Dulce
Eu lutava com os meus próprios sentidos para me manter consciente e aos poucos, fui recobrando a minha visão, mas meu corpo se manteve mole, como se eu tivesse sido anestesiada. Eu sentia Jensen passar as mãos por minhas pernas, olhando para o meu corpo como um animal faminto.
Ele fez menção de levantar o meu vestido e eu juntei o punhado de forças que me restava para empurra-lo de leve.
— Não... — resmunguei.
— Cala a boca! — ele disse. — Você vai gostar disso, eu prometo.
Ele aproximou seu rosto do meu, forçando-me a beija-lo. Eu tentava o empurrar, mas ele era claramente mais forte e eu estava totalmente drogada. Minha única alternativa foi morder a sua boca e eu mordi tão forte que senti o gosto de sangue quando ele grunhiu de dor.
— Sua v***a! — estapeou o meu rosto com força e eu senti uma ardência no meu lábio.
Ele me forçou a abrir as pernas e dessa vez, eu o chutei, o que só o deixou ainda mais irritado, me dando um soco no rosto que me deixou muito mais tonta do que eu já estava.
— So... corro... — eu tentava fazer esforço para gritar.
— Você está complicando as coisas! — gritou.
O que ele fez em seguida certamente me fez pensar que eu me encontraria com a minha mãe mais cedo do que eu imaginava. Jensen agarrou o meu pescoço e bateu minha cabeça com força, repetidas vezes contra a porta do carro. Logo depois, deferiu inúmeros socos em meu rosto.
— Olha o que você me fez fazer! — berrou.
Eu não conseguia mais abrir os olhos, não ouvia nada além de um zumbido em minha cabeça e quase não sentia as demais pancadas que ele depositou em meu rosto. Naquele momento, eu só me concentrei em não desmaiar.
Senti que ele se afastou de mim e com um pouco de dificuldade, abri apenas o meu olho esquerdo, por tempo o suficiente para vê-lo afastar minhas pernas uma da outra e começar a abrir a sua calça, que marcava uma ereção bem aparente. Era nojento ver que toda a violência contra mim o havia e******o.
Agora não tinha mais nada que eu pudesse fazer. Eu não conseguia ver, ouvir direito, me mexer ou ao menos gritar por ajuda. Minha cabeça doía muito, enquanto meu corpo parecia dormente.
— DULCE!! — uma voz masculina, que eu não consegui identificar, gritou de longe.
— Ai, meu Deus!! Sai de cima dela, seu desgraçado! — agora era uma voz feminina.
Eu senti quando Jensen foi arrancado de cima de mim, felizmente antes que pudesse me tocar. Mesmo com o zumbido, eu ouvia o barulho de socos.
— Ela tá sangrando muito! — uma segunda voz feminina falou. — Meu Deus, Dulce... — disse com voz de choro, enquanto apertava alguma espécie de tecido contra a minha testa.
— Christian, não deixa ele fugir, eu vou chamar a polícia e a emergência! — agradeci aos céus por ouvir um nome conhecido.
— Tudo bem, vai ficar tudo bem. — a voz feminina perto de mim dizia, com suas mãos trêmulas que limpavam todo o meu rosto possivelmente ensanguentado.
Abri meu único olho bom e observei Anahi com uma expressão de horror e o rosto coberto de lágrimas. Ver a minha amiga assim doeu bem mais do que toda a pancada que eu levei.
— Por favor... não morra... — ouvi ela choramingar antes que eu desmaiasse de vez.
Quando acordei, estava numa ambulância, que corria com as sirenes ligadas. Ao meu lado, havia um paramédico que estava analisando meus sinais vitais.
— Você acordou! — ele disse. — Como se sente, Dulce?
— Dor... — foi a única coisa que saiu da minha boca. — Meu olho. — me desesperei por ainda só conseguir abrir um único olho.
— Seu olho direito está muito inchado, por isso não consegue abri-lo. — ele explicou. A ambulância passou por um buraco, o que me fez gemer de dor. — Desculpe por isso, querida.
— Annie... — minha garganta doía e minha voz estava falha.
— Estou aqui. — o rosto dela surgiu sobre mim, com um semblante deveras assustado. — Vai ficar tudo bem, não vou te deixar sozinha.
