Dulce
O primeiro dia da temporada foi típico. As modelos entraram com os trajes dos estilistas e eu, junto a outros fotógrafos, me concentrei em tirar as melhores fotos. Anahi ia me auxiliando como podia, me trazendo água, comida e até enxugando as gotas de suor em minha testa. Ela estava sendo uma verdadeira mãezona.
Christian ficou sentado com os convidados, enchendo o seu i********: de stories que renderiam muito entretenimento aos seus seguidores.
E antes que eu me esqueça, Maitê nos impressionou muito, mantendo uma pose de vencedora ao desfilar num dos modelitos mais caros da noite. Ela manteve um semblante sério e não errou nenhum passo de seu caminhar. Nem parecia a Maitê escandalosa que fazia meus tímpanos doerem toda vez que ficava minimamente feliz com algo.
Respirei de maneira mais calma quando o intervalo começou. A primeira coisa que fiz foi ir direto para os bastidores, parabenizar Maitê pela excelente performance na passarela. Eu sabia o quanto isso era importante para ela e queria que ela se sentisse bem.
Quando caminhava pelos corredores dos fundos, senti uma mão me puxar para dentro de um dos camarins. Eu ia gritar, mas minha boca foi coberta. Só parei de espernear quando vi quem era a pessoa a me dar esse grande susto. Mas ao invés de alívio, eu travei e quase esqueci como se respirava.
— Christopher? — eu o olhei de cima a baixo. Ele usava um terno preto com uma camisa social branca, sem nenhum colarinho clerical ou gravata. — O que... mas...
— Eu estou fazendo um retiro espiritual num recanto tropical próximo daqui. Dei uma pausa nas minhas atividades para ver a minha irmã desfilar.
— Ela entrou em contato com você? — não me surpreendia que Maitê não se preocuparia em me manter informada sobre Christopher.
— Ela me contou do desfile antes de eu viajar para o retiro. Estou fazendo uma surpresa, ela não sabe que eu vim.
— Ah! — afastei meus maus julgamentos sobre a May. — Mas então... — desviei o olhar começando a ficar tímida. — Como está sendo?
— Tudo bem, o retiro está sendo libertador. — falou com sinceridade. — Me fez pensar em muitas coisas.
— Que coisas? — fiquei curiosa.
— Coisas sobre o meu destino. — foi bem curto, mostrando que não iria falar disso comigo.
— Ótimo! Aproveite o desfile. — eu dei as costas pronta para ir embora, mas ele segurou o meu braço.
— Preciso te dizer uma coisa. — eu virei de frente para ele e o encarei. — Eu não ia te dizer nada, mas não é do meu feitio ver uma coisa errada acontecendo e deixar por isso mesmo. E eu também... er... eu... — ele olhava para os lados como se estivesse nervoso. — Eu me importo com você. Muito. — voltou a olhar diretamente para mim e a junção do que ele disse com a forma como me olhava fez o meu corpo estremecer.
— Qual o problema? — perguntei depois de ficarmos tempo demais em silêncio.
— O Alex está te manipulando. Ele não ficou assustado em ser pai e sabe exatamente o que fazer em relação a isso. Ele fingiu que estava apavorado pra gerar uma espécie de empatia em você, como se você pudesse voltar a se apaixonar por ele caso ele fosse mais sensível.
— Espera, o que? — franzi a testa. — E por que você não ia me dizer?
— Porque ele viu a gente se beijando e me ameaçou. Ele disse que faria uma denúncia formal ao bispo da paróquia. Mas enfim, a melhor decisão é te contar, eu vi que não importa o que vai acontecer comigo, eu não posso me colocar acima de qualquer coisa, tenho que fazer o que é certo. E bem... eu não quero que você fique com ele. — mirou o chão.
— Por que não? — dei um passo a frente.
— Porque... — ele ergueu a cabeça e prendeu sua atenção nos meus lábios por alguns segundos. — Ele não é uma boa pessoa e você é.
— Só por isso?
— Sim, Dulce. Apenas por isso. — deu um passo para trás.
— Tá. — confesso que eu esperei que ele dissesse outra coisa, mas claro que eu estava sonhando alto demais. — Não se preocupe, eu não vou deixar o Alex me iludir, nada do que ele possa fazer me atrai. — dei de ombros. — E eu não vou confronta-lo sobre essa mentira, eu não quero que você se prejudique, sei o quanto sua missão é importante.
— Obrigado. — sorriu de leve. Eu olhei em volta para o camarim vazio onde estávamos.
— Olha, você não precisava me arrastar para cá como um psicopata, nós podíamos conversar como duas pessoas normais. — falei em tom de graça e nós dois rimos.
