce
Parei meu carro em frente à mansão Uckermann. Assim que eu, Annie e Christian descemos, entreguei minhas chaves para o manobrista e nós três atravessamos os portões abertos da entrada, caminhando sobre uma estrada de pedras cercada por uma grama bem verdinha.
— Eu duvido que todo mundo aqui seja amigo da Maitê. — Annie disse. — Ela é insuportável quando quer ser.
— Eu acho ela um ser excêntrico. — Christian disse. — Como uma rainha má.
— Tá mais pra princesa nojentinha. — falei.
Nós entramos na sala onde a festa acontecia e eu tive que me concentrar pra não ficar tonta diante daquelas luzes de boate. Todo mundo dançava, bebia e também usavam suas coisas ilícitas sem preocupar-se com as pessoas ao redor.
— Aquela garota acabou de usar uma nota de cem pra cheirar cocaína! — Anahi disse, apontando para o bar. — Que estilosa! — sorriu.
— Meus melhores amigos chegaram! — avistei Maitê vido até nós de braços abertos e abraçou um a um. — Annie... — a olhou de cima a baixo. — Tem muito tempo que você não sai, né? — riu.
— Eu vou te ignorar, tá? — Annie forçou um sorriso, deu as costas e se afastou indo para o bar.
— Christian se esforçou um pouco hoje, pelo que vejo. — tocou a jaqueta de Christian com as pontas dos dedos. — Qualquer um que te visse, diria que você é gay! — falou aquilo em tom de aprovação.
— Hum... tá... eu vou pegar algo pra beber. — ele praticamente saiu correndo, me deixando a sós com a fera.
— E você, meu bem. — Maitê segurou meu rosto entre suas mãos. — Está linda.
— Estou? — arqueei a sobrancelha, sem acreditar que ela não faria nenhuma crítica.
— É. Você já passou por muita coisa, melhor deixar que essa noite seja leve, então não vou te deixar preocupada com a sua maquiagem. — fez seu melhor olhar de carinho, mesmo com a última frase ácida.
— Essa foi a coisa mais gentil que já me disse, parabéns, está evoluindo! — debochei. — Seu papai deixou você fazer essa festa?
— Ele está em outro país a negócios. — sorriu de lado. — Ah, merda... — resmungou, olhando por cima do meu ombro.
— O que? — virei-me para olhar e vi a única pessoa que não queria ver naquela noite.
— Eu juro que não o convidei, ele deve ter ficado sabendo e apareceu. — May suspirou pesadamente. — O pior é que se eu o mandar embora, ele vai avisar ao papai que eu faço festas em sua ausência.
— É melhor eu ir para casa. — tornei a ficar de frente para ela. — Eu realmente não quero estar no mesmo ambiente que ele.
— Ai não, por favor, não vai! — juntou as mãos em súplica. — A casa é grande, você não precisa ficar perto dele!
— May, eu não sei...
— E que tal se eu abrisse um dos uísques de cinquenta anos do papai só pra você? — me olhou de forma sugestiva.
— Bebida cara que eu nunca provei na vida? Opa! — sorri.
— Ótimo! Vai lá no bar, te encontro daqui a pouco.
Maitê foi correndo em direção ao escritório do pai e eu segui até o bar, tentando me esconder entre as pessoas para que Alex não me visse. Eu odiaria ter que falar com ele, já que evitei fazer isso nas últimas semanas. Sentei ao lado de Anahi, que entornava doses de vodka, uma atrás da outra.
— Se passar m*l, eu não vou cuidar de você. — avisei.
— Você sempre diz isso e você sempre cuida. — falou antes de beber outra dose.
— O Alex está aqui.
— Mas a Maitê não disse que ele não vinha? — franziu a testa.
— Ela acha que ele soube e resolveu aparecer.
— Quer ir embora?
— Não, eu não quero ter que sair de um lugar toda vez que ele estiver lá. Eu quero poder viver a minha vida, sabe? f**a-se o Alex!
— Essa é a minha garota! — me abraçou de lado.
— Parece que eu acabo de encontrar a mulher mais bonita da festa. — uma voz masculina disse ao meu ouvido.
Olhei para o loiro de olhos verdes que sentou no banco ao meu lado e depois olhei para a Anahi, com a expressão de quem deseja gritar de desespero. Como sempre, divertindo-se com a situação, Annie fingiu que nada acontecia e manteve um sorriso frouxo nos lábios.
— Então, oi. — comecei. — Não sei o que você espera de mim, mas eu não estou interessada. — fui direta.
— Ah, mas a gente ainda nem conversou direito. — ele aproximou o seu banco do meu.
— Mas eu não tô afim. — revirei os olhos.
— Não precisa se fazer de difícil. — sorriu de lado.
— Ôh meu querido, sai daqui, ela já disse que não quer! — Anahi gritou.
— A conversa é entre mim e a sua amiga. — deu uma piscadela para Annie.
— Não tem conversa quando apenas uma pessoa quer conversar. — para o meu desconforto, Alex apareceu, colocando seu braço entre mim e o cara, como se quisesse afastá-lo. — Sabe o que significa a palavra "não"? É literalmente NÃO. — o encarou de forma desafiadora.
O homem levantou, encarando Alex de volta, mas não fez nada, apenas deu as costas e saiu andando em direção à pista de dança, certamente para perturbar outra mulher.
— Você também pode sair, Alex! — Annie colocou as mãos na cintura.
— Você nunca foi com a minha cara, não é? — ele riu.
— Bingo! — ela forçou um sorriso.
— Amiga, está tudo bem. — pousei minha mão sobre o ombro dela.
— A gente pode conversar? — ele perguntou.
— Claro que não. — falei.
— Dulce, eu só quero ter uma última conversa de boa com você. Naquele dia, você quase quebrou a minha cara e nem sequer parou pra me ouvir de tão irritada que estava.
— E por que será que eu estava tão brava? — me fiz de desentendida.
— Porque eu sou um i****a que perdeu o amor da minha vida por um momento com alguém que eu m*l conheço.
— Eu não vou cair nessa.
— Não estou tentando fazer nada, eu juro. Eu não espero que me perdoe e muito menos que volte comigo. Eu só quero que você saiba que eu te amo e que eu sou grato por ter me apaixonado por você. Eu sinto muito por ter te traído. — eu assenti uma única vez, relaxando um pouco.
— Tudo bem, eu te ouvi.
— Obrigado. Enfim, mesmo tendo certeza de que não a terei de volta, eu ainda tenho que te pedir sei lá... uma última noite? — colocou as mãos no bolso, como se estivesse sem jeito. — Não me imagino indo pra casa com mais ninguém hoje além de você. — eu não podia negar que essa proposta me abalava. — Pensa sobre isso e me procura. Ou não, não sei. — depois de me dar uma última olhada sútil, ele se retirou.
— Que cretino! — Annie proferiu.
— Você acha que isso deveria ter uma última vez? Só pra dizer adeus? — perguntei como quem não quer nada.
— Tá maluca? Ele te meteu um par de chifres! Aliás, um não, vários!
— Eu sei, eu sei! — coloquei minhas mãos em meu rosto. — É que ele ainda me abala, você sabe.
— Amiga, tem muito homem bonito aqui. Transa com alguém hoje sim, mas não com o i****a do Alex! Tenha amor próprio!
— Ok, você tem razão. Mas eu não vou t*****r com ninguém hoje, sua doida!
— Daqui a pouco vai criar teia de aranha no meio das penas. — riu e eu dei um tapinha em seu ombro.
Depois que Maitê me trouxe o uísque prometido, eu comecei a beber e já nas primeiras doses, fui sentindo o efeito. Não pude evitar de ficar procurando Alex a noite toda e por incrível que pareça, ele parecia sozinho. Não dava em cima de ninguém e nem mesmo aceitava as cantadas que recebia das mulheres.
A todo instante, seu olhar parava em mim e ele me secava de cima a baixo, com o mesmo olhar de quando retirava as minhas roupas devagar antes de fazer o que quisesse com o meu corpo. E aquilo foi o suficiente pra que eu sentisse uma pressão em minha calcinha, obrigando-me a beber mais para desviar daqueles pensamentos.
Anahi já estava louca, dançando com um cara aleatório enquanto Christian estava sentado em um dos sofás olhando para ela com uma expressão de desgosto, já prevendo como seria ter que cuidar dela depois.
