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2297 Words
Christopher Levei Dulce para a mesma cafeteria para a qual fomos quando conversamos seriamente pela primeira vez. Nós não trocamos nenhuma palavra desde que sugeri que fôssemos para lá até estarmos devidamente sentados numa mesa ao lado da vidraça, por onde eu observei os carros e pedestres passando pela rua em mais um dia comum de suas vidas. Como eu os invejava! Meu dia não estava nada comum até o momento.  Eu respirava fundo a cada segundo, sem conseguir olhar diretamente para ela, que eu podia perceber, por minha visão periférica, que estava roçando seus dedos uns nos outros, uma estranha mania que ela tinha quando ficava nervosa. E como eu havia notado isso tão rápido? É, eu estava prestando mais atenção nela do que o que era considerado aceitável.  — O que vai pedir? — ela perguntou com seus olhos fixos no cardápio.  — Um café forte sem açúcar. — fui direto. Ela assentiu, acenou para a garçonete e pediu dois cafés.  Depois que a garçonete anotou o pedido e se retirou, o silêncio entre nós voltou a pesar. Eu não fazia a mínima ideia do que dizer e pelo que parecia, ela também não. Não achei que precisaria falar com ela tão cedo, eu queria mesmo ter me preparado para essa conversa.  — Então... — ela começou. — Você está bem? — a pergunta me causou estranheza, se com bem ela queria dizer completamente aterrorizado, então sim, eu estava bem.  — Sim, eu acho. E você?  — Um pouco confusa. O que aconteceu ontem... — a interrompi.  — O que aconteceu ontem foi um erro