— Achei que seria divertido te dar um susto.
— Ah, é? Pois isso vai ter volta, padrezinho! — dei um tapinha em seu ombro e nós continuamos a rir.
As risadas foram se silenciando até estarmos calados, apenas segurando um sorriso enquanto olhávamos um para o outro. E aquele magnetismo que eu sentia por ele retornou com tudo, me fazendo ter vontade de esquecer todas as questões problemáticas e simplesmente deixar que minha boca passeasse pela dele. Mas em vez de deixar a minha dose de loucura me guiar, eu acenei positivamente para ele uma única vez e saí do camarim.
Ele saiu logo depois e começou a caminhar atrás de mim, mantendo uma distância considerável. E mesmo que eu não pudesse ver, podia sentir os olhos dele pesando sobre mim, observando-me com muita cautela sem desviar em nenhum momento. Meu rosto começou a esquentar e eu agradeci aos céus por termos chegado até o camarim de Maitê.
Bati na porta duas vezes e então, ela abriu, vestindo um roupão que cobria a última roupa que havia usado na passarela. Maitê estava deslumbrante e com um brilho que ia além de sua maquiagem extravagante, era um brilho emanado de dentro dela.
— Christopher? — ela sorriu desacreditada.
— Surpresa! — ele cantarolou.
— Não acredito! — ela pulou nos braços dele, o abraçando. — Você não estava em um retiro?
— O retiro é aqui perto, eu queria te ver desfilar. Você estava maravilhosa! — ele disse com sinceridade.
— Claro, sou a mais bonita aqui. — jogou os cabelos para trás. — Obrigada por ter vindo! Dulce! — ela segurou minha mão. — Espero que eu tenha saído perfeita nas suas fotos.
— E tem como uma foto ser r**m com você estando nela? — bajulei.
— Ui, é esse tipo de coisa que meus ouvidos precisam ouvir! — sorriu se achando.
— Eu só vim te dar um "oi" e te parabenizar, você estava incrível! Agora tenho que voltar correndo para o meu posto. — apontei para a câmera pendurada em meu pescoço.
— Obrigada, Dulce! Nos vemos amanhã em Malibu? — ela perguntou.
— Se eu não estiver muito cansada, sim.
— Ótimo, eu te ligo! — nos despedimos com um beijo no rosto.
— Hum... — olhei para Christopher. — Até mais. — falei sutilmente.
— Até. — respondeu no mesmo tom.
Apressei meu passo para longe dali e retornei para a minha posição em frente à passarela. O resto do desfile se seguiu normalmente e eu não vi nem sinal de Christopher pelo resto da noite, nem mesmo durante a recepção feita pela agência responsável pelo evento. Pois é, eu estava procurando ele, não para ficar perto ou falar, mas só para olhá-lo.
Já no hotel, Christian e Anahi resolveram dormir no meu quarto, já que deduziram que eu estava um pouco pra baixo. Não que eu estivesse, eu só não conseguia prestar atenção nas coisas.
— Sabe o que eu acho? — Christian começou enquanto nós tomávamos vinho na varanda. — Você está gostando de alguém.
— Que? — arqueei a sobrancelha.
— Você fica meio desligada e desanimada quando está pensando em alguém. — continuou.
— É, isso é verdade! — Annie soou como se aquilo fosse uma grande descoberta. — Isso acontece quando você não é correspondida.
— Vocês são loucos. — revirei os olhos.
— Somos seus amigos e te conhecemos. — Christian disse. — Não vai nos contar? — eu fiquei em silêncio e dei um bom gole no meu vinho.
— Espera... — Anahi me olhou como se estivesse juntando as peças de um quebra-cabeças. — Não, não pode ser... bem...
— Desembucha, mulher! — Christian berrou.
— Eu sei que o cara não é o Alex, porque se você mandasse ele ficar de joelhos, ele ficava. Porém, tem uma pessoa da qual a senhorita estava sentindo atrações indevidas. — eu mantive uma expressão neutra enquanto prestava atenção nela. — O padre?
— Como é? — Christian riu. — Mas o lance com o Christopher não era só porque ele tem o mesmo rosto que o Alex?
— Mas a Dulce não gosta mais do Alex e não está tendo contato com nenhum outro homem.
— Isso seria tão errado! Mas sim, explicaria o porquê de ela andar tão distante.
— Parem de falar como se eu não estivesse aqui! — reclamei.
— É o padre? — Annie insistiu. Eu procurei as palavras, mas em vez de falar, fiquei desconfortável e cocei minha nuca. — Ai. Meu. Deus.
— Sua depravada! — Christian ficou boquiaberto. — Caramba, você vai mesmo para o inferno!
— Ah, tá! — bufei. — Isso não é nada demais, ele só é muito bonito. — fiquei em silêncio por alguns segundos. — E fala muito bem, me conforta, me protege e tem um cheiro incrível! — enumerei como se meus amigos nem estivessem olhando para mim.
— Sua safada! — Anahi gargalhou. — Imagina a cara do coitado se ele soubesse de uma coisa dessas. — eu engasguei com o vinho e tossi algumas vezes.
— Espera, ele sabe? — Christian se espantou. — Tá maluca? Por que foi contar?
— Eu não contei! Bem, não diretamente. — dei de ombros. — Ele me beijou.
— O PADRE TE BEIJOU!?? — gritaram juntos.
— Gritem mais alto, acho que o pessoal do outro prédio não ouviu. — ironizei.
— Por que não nos contou? — Annie perguntou.
— Porque isso é muito embaraçoso. Ele é padre da igreja que eu comecei a frequentar e olha só a minha primeira ação como uma nova cristã? Pois é, Deus com certeza se orgulha de mim. — ri de leve.
— Ele vai deixar de ser padre? — Christian perguntou.
— Por causa de mim? Claro que não! — resmunguei. — Isso me deixa tão chateada, mesmo eu sabendo que ele está nessa missão a anos e eu sou só uma mulher que ele acabou de conhecer. — corri meu dedo indicador pela borda da taça, mirando o líquido lá dentro.
— Querida, você é extremamente gostosa, tem muitos homens por aí que matariam pelo seu número de celular. Não se apega em um padre, pelo seu bem. — Annie colocou a mão em meu ombro.
— E você acha que eu quero que isso aconteça? Eu faria qualquer coisa pra conhecer um cara que quisesse e pudesse estar comigo.
— E por que não conhece? — Christian sugeriu. — Estamos em Los Angeles, tem muita gente interessante nessa cidade e muitas boates bem frequentas. A gente pode sair amanhã à noite.
— Ok. — respondi. — Vamos caçar. — sorri e ergui minha taça para fazermos um brinde.
— Aos amores quentes que ainda não conhecemos! — Anahi declarou quando nossas taças tilintaram.
{...}
O sol batia em meus óculos escuros enquanto a brisa do mar jogava grãos de areia em minha pele. Fazia séculos que eu não pisava em uma praia e só de ouvir o barulho das ondas eu já me senti muito bem. Marcamos de encontrar Maitê em um quiosque e assim que chegamos em Malibu, começamos a ir até o local marcado.
— Por que ela tem que passar esse tempo com a gente? — Christian resmungou descontente. — Já foi suficiente ela ter passado o vôo inteiro ao meu lado listando todos os tipos de bolsas que ela tinha.
— Christian, eu acho a Maitê um pouco crítica e inconveniente, mas ela não é um monstro, é até divertido brincar com o fato de ela ser tão mimada. — Anahi disse.
— É, por que você detesta tanto ela? — perguntei.
— Eu não sei, é algo natural. Ela me irrita pra c*****o!
Nós fomos rindo até chegarmos ao quiosque e assim que eu olhei para a frente, avistei Maitê, que não estava sozinha. Seu irmão estava ao seu lado, usando uma bermuda de praia preta, chinelos da mesma cor e uma regata preta que deixou tudo o que seus braços tinham de melhor à mostra.
Soltei um suspiro involuntário enquanto corria meu olhar por aqueles músculos e reprimi meus pensamentos indevidos quando eles se fizeram presente.
— Amigos! — Maitê veio até nós e abraçou cada um.
— Eu não sabia que o Christopher estava na cidade. — Anahi me cutucou e eu a olhei de canto.
— Eu ia embora hoje, mas a Maitê insistiu que eu deveria passar um tempo com ela e aproveitar Malibu. — ele disse com aquele maldito sorriso perfeito.
— A May não é um doce? — Christian forçou um sorriso.
— Awn, vem cá, Christian, vou te pagar um coquetel. — Maitê pegou na mão dele e os dois saíram andando.
— Eu que não vou perder a chance de ser bancada pela riquinha. — Anahi declarou indo atrás dos dois.
E cá estava eu, sozinha com a última pessoa que eu queria ter que encarar agora. De longe, eu vi Anahi e Christian me olharem como crianças pedindo desculpas depois de notarem ter feito uma bobagem.
— Nós podemos conversar? — Christopher perguntou.
— Não quer se juntar a eles? — estranhei.
— Ainda tem algo que eu quero lhe dizer.
Ele passou por mim e segurou minha mão, andando comigo para longe dali. Confesso que eu fiquei nervosa com aquele toque repentino e com a possibilidade do que aquela conversa nos traria.