04

2252 Words
Dulce  Christopher me acompanhou até meu carro e depois de trocarmos contato, nos despedimos e eu dirigi até o meu prédio. Seria curioso me tornar amiga de um padre, mas o rápido café que tomei com ele foi muito interessante. Eu adorei ouvi-lo falar, tanto na missa sobre Deus, quanto numa conversa casual sobre a vida e coisas aleatórias.  Assim que cheguei até a porta do meu apartamento e encaixei a chave na fechadura, ouvi a porta da Anahi ser aberta e ela me olhou de forma séria.  — Tem uma pessoa querendo falar com você. — ela fez sinal em direção ao interior de seu apartamento.  — Alex? — franzi a testa. Era o único em que eu conseguia pensar. Annie negou com a cabeça.  Tomada pela curiosidade, eu entrei no local e minhas pernas travaram assim que eu vi quem estava sentado no sofá, parecendo esperar ansiosamente por algo.  — Oi, querida! — sorriu sutilmente.  — Pai? — meu semblante se tornou sério.  — Eu a vi na igreja hoje, mas não soube como falar com você. Não parei de pensar nisso e depois de ouvir o sermão do padre, senti que precisava vê-la.  — Eu vou deixar vocês a sós. — Annie disse, retirando-se para o seu quarto.  Tomei fôlego e sentei no sofá de frente ao meu pai, sentindo-me desconfortável com a situação em que fui colocada. Eu não esperava vê-lo nem hoje e nem tão cedo. Nossa relação sempre foi extremamente conturbada e depois que a minha mãe faleceu, tudo só piorou.  — O que quer me dizer? — perguntei.  — Eu queria poder consertar as coisas. Eu sei que nós nunca fomos muito próximos e que você sempre preferiu a sua mãe, mas não é tarde pra refazer a nossa história. Eu sou o seu pai e quero fazer parte da sua vida.  — A mamãe era o laço que nos prendia. — desviei o olhar. — Por que de repente você decidiu que precisa de mim? — soei um pouco grossa.  — Você foi uma estranha para mim desde que nasceu. Eu tentei, eu juro que tentei te dar atenção e eu me importava de verdade, sempre quis o melhor pra você. Eu só... eu não sabia lidar com uma pessoa que dependia tanto de mim daquela forma.  — E aí você achou que seria muito melhor deixar que a minha mãe fosse a responsável por me dar amor e atenção? — pendi a cabeça para o lado.  — Parecia muito natural para ela. Blanca era extremamente amável. — sorriu como se uma lembrança tivesse surgido. — Eu gostaria de voltar no tempo e ter aprendido a ser como a sua mãe.  — Mas isso não é possível. Você nunca foi um pai, você só é o homem que me sustentou durante a minha formação e olha, eu agradeço por isso. Mas só sustento financeiro não é o suficiente.  — Eu sei, agora eu sei disso. Filha... — ele tentou segurar minha mão, mas eu a afastei. — Ok... — suspirou. — Eu estou tentando me redimir. Hoje eu te vi num lugar que sempre foi sagrado para mim e interpretei isso como um sinal. Ouvir o sermão sobre como devemos zelar pela nossa família me fez acordar pra muitas coisas. Eu não posso mudar o passado, mas eu posso moldar o meu futuro pra que ele seja melhor. Pra que eu seja melhor.  — Eu tenho certeza que uma criança precisa muito mais da atenção de um pai do que uma mulher de quase trinta anos. — era difícil dar o braço a torcer.  — Tudo bem. — ele ficou de pé. — Estou tentando, Dulce. Você é quem decide se vai me perdoar e tentar de novo, ou não. — de seu bolso, ele pegou seu cartão de advocacia, com seu número de celular. — Me liga caso pense melhor, eu gostaria de levá-la para jantar.  Com um pouco de relutância, eu segurei o cartão entre meus dedos e assenti uma única vez. Ele soltou um suspiro longo e começou a caminhar até a porta, até ir embora. Olhei para o cartão com o nome e o número dele e me vi em dúvida sobre o que deveria fazer.  — Desculpe, mas eu ouvi atrás da porta, é um péssimo hábito. — Anahi disse ao retornar. — O que vai fazer?  — Eu não sei, Annie. — encostei-me no sofá, olhando para o teto. — Ele não era um pai horrível, jamais me tratou m*l, sabe? Ele só não era amoroso. Parecia mesmo que éramos estranhos um para o outro.  — Por que ele era assim?  — Eu não sei. — fechei meus olhos. — Preciso pensar no que fazer, não quero ir a um jantar desconfortável. Já basta o desconforto em ter que conviver com ele durante toda a minha vida.  — Eu acho que você deveria dar o benefício da dúvida e testar se isso daria certo. Vá ao jantar, converse com ele sem estar na defensiva e comprove se as coisas realmente irão mudar. Se tudo continuar na mesma, você finge que nada aconteceu e volta à sua vida normal, sem o seu pai estar presente.  — Pode ser.  — Mudando de assunto... então, você foi a missa. — sorriu. — O que achou?  — Muito bom, foi bastante agradável, você deveria ir. — sorri também.  — Talvez. — deu de ombros. — Mas e depois foi pra onde? Seu pai te esperou por horas aqui, eu já estava sem saber o que inventar pra conversar com ele.  — O Christopher me convidou pra tomar um café com ele.  — O padre? — franziu a testa. — Amiga, eu sei que disse pra você arrumar outro homem, mas padres não podem se relacionar com ninguém, deixa de ser desesperada! — brincou e eu não pude evitar de dar risada. — Sobre o que conversaram?  — Família, relações, Alex... — desviei o olhar. — O Christopher quer me ajudar a seguir em frente e eu acho que preciso mesmo de alguém sábio como ele pra me guiar na estrada pós Alexander. Quem melhor pra isso do que o cara que dividiu o mesmo útero que ele?  — Eu sei que você ainda sente algo pelo Alex, então como consegue olhar para o irmão gêmeo dele sem sentir nada?  — E quem disse que não sinto nada? Tenho que me alertar o tempo inteiro de que aquele falando comigo não é o embuste do Alex. Eu me peguei diversas vezes reparando nos lábios do Christopher, foi horrível. — cobri meu rosto com as mãos. — Me sinto tão suja!  — Pecadora infame! — Annie jogou uma almofada em mim. Passei o resto do dia trabalhando e a todo momento, eu olhava para o cartão com o número do meu pai. Aquela seria uma decisão difícil. Eu nunca tive a opção de ter o meu pai presente, ele jamais me procurou depois que saí de casa e por mim, estava tudo bem, eu realmente não pensava em vê-lo. Agora que ele reapareceu com a ideia de tentarmos de novo, eu estava confusa, com uma bagunça mental.  Na segunda bem cedo, antes de ter que ir até o estúdio, eu fui até a academia do centro. Chegando lá, coloquei meus fones de ouvido e fui direto para a bicicleta ergométrica. E mesmo com os fones de ouvido no máximo, eu consegui ouvir uma voz estridente que me era muito familiar.  — Dulcinha! — Maitê parou ao meu lado e sorriu para mim. Parei de pedalar e a encarei. — Eu ia mesmo te ligar hoje. Vou fazer uma social na minha casa, você, Annie e Christian estão convidados.  — Nem pensar!  — Por que não? — franziu a testa.  — Por causa do Alex! — falei o óbvio.  — Acha que eu te convidaria se ele fosse? Amiga, eu não sou tapada!  — Às vezes parece que é. — ironizei.  — Sempre muito amorosa. — sorriu forçadamente. — Você vai, não é?  — Bem, já que o Alex não vai estar lá, tudo bem, eu vou. Preciso mesmo dar uma relaxada.  — Ótimo! — sorriu.  — Mas já aviso que não vou ficar até tarde. Hoje é segunda e infelizmente eu não posso me dar ao luxo de não trabalhar na terça. — alfinetei e ela revirou os olhos.  Maitê sentou numa bicicleta ao meu lado e eu coloquei meus fones, tornando a pedalar. Ergui a minha cabeça e olhei em direção ao local dos pesos, onde algumas pessoas faziam musculação. E um deles prendeu a minha atenção.  Eu não sabia qual dos gêmeos era e fiquei muito nervosa com a possibilidade de poder ser o Alex. Apenas fiquei o encarando enquanto ele erguia um peso, destacando os músculos de seus braços toda vez que fazia esforço. O suor descia por entre os espaços desses músculos e o rosto criou um rubor tão atraente que eu parei de pedalar e só fiquei encarando, sem conseguir desprender meu olhar daquele deus grego.  — Ainda não conseguiu diferenciar os dois? — ouvi Maitê rir alto ao meu lado e retirei os fones novamente. — Aquele é o Christopher, pare de olhá-lo como se quisesse comê-lo vivo, que pecado!  — Eu não estava... — travei ao falar, voltando a olhar na direção dele.  — Dulce, pelo amor de Deus! — ela quase gritava de tanto rir. — Eu vou te explicar. Christopher tem o rosto mais sensível, com um ar de saúde, já que nunca bebeu ou fumou na vida. O Alex tem a expressão mais bruta, sabe? Vivo dizendo pra ele usar um hidratante. — negou com a cabeça.  — Esses detalhes são específicos demais, Maitê. Só você repara nessas características das pessoas.  — Eu tenho uma ótima percepção.  — E uma língua venenosa. — completei e ela deu de ombros. — Não sabia que padres se preocupavam em manter a forma.  — O Christopher é bem preocupado com a própria saúde. Como ele voltou a morar aqui, indiquei essa academia e ele está vindo comigo.  — Vocês dois são muito próximos?  — Sim. Eu adoro conversar com ele, é como uma sessão de hipnose. — brincou.  — Pois é, ele fala tão bem!  — Soube que ele está te ajudando a esquecer o Alex. Isso é bom, mas não foca no fato dos dois serem completamente iguais. Seria horrível ter que imaginar você tendo desejos sexuais pelo meu irmão padre.  — Maitê! — a repreendi.  — Tô falando sério, não seja doida! — Não se preocupe, eu tenho bom senso. — revirei os olhos.  Notei que ele estava vindo em nossa direção, com um sorriso gentil no rosto. Retribuí o sorriso e esperei que ele se aproximasse.  — Dulce, que prazer revê-la! — falou educadamente.  — Digo o mesmo! — respondi.  — Eu vou correr um pouco na esteira agora. Te vejo à noite, ex cunhadinha! — May deu uma piscadela e saiu rindo.  — A sua irmã é sempre um verdadeiro amor de pessoa. — fui sarcástica.  — Ela só é um pouco mimada. — sorriu de lado. — E como se sente depois da nossa conversa de ontem?  — Eu estou bem em relação ao Alex, mas outra coisa apareceu pra encher a minha cabeça.  — E o que seria?  — O meu pai. Nós nunca fomos muito próximos e agora ele quer mudar as coisas, começar do zero.  — Mas isso é ótimo! — ele disse positivamente. — Qual a sua preocupação?  — De que isso não dê certo. Eu jamais pensei em ser íntima do meu pai, ele nunca foi carinhoso comigo e eu me acostumei, sabe? Não quero ter que alimentar expectativas e me frustrar depois.  — Ele parece disposto a tentar de verdade?  — Bem, ele nunca nem liga pra mim e ontem foi até a minha casa. Então eu diria que sim, ele parece bem disposto.  — Faça isso, Dulce. Essa é uma ótima oportunidade de reaver a sua relação com o seu pai, não deixe isso escapar. Nossa família é um presente divino e devemos zelar por ela sempre que possível. — eu sorri sutilmente e assenti devagar.  — Ei, por que não vem jantar com a gente? Você é o padre da paróquia que ele frequenta e eu me sentiria bem mais confortável com alguém igual a você presente.  — Igual a mim? — arqueou a sobrancelha.  — Alguém que sabe o que dizer e quando dizer. Pode me ajudar com isso? — ele pareceu pensar por alguns segundos.  — Posso. — concordou. — Liga pra mim e marcamos um dia.  — Muito obrigada, isso é muito importante pra mim.  — Não há de que. — sorriu. — Te vejo depois, até mais, Dulce.  — Até!  Ele passou por mim e tocou de leve em meu ombro, o que me fez perceber como sua mão era macia. E mesmo que estivesse suado, o cheiro do seu perfume se sobressaía e ficou no ambiente mesmo depois que ele saiu.  Balancei minha cabeça negativamente me repreendendo por ficar prestando atenção em coisas assim. Sim, ele era igual ao homem por quem eu era apaixonada, mas eles não eram a mesma pessoa!  {...} Já era noite, eu estava acabando de me maquiar para ir até a festa da Maitê. Era a primeira vez que eu saía para beber e dançar depois do meu término. Esperava que essa noite pudesse curar algumas feridas que ainda não estavam cicatrizadas em mim.
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