Eu ainda estava tonta e totalmente s*******o sobre o espaço ao meu redor. Tudo o que eu percebia era que estava presa a uma maca, com um colar cervical em meu pescoço, que me impedia de olhar além do teto acima de mim.
O paramédico era bem atencioso e me fazia perguntas a todo instante, como se quisesse me manter acordada, mas eu acabei desmaiando novamente.
Recobrei meus sentidos mais uma vez, durante alguns segundos, vendo tudo como um borrão ao meu redor. Eu estava sobre uma maca, que era arrastada por um lugar que eu deduzi ser o hospital. Algumas vozes se misturavam ao meu redor, desesperadas e altas o suficiente para fazer a minha cabeça doer.
{...}
Acordei novamente, abri meu único olho bom e notei que minha audição estava normal de novo, minha visão já não estava tão embaçada e eu estava na cama do hospital, ainda sentido muita dor por todo o meu corpo, com vários aparelhos conectados a mim.
O sol estava entrando pela janela do quarto e quando corri meu olhar por ali, observei Maitê dormir encolhida em um lado do sofá, enquanto ao lado dela estava Annie, lendo uma revista. Na poltrona, Christian bebia um café e eu observei um pequeno hematoma na maçã de seu rosto, como se ele tivesse sido socado.
E foi quando eu senti algo mexer em minha mão que eu virei meu pescoço com dificuldade para o lado, onde eu vi Christopher, segurando minha mão entre as suas, com um terço enrolado em seu pulso e a cabeça baixa como se rezasse.
— Chri... Christopher. — o chamei.
— Dulce! — ele me olhou com um pouco de susto e alívio misturados.
— Dulce? — Anahi proferiu e os meus três amigos correram até mim, ficando ao redor da cama. — Como se sente?
— Com muita dor. — fiz uma careta ao tentar me mexer e notar que não podia. — Minha cabeça dói. — ergui minha mão até o curativo acima da minha sobrancelha. Também tinha outro em minha bochecha.
— Eles precisaram fazer pontos na sua testa e na sua bochecha. — Maitê explicou.
— Jensen. — me preocupei em ele estar solto.
— Ele foi preso, não se preocupe. — Christian disse. — Testemunhamos contra ele hoje de manhã e o delegado garantiu que ele não teria chances de sair da prisão, já que já tinha acusações pesadas em sua ficha e foi preso em flagrante.
— Aquele desgraçado nunca mais vai fazer isso com nenhuma mulher. — Anahi falou.
— Que horas são? — perguntei.
— Quatro da tarde. — Christopher respondeu. — Você não acordou mais desde que desmaiou ontem à noite. — ele me olhava de forma protetora.
— Se você sentir dor, é só me avisar. — Annie disse. — Tem um botão no seu soro que injeta morfina no seu sangue e vai te fazer relaxar.
— Eu gostaria disso agora, por favor. — pedi.
Ela assentiu, ergueu sua mão e apertou o botão no cano do soro. A dor latejante começou a passar aos poucos e eu abri um sorriso satisfatório ao perceber o meu corpo ficar leve.
— Eu deveria ter isso em casa. — falei e todos riram de leve. — Por que eu desmaiei tantas vezes?
— Os médicos fizeram uma ressonância magnética, você não teve nenhum dano cerebral, apenas um inchaço que foi o que causou os desmaios. — Maitê disse.
— Mas isso já está sendo tratado com medicamentos. — Christian completou.
Eles continuaram falando algumas coisas que eu não entendi bem o que eram, já que estava começando a apagar por conta na morfina.
{...}
Quando acordei, já era noite. No meu quarto só estavam Maitê e Christopher, um de cada lado da minha cama. Ela estava com uma roupa diferente, já ele, parecia não ter saído dali em nenhum momento. Ambos sorriram ao notarem que eu estava acordada.
— Ainda com dor? — May perguntou.
— Melhorou um pouco. — eu disse. — Mas eu estou com muita fome.
— Eu vou pegar algo no refeitório pra você. — ela ficou de pé. — Ou acha melhor eu pedir um lanche? — pegou seu celular do bolso. — A comida daqui é deprimente e você merece um pouquinho de alegria depois de quase ter morrido.
— May! — Christopher a repreendeu.
— O que? Ela quase morreu, mas não morreu. — Christopher revirou os olhos e eu só consegui rir.
— Ficar com o rosto deformado se iguala a morrer, não? — brinquei.
