20

2308 Words
Dulce Passei mais dois dias no hospital e assim que tive alta, eu, Anahi, Christian e Christopher compramos passagens de volta para casa. Maitê teria que ficar para continuar trabalhando na temporada de desfiles, mas me desejou uma boa viagem e prometeu falar comigo todos os dias enquanto estivesse longe. Era impressionante vê-la tão atenciosa e preocupada comigo. Era um lado novo do qual eu estava gostando muito.  Jensen estava sob custódia da polícia enquanto aguardava por seu julgamento. Ao menos, o promotor do caso nos garantiu que ele não pegaria menos do que uma pisão perpétua por todas as coisas das quais já vinha sendo acusado. Era muito aliviador saber que ele não estaria à solta para fazer com outra mulher nada parecido do que fez comigo.  Durante o vôo de volta, Christopher segurou o tempo todo em minha mão, me dando toda a sua atenção como se quisesse garantir que eu estava bem. É claro que tudo ficaria difícil de agora em diante, eu com certeza me sentia insegura e passaria muito tempo sem conseguir sair desacompanhada por aí. Ficar sozinha era algo que me deixava com medo. Mas ter ele se mostrando tão presente estava me ajudando a enxergar uma realidade na qual eu não deveria guardar preocupações em mim.  Eu ainda estava com o rosto muito machucado, meu olho direito havia desinchado um pouco, mas eu ainda não conseguia abri-lo. Meu rosto estava com hematomas com colorações que iam de vermelho até um roxo quase preto. E os pontos dos cortes em minha testa e bochecha só chamavam ainda mais atenção das pessoas, que me olhavam com estranheza, curiosidade e alguns até com pena quando passavam por mim. Era desconfortável me sentir tão anormal.  Quando saímos do avião e fomos pegar nossas malas, eu avistei Alex sentado em uma das cadeiras de espera. Ele estava de cabeça baixa, com seus cotovelos apoiados em seus joelhos, que tremiam freneticamente. Assim que ele ergueu sua cabeça e parou seus olhos em mim, soltou um suspiro e sorriu aliviado, levantando e começando a vir em minha direção.  — Eu e Christian pegamos as malas. — Anahi disse, passando a mão em minhas costas.  — E eu fico bem aqui. — Christopher se pôs ao meu lado e encarou Alex seriamente.  Alex acenou positivamente para Annie e Christian assim que os dois passaram por ele, mas ficou totalmente sério quando viu que eu estava com Christopher. Eu posso jurar que ele não gostou nada de vê-lo comigo, já que o havia ameaçado para que não ficasse perto de mim.  — Meu Deus, olha o que te fizeram! Você está bem? — ele segurou em minhas mãos e me olhou atento.  — Na medida do possível. — dei de ombros.  — Eu fiquei tão preocupado quando a Maitê me contou o que aconteceu! — ele me puxou para um abraço e eu fiz uma careta de dor. — Por que não me ligou?  — Com licença, você está machucando ela. — Christopher colocou seus braços entre mim e Alex, nos afastando à força. — Como pode ver, ela ainda está muito machucada.  — Christopher. — Alex bufou, descontente. — Achei que estava em seu retiro espiritual.  — Voltei pela Dulce. Eu detestaria ficar longe dela num momento tão delicado. Tenho que priorizar as pessoas que eu gosto. — eu sorri comigo mesma ao ouvir aquilo.  — Mas você não precisa se preocupar, eu estou aqui, posso cuidar dela. — Alex deu um passo para perto do irmão, como se o desafiasse.  — Tenho certeza que a última coisa que ela quer agora é um brutamontes perto dela. — Christopher respondeu ríspido.  — Como é? — Alex arqueou a sobrancelha. — Está me comparando com o doente que espancou ela? É sério?  — Dado o seu histórico com mulheres, eu não duvido que você seja capaz de fazer qualquer coisa pra ter a Dulce de volta. — Christopher... — até eu fiquei em choque ao ouvir Christopher insinuar algo assim.  — O padre agora aprendeu a fazer julgamentos? — Alex se irritou. — Está fazendo poucas orações, irmãozinho.  — Talvez eu venha tendo muito contato com o pecado ultimamente. — eu sabia que aquela frase era sobre mim e eu não gostava de ser tratada como um pecado.  — Chega! — berrei. — Eu passei por muita coisa e eu não quero ficar ouvindo essas besteiras agora, está bem? Eu não sou um cabo de guerra, eu decido quem manter perto de mim ou não! — os dois ficaram calados e me olharam envergonhados. — Eu só quero ir pra casa, tomar os meus remédios e dormir o dia inteiro. — suspirei.  — Eu te acompanho! — os dois falaram ao mesmo tempo e depois, se olharam como se quisessem brigar.  — Eu vou com a Anahi e com o Christian. Com mais ninguém além deles. — fui clara. Nós três ficamos em meio a um silêncio pesado e desconfortável.  — Pegamos as malas! — Christian apareceu com Anahi. — Tudo bem aqui? — franziu a testa intercalando o olhar entre nós três.  — Sim. Podemos ir? Estou muito cansada.  — Claro, o Uber já deve estar chegando. — Anahi disse. — O Christopher vem com a gente?  — Não. — ele respondeu. — Vou para a minha casa e depois passar na igreja para avisar que eu voltei e já posso retomar as minhas atividades normais. — eu olhei diretamente para ele, com os lábios levemente abertos. Isso era uma decisão? — Eu ligo para saber como você está. — falou olhando para mim. — Até breve. — dizendo isso, ele pegou sua mochila, a ajeitou nas costas e saiu andando.  — E você, Alex? Está de carro ou quer dividir o Uber com a gente? — Christian perguntou.  — Eu estou de carro. Só vim saber se a Dulce tinha chegado bem, agora acho que eu vou ver a minha filha. Eu te vejo depois, ok? — eu assenti. Ele acenou com a cabeça e saiu andando.  — Está tudo bem? — Anahi me abraçou de lado e me olhou com carinho.  — Sim. — assenti. — Eu estou com um pouco de dor de cabeça.  — Em casa eu te faço um lanchinho bem gostoso e você vai ficar bem logo. — Annie estava sendo uma verdadeira mãezona comigo. Eu sorri para ela em resposta.  — Também ganho um lanche desse? — Christian fez bico e nós rimos.  — Mas é claro! — Annie apertou a bochecha dele.  Nós finalmente chegamos em casa. Eu tomei um banho, comi o lanche preparado por Annie, tomei os meus remédios e me deitei para dormir. Christian e Anahi prometeram ficar no meu apartamento até terem certeza de que eu estava dormindo. Eu ainda não queria ficar sozinha, mesmo estando tão longe de Los Angeles e de Jensen.  {...} Ouvi o barulho da campainha e sentei na cama num pulo pelo susto. Cocei o meu olho bom e deslizei minhas pernas para fora da cama, calçando os meus chinelos. Fui caminhando até a porta do quarto e parei bruscamente ao lembrar que o porteiro não havia ligado avisando de alguma visita. Anahi e Christian tinham uma cópia da minha chave, eles sempre entravam sem bater.  Caminhei devagar sentindo o meu corpo se enrijecer pelo medo crescente. Imaginei diversas coisas em minha cabeça e a principal delas era que de algum jeito, Jensen teria me achado e estava do outro lado da minha porta pronto para terminar o que começou.  A campainha tocou novamente, já que eu estava demorando a ir atender. Me obriguei a ir até lá e antes de abrir, olhei pelo olho mágico, vendo a bela imagem de Christopher a me esperar. Suspirei aliviada e depois que meu coração ficou mais calmo, eu abri a porta.  — Oi. — ele soltou o ar e sorriu de leve.  — Como conseguiu entrar? — franzi a testa.  — Eu sei que você não ia deixar eu ou o Alex entrarmos, já que não gostou da nossa pequena discussão no aeroporto. Então... eu disse ao seu porteiro que eu era o Alex e que nós tínhamos voltado a namorar. — ele corou como se tivesse feito algo vergonhoso.  — Agora você mente? — coloquei as mãos na cintura, fingindo repreendê-lo.  — Eu sei... eu sei... — riu pelo nariz. — O que está acontecendo comigo?  — Entra. — abri mais a porta e dei espaço para que ele passasse.  — Você estava dormindo? — perguntou depois que eu fechei a porta.  — Sim.  — É, eu notei. — ele levantou seu dedo indicador na frente do meu rosto e desenhou um círculo, destacando o meu cabelo.  — Ha ha ha. — proferi ironicamente. Passei minhas mãos pelo meu cabelo desgrenhado para abaixar o seu volume. Ultimamente, eu preferia não me olhar tanto no espelho. — Só pra deixar claro, eu deixaria você subir.  — E o Alex? — arqueou a sobrancelha.  — O Alex não, mas isso não é por causa da discussão no aeroporto. Você sabe que ele fez muita merda.  — E você não vai fazer nada? Sei lá, arremessar uma bola de metal nele? — eu ri quando ele descreveu o acontecido de quando peguei Alex me traindo.  — No momento, eu só quero ele longe de mim, depois eu decido como vou ter uma conversa desagradável sobre como ele não deve se meter na minha vida pessoal.  — Entendo.  — E aí... — desviei o olhar. — Como foi lá na igreja? Até que você resolveu tudo rápido, não?  — Rápido? — franziu a testa. — São seis da noite, eu só tive tempo de ir para casa tomar um banho e depois vir aqui.  — Já é de noite? — cocei a nuca. — Droga, eu literalmente dormi o dia todo! — e saber disso fez a minha barriga roncar.  — Não almoçou? — ele riu olhando para a minha barriga.  — Não.  — Quer que eu cozinhe pra você?  — Vou te dar esse privilégio. — fui caminhando até a cozinha e ele me seguiu. — E você vai jantar comigo também. — afirmei.  — Isso é uma ordem? — Sim. — sentei num dos bancos do balcão e fiz sinal com a mão como se apresentasse a minha cozinha. — À vontade. — ele sorriu para mim, retirou sua jaqueta, ficando apenas em sua camiseta preta e foi até a pia lavar as mãos. — Por que você só usa preto? — questionei.  — Na vida, cada segundo do seu tempo deve ser gasto com coisas produtivas, cada decisão que você toma determina o tempo em que você tomará outras decisões futuras. Usar apenas roupas pretas me faz não perder tempo tendo que escolher as roupas que combinam para eu vestir. Sei o que vestir antes mesmo de abrir o meu guarda-roupa.  — Por que você tem que filosofar tudo? — ele apenas deu de ombros. — Eu te admiro, apesar da maluquice. — ele fechou a torneira da pia, caminhou até mim e me pegou de surpresa ao beijar a minha testa.  — Se eu tivesse passado muito tempo escolhendo essa roupa, talvez eu não estivesse aqui com você agora e a gente passaria bem menos tempo juntos do que eu gostaria de passar. — senti meu rosto esquentar e um sorriso se espremeu para surgir. — Agora, eu tenho que preparar o nosso jantar. Você gosta de espaguete?  — Com certeza.  Ele começou a preparar tudo enquanto nós dois conversávamos sobre os mesmos assuntos comuns de sempre. Durante todo o tempo, minha cabeça martelava sobre o fato de ele ter corrido para voltar aos seus serviços assim que pisamos na cidade. Afinal, ele não iria pensar sobre continuar em sua missão? Por que ele continuaria nisso mesmo não tendo certeza? Isso me preocupava muito.  Depois que a comida ficou pronta, ele sentou ao meu lado no balcão e nos serviu. Eu dei minha primeira garfada enquanto ele me olhava ansioso. Fiz minha melhor cara de aprovação enquanto assentia. Ele sorriu e começou a comer também.  — Posso perguntar uma coisa? — eu precisava mesmo saber.  — Sim. — Por que voltou para a igreja? Eu achei que você estivesse em dúvida sobre a sua missão. Você foi para o retiro para pensar sobre isso, então não entendi o porquê de ter voltado para as suas atividades.  — Eu ainda não tomei uma decisão, Dulce, mas ainda sou um padre, esse é o meu trabalho há anos e eu não posso abandoná-lo simplesmente porque estou com dúvidas. Enquanto uma decisão não for devidamente tomada, eu continuarei na minha missão. — Mas isso não muda... bem... não muda a gente né? — ele me olhou de canto por alguns segundos.  — O que quer dizer?  — Que você ainda cogita estar comigo. — Christopher se mexeu no banco parecendo desconfortável e eu tive um péssimo pressentimento.  — Talvez. — soltei o fôlego, aliviada. — Eu vou continuar pensando e até lá, vou viver a minha vida como sempre vivi. Bem... não em tudo. — sorriu para mim. — Eu não sou o mesmo perto de você.  — Não?  — Você me trouxe coisas novas, coisas que eu nunca pensei que poderia vivenciar. E eu agradeço, porque me sinto muito bem, apesar de ficar assustado às vezes. — eu pendi minha cabeça para o lado e sorri para ele.  — Então, eu não sou um pecado?  — Você é uma mulher incrível, pecado é eu ter te beijado. — nós dois rimos. — E esse é único pecado do qual eu não posso me confessar.  — Por que?  — Porque eu não me arrependo. — sua voz ficou grave ao dizer aquilo, fato que me deixou em silêncio e ao mesmo tempo, querendo gritar de alegria.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD