Dulce
Minha conversa com Christopher não foi nada pacífica e de longe dava para perceber que não estávamos preparados para resolver esse pequeno conflito. Uma coisa era certa, ele jamais abandonaria a sua missão por mim e por mais que eu odiasse ter que admitir, saber disso doía. O melhor era colocar a minha cabeça no lugar e me preparar psicologicamente para ser apenas a boa e adorável amiga de um padre que fazia o meu coração bater mais rápido sempre que olhava para mim.
E antes que a minha mente se consumisse na loucura da minha tristeza amorosa, eu precisava me dedicar aos amigos com quem eu estava bem. Ajudar Alex estava livrando a minha mente do peso de aceitar que eu jamais teria Christopher como eu realmente desejava.
— Eu quero que você a conheça. — Alex disse, me despertando dos meus pensamentos. Nós estávamos num restaurante, almoçando juntos.
— Tecnicamente, eu já a conheço. — ri de leve. — Mas vou adorar tornar isso oficial. Ela parece ser uma menina adorável.
— E ela é! Eu quero mesmo fazer isso, sabe? Sei que foi meio que uma surpresa para mim, não estava nos meus planos, mas eu quero ser pai.
— É muito bom te ouvir dizer isso! — sorri.
— Tem algo de errado com você? Seus olhos estão um pouco cansados, não dormiu bem ontem?
— Na verdade, não. — suspirei.
— Quer conversar?
— Ainda é sobre aquele problema do qual eu prefiro que você não saiba muito. — falei sem jeito. — É melhor assim.
— Como quiser.
Terminamos o almoço e eu notava que ele estava mais emotivo do que de costume. Não parou de falar em sua animação em ser pai e nas coisas que planejava fazer com a Lorena. Eu gostava de vê-lo assim e me orgulhava de sua mudança, mas para ser totalmente sincera, eu m*l prestei atenção na maioria das frases que ele proferiu. Minha cabeça só sabia repetir a minha última conversa com Christopher, como um disco arranhado extremamente irritante.
Foquei no meu trabalho pelo resto da tarde e agradeci aos céus após receber um e-mail da agência de modelos da qual eu era parceira avisando que a temporada de desfiles se iniciaria na Califórnia. Seriam duas semanas de trabalho e uma mente muito bem ocupada. Eles também confirmaram que Maitê havia passado em seus testes e também iria para a temporada.
— v***a de sorte. — resmunguei sorrindo para a tela do computador da recepção.
— Às vezes eu acho que você quer roubar o meu emprego. Fica mais na recepção do que no seu escritório! — Anahi disse, me empurrando com o ombro para dar espaço à ela.
— Não gosto de ficar sozinha.
— Eu sei que me ama, querida. — beijou minha bochecha. — O que é isso aí? — ela começou a ler o e-mail. — Demais, Los Angeles! Estou mesmo precisando de uma praia. Vamos até Malibu, não vamos?
— Se não estivermos muito ocupadas com a temporada. — dei de ombros.
— Ótimo! — continuou a ler. — Espera, eles realmente aceitaram a Maitê? Eu aposto que ela fez uma doação generosa com o dinheiro do senhor Uckermann. — riu.
— Imagina, a Maitê é linda!
— Dulce, deixa de ser sonsa, você sabe como demora pra que aceitem uma modelo nova, por mais linda que ela seja.
— Tá, isso é verdade. — eu ri.
— Preciso avisar ao Christian e espero que ele não ouse se negar de ir. Seremos como os três mosqueteiros! — comemorou.
— Na verdade, eram quatro.
— Mas você tá chata, hein? Vou te preparar um chá de camomila enquanto falo com o Chris. — ela deu as costas e foi até os fundos.
Duas semanas longe da cidade. Eu deveria me resolver com Christopher antes de cogitar ficar tanto tempo fora. Peguei meu celular e olhei para o contato dele por longos segundos até finalmente criar coragem e ligar.
— Oi, aqui é o Christopher. Se você está ouvindo essa mensagem, provavelmente devo estar ocupado. Ligo assim que puder.
Bufei e ao invés de uma ligação, achei que deveria enviar uma mensagem. Só esperava que ele estivesse mesmo ocupado e não me evitando.
"Olá, eu só queria conversar com você. Podemos jantar hoje à noite? Sei que dissemos que iríamos tirar um tempo para pensar, mas não terei muito tempo. Estarei em Los Angeles a trabalho por duas semanas e não quero passar todos esses dias com um peso na consciência. Me responde ou me liga... sei lá."
Enviei a mensagem e durante o resto do dia, eu olhei meu celular a cada cinco minutos esperando uma resposta. Será que ele estava mesmo me ignorando?
À noite, em meu apartamento, eu tentei me distrair assistindo uma série, lendo um livro e ouvindo algumas músicas, mas nada adiantava. Ficar sem notícias de Christopher me frustrava e se eu não o encontrasse logo, iria enlouquecer.
Pensei em ir até o seu apartamento, mas isso seria inconveniente demais, então achei que deveria ligar para o Alex, mas isso o envolveria no meu problema, o que eu não queria que acontecesse. A única pessoa que daria zero importância e que talvez pudesse ter respostas era a Maitê. Liguei para ela imediatamente.
— Dulceeee!! — ela gritou alegremente e eu afastei o celular um pouco da minha orelha.
— Oi, May! — ri pelo nariz. — Parabéns pelo desfile!
— Eu estou tão feliz! E que bom que você também vai para a temporada, assim não vou ficar rodeada de gente estranha.
— Sim, vai ser divertido, mas não foi por isso que eu liguei.
— O que houve?
— Sabe se o Christopher está bem? Eu liguei para ele, mandei mensagens, mas ele não me atende e nem me responde.
— Ué, ele não contou?
— Contar o que? — franzi a testa, sentindo um aperto em meu peito.
— Ele viajou numa espécie de retiro espiritual, algo assim. Disse que precisava se purificar e que ficaria uns dias longe da sociedade e da tecnologia.
— Ah... — suspirei. — Isso é bom. — pelo menos eu esperava que fosse. — Sabe quanto tempo ele ficará fora?
— Não, desculpe. — soltei um longo suspiro. — Está tudo bem com vocês? Estão tão próximos, é estranho ele não te contar.
— Eu andei tão atônita esses dias que ele deve ter me contado e eu não prestei atenção. — menti. — Obrigada pela informação, May. Te vejo em Los Angeles.
— Malibu que nos aguarde! — cantarolou.
Eu sabia qual era o motivo do retiro de Christopher e isso me deixava com um sentimento r**m, quase como se ele estivesse me ofendendo. Ok, ele era um padre e era horrível que tivesse beijado alguém, mas caramba, um retiro para se purificar de mim? Isso era extremamente ofensivo! E mesmo sabendo que eu não deveria me sentir culpada, eu me sentia.
Ora essa, resisti aos meus desejos durante todo o tempo e nunca avancei. Se o Christopher se sentia sujo, era tudo culpa dele! Foi ele quem me beijou. Por que eu não conseguia enfiar isso em minha cabeça?
{...}
Um dia antes da minha viagem, eu saí com Alex e sua filha. Nós fomos até uma sorveteria e depois de passarmos horas numa divertida conversa, decidimos dar uma volta no parque. Lorena era mesmo um amor e Alex estava sendo um paizão protetor o que fez o meu coração amolecer.
— Papai, eu posso alimentar os patos? — Lorena perguntou quando passamos pelo lago.
— Claro! Tá aqui. — ele tirou uma nota de dez do bolso. — Compra os petiscos e não chega muito perto da água, vou estar daqui te observando.
— Ok! — ela deu um beijo na bochecha dele e correu até a barraca de petiscos.
— Ela não é a garota mais linda desse mundo? — ele disse com os olhos brilhando.
— Sim, ela é. — eu sorri, mas estava olhando para ele. — Adoro o jeito como você parece feliz. Antes você não tinha esse brilho.
— Você acha? — arqueou a sobrancelha.
— Sim, eu acho. Lorena está te fazendo muito bem.
— E você também, Dulce. — franzi a testa, não entendo muito bem aquela frase. — Eu sempre te achei muito especial para mim, mas agora isso tem outro significado. Eu estava com muito medo, assustado e pensava que não seria capaz de fazer parte de forma significativa da vida da Lorena. Mas você estava aqui para me mostrar que sim, eu sou capaz disso. Você é o meu farol. — ele ergueu sua mão e tocou minha face. — Você é diferente...
O fato de ele me dizer que eu era "diferente" fez a voz de Christopher ecoar em minha cabeça. Nós estávamos aqui no parque quando ele disse isso para mim pela primeira vez. No momento, eu não entendi a sua fala e apenas deduzi que ele gostava da minha companhia como uma amiga ou até uma irmã, mas na verdade não era nada disso, agora eu sabia. Christopher gostava de mim e aquele foi o momento em que se deu conta disso.
Tomada por essa lembrança recente e olhando para o rosto atrativo em minha frente, meu subconsciente me levou a acreditar que aquele era o rosto de Christopher, o que me fez naturalmente me aproximar e deixar que meus lábios tocassem os seus. Meu beijo foi correspondido no mesmo ritmo, tão suave e doce quanto eu queria que fosse.
Mas quando a boca que eu beijava se tensionou, aprofundando aquele beijo, eu pude notar a diferença. Eu não estava beijando o Christopher e me dar conta disso fez com que eu me afastasse subitamente e uma pontada de arrependimento me inundou. Eu olhei para Alex e ele estava sorrindo de maneira serena.
— Eu sinto muito. — foi a primeira coisa que eu disse, mantendo meu rosto sério.
— Pelo que? — ele pareceu confuso, apesar de ainda segurar o seu sorriso.
— Eu não deveria ter te beijado. — dei dois passos para trás. — Preciso ir.
— Ei! — segurou meu braço antes que eu me afastasse. — Do que está falando? Você não queria me beijar?
— Eu não quero te dar nenhuma esperança, Alex. Eu sei que está se tornando um cara legal e admiro isso, mas você me traiu. Não dá pra voltar.
— Mudar não é o suficiente? — respirou fundo.
— Não quando essa mudança não tem nenhum efeito sobre mim. Eu não estou mais apaixonada por você e não pretendo voltar a estar, eu sinto muito. — ele mirou o chão e eu tive vontade de abraçá-lo, mas me mantive em meu lugar. — Não posso recomeçar com alguém que me traiu, espero que entenda. — ele me encarou sem dizer nada.
Eu me afastei devagar, dei as costas e comecei a caminhar para longe. Antes de sair completamente do parque, eu acenei e sorri na direção de Lorena, que parecia se divertir com os patos. Ela acenou de volta alegremente.
Assim que cheguei em casa, eu fui para debaixo do chuveiro e tomei um banho gelado. Parecia que quanto mais tempo eu passava longe de Christopher, mais eu o queria. Não existia nada nesse mundo que parecesse capaz de arrancar esse homem da minha cabeça e por mais que meus pensamentos parecessem errados, à essa altura, eu já estava pouco me fodendo.
Fechei meus olhos e comecei a lembrar da voz dele, cada palavra que me fazia estremecer, a forma como seus lábios se moviam quando ele sorria para mim, seus olhos cor de uísque nos quais eu fazia questão de me afogar e aquele cheiro de um perfume amadeirado que despertava os meus mais profundos desejos sexuais. É, estar no banho pensando em Christopher pareceu ser uma ótima combinação.
Comecei a passar minhas mãos por meu corpo até, involuntariamente, parar meus dedos na minha região mais íntima. E ali, com a imagem do meu pequeno pecado cravado na memória, eu me deliciei imaginando as diversas coisas que eu gostaria que ele fizesse comigo. Encostei-me na parede do banheiro, continuando com aquilo até finalmente chegar onde eu queria. Deslizei pela parede até sentar no chão.
— Deus, eu estou ficando louca! — coloquei as mãos na cabeça. — Eu vou para o inferno, com certeza. — eu ri de mim mesma e aquele riso se desfez em um soluço que se transformou em choro.
Chorei por frustração, por raiva... na verdade, o motivo não importava, contanto que aquele choro me trouxesse alívio. E depois de ver minhas lágrimas misturando-se à água do chuveiro, eu terminei o meu banho, vesti um pijama confortável e fiquei largada na cama até a hora em que eu precisava dormir.
No dia seguinte, eu, Anahi e Christian saímos de casa por volta das seis da manhã, pelo menos uma hora antes do nosso vôo partir. Queríamos ter certeza que não nos atrasaríamos. Já no salão de embarque, meus dois amigos conversavam animados sobre seus planos em Los Angeles enquanto eu apenas concordava com a cabeça.
— Tem alguma coisa errada com você, o que não está nos dizendo? — Christian me perguntou.
— Eu estou bem. — eu disse.
— Dul, conhecemos você e não está nada bem. — Annie disse. — Você sempre conta tudo, por que não quer dizer agora?
— Ok... — soltei o ar. — Eu estou com um conflito interno, mas não me sinto pronta para contar. Podem entender?
— Claro, estaremos aqui para o que precisar. — Christian apoiou a mão em meu ombro. — Nós te amamos.
— Também amo vocês! — nós três nos abraçamos ao mesmo tempo.
— Opa! Amo um abraço em grupo! — a voz inconfundível de Maitê se fez presente e antes que pudéssemos lamentar, ela já estava nos apertando.
— Como vai a modelo mais linda que Los Angeles vai ver? — Anahi disse, com um sarcasmo claro em sua voz.
— Pronta para arrasar! — Maitê disse com confiança. — Estou no assento L-34 e vocês?
— L-30! — declarei em alívio.
— L-31, vou sentar com a Dulce! — Anahi também pareceu aliviada.
— p**a merda, L-35. — Christian disse com sua melhor expressão de falsa felicidade.
— Vamos ser colegas de vôo! — May berrou em animação.
— A agência precisava mesmo ter nos dado primeira classe? Sério, eu fico satisfeito na segunda. — eu e Annie rimos da declaração do Christian.
— Que bobinho! Vai ser muito divertido, você vai ver. — ela passou seu braço em volta do de Christian e enquanto ele nos olhava como quem pedia socorro, ela ia o arrastando para longe.
— Pronta? — Annie me ofereceu sua mão.
— Totalmente. — segurei a mão dela com firmeza e começamos a caminhar juntas até o nosso próximo destino.