— Depois eu te pago uma cirurgia plástica. — ela brincou também.
— E é para isso que os amigos servem. — nós duas começamos a rir.
— Parem de brincar com isso! — Christopher berrou, irritado e nós duas ficamos quietas. — Você poderia mesmo ter morrido! E se ele tivesse conseguido te estuprar?
— Mas ele não me estuprou.
— Isso não significa que você deva tratar esse assunto como uma brincadeira! — ele estava mesmo me dando um sermão?
— Ok... — Maitê começou. — Eu vou pegar a sua comida. — eu a vi quase correr para fora do quarto.
Eu e Christopher ficamos em silêncio. Ele estava claramente irritado e eu não sabia bem o que dizer. Ele não deveria ficar dessa forma, afinal, fui eu quem foi agredida, então eu deveria escolher como me sentir em relação a isso.
— Você ainda precisa conversar com o oficial de justiça e precisa dizer exatamente o que aconteceu. Eles viram as câmeras de segurança onde o Jensen joga o comprimido no seu copo quando você não está olhando, não há nada a favor dele nesse caso. — foi dizendo ainda com o semblante sério.
— Tudo bem.
— Ainda bem que a Maitê me convenceu a ficar com o celular no retiro, só para emergências. — ele suspirou e passou as mãos pelo cabelo, ainda muito incomodado.
— Por que você está tão irritado? — franzi a testa.
— Como "por que"? Você foi agredida! Eu deveria estar normal?
— Não parece irritado apenas com o Jensen, mas com tudo a sua volta.
— Eu deveria estar aqui, deveria ter ficado, mas escolhi me esconder em um retiro espiritual enquanto você estava correndo risco de vida!
— Christopher, isso não foi culpa sua. Não foi culpa de ninguém além do Jensen. Ok, eu não deveria ter dado as costas para o meu copo, mas... — me interrompeu.
— Não diga isso. Você não fez nada de errado! Você estava se divertindo com os seus amigos e o fato de você não estar grudada no seu copo não dá o direito de ninguém ir lá e te drogar. — eu assenti, concordando com ele.
— Obrigada por ter vindo aqui por mim. — sorri de leve.
— Eu iria até o fim do mundo por você. — fiquei estática ao ouvir isso e ele desviou o olhar, como se não tivesse acreditado que falou mesmo aquilo.
— Isso foi muito fofo. — abri um sorriso um pouco maior.
— É a verdade. — seu rosto ficou corado. — Anahi esqueceu de avisar, mas a coordenação da temporada de desfiles já soube do ocorrido e te dispensou para voltar para casa assim que se recuperar.
— Isso é legal, mas e o meu cachê? — me preocupei, o que o fez rir um pouco.
— Tudo pago conforme o combinado.
— Menos m*l. — suspirei aliviada. — Christopher, talvez eu faça uma piada ou outra sobre a minha cara toda deformada e as minhas dores, mas isso é uma forma de amenizar o pânico e o trauma que eu estou sentindo. Eu sei o quanto isso é sério, não fique bravo comigo, por favor.
Ele relaxou, se aproximou mais de mim e tocou o meu rosto, olhando-me com empatia.
— Me desculpe se pareci bravo com você, eu só estava muito preocupado.
— Eu entendo. — aconcheguei meu rosto em sua mão, sentindo o seu cheiro. — Quando você vai voltar para o retiro?
— Não vou voltar.
— Não?
— Vou ficar aqui até você ter alta e depois vou pegar um vôo de volta para casa com você.
— Nossa... — arqueei as sobrancelhas. — Isso significa que você tomou uma decisão?
— Não, ainda não. Eu vou deixar essa questão pra depois e vou priorizar você. Sei o quanto está assustada e como é difícil passar por algo assim e manter uma vida normal depois. Vou te ajudar com isso, como sempre te ajudei em tudo o que posso.
— Obrigada. — saber que ele estaria comigo me aliviava muito.
— Não precisa agradecer. Faço isso porque eu... — pausou por alguns instantes, me olhando com intensidade. — ...me importo com você. — completou.
Christopher ficou ali comigo o tempo todo, segurando a minha mão e conversando sobre assuntos que ele sabia que me deixariam tranquila e com a mente ocupada demais para pensar nas terríveis lembranças de uma noite que me marcaria para sempre.