Com a garrafa de uísque pela metade, a coloquei debaixo do braço e comecei a caminhar até chegar no que eu achei que fosse o banheiro, mas na verdade, era o escritório. Vi algumas correspondências sobre a mesa e em uma delas estava o nome do Christopher. Era um pacote enviado por ele e eu não pude deixar de olhar o endereço do remetente.
— Não é tão perto, mas eu sei onde é. — indaguei comigo mesma. — Que? Você vai à casa de um padre às... — tentei olhar meu relógio de pulso, mas estava turvo demais. — Eu acho que são duas da manhã. — fiquei parada olhando o endereço no pacote. — Que se f**a, deixa a Dulce do futuro lidar com o arrependimento amanhã.
Saí da mansão e depois que o manobrista trouxe o meu carro, eu entrei e comecei a dirigir devagar o suficiente para evitar que eu causasse um acidente. Por sorte, já deveria ser mesmo bem tarde, não tinham muitos carros na rua e foi super tranquilo chegar até o prédio onde Christopher morava.
Estacionei em frente e fui até a portaria, com meus sapatos na mão e a garrafa ainda debaixo do meu braço.
— Boa noite! — eu disse. — Eu quero visitar um morador.
— Qual o número do apartamento?
— Eu não sei, mas o nome dele é Christopher Uckermann.
— O padre? — ele me olhou com estranheza, o que era de se esperar já que eu estava claramente bêbada. — Só um momento.
Christopher
Eu estava em meu mais profundo sono quando fui acordado pelo barulho do interfone. Cocei meus olhos, levantei e fui atender.
— Sim?
— Senhor Uckermann, há uma senhorita aqui que deseja vê-lo. Ela disse que se chama Dulce.
— A Dulce? — franzi a testa. — Ela está bem?
— Bom, eu não diria que está tão bem assim. Ela acabou de sentar na calçada da portaria e não sei se vai levantar tão cedo, já que está tão bêbada.
— Jesus... eu já estou descendo, não deixe ela sair daí!
Vesti a primeira camisa que vi pela frente, calcei meus chinelos e saí do meu apartamento às pressas, até chegar ao elevador. Quando cheguei até a portaria, eu vi Dulce sentada no chão, abraçada à uma garrafa de uísque e com os olhos fechados.
— Dulce? — agachei ao seu lado e segurei o seu rosto. — Ei, olha pra mim. — ela abriu os olhos devagar.
— Alex... — levou sua mão até meu rosto e sorriu.
— Não, eu não sou o Alex. — a olhei com tristeza, pensando no quanto essa mulher estava sofrendo por alguém que não a merecia.
Coloquei um de seus braços sobre os meus ombros e usei minha mão livre para segurar a sua cintura. A levantei e comecei a levá-la até o elevador.
— A minha bebida! — ela tentou voltar, mas eu a segurei.
— Já chega, né? — eu disse de forma firme.
Subimos até o meu apartamento depois de entrarmos, eu a levei até o sofá e a sentei ali. Depois, fui até a cozinha, peguei um copo de água com açúcar e retornei para a sala.
— Bebe isso, vai se sentir melhor. — entreguei o copo para ela e sentei ao seu lado.
— Eu me sentiria melhor se estivesse com você. — me encarou.
— Dulce, eu não sou o...
— Shhhh... — colocou seu dedo indicador sobre meus lábios. — Você com certeza é a minha penitência. — riu. — Estou pagando por todos os meus pecados!
— Ninguém é a penitência de outra pessoa.
— Eu amo você, sabia? E eu já estava conformada, mas daí você aparece e me propõe uma última noite. Está querendo me enlouquecer? — ela continuava achando que eu era o Alex.
— Ele fez isso? — franzi a testa. — Que terrível!
— O pior é que eu quero! — começou a chorar. — Eu sou uma i****a!
— Não diga isso, você só está fragilizada, não é sua culpa. — pousei minha mão sobre o seu rosto.
Ela tornou a me olhar, deitou sua cabeça sobre minha mão e me pegou de surpresa ao me abraçar, com sua cabeça encostada em meu peito. Ali ela chorou soluçando e eu me vi na obrigação de abraçá-la de volta, mas com muita cautela e ainda um pouco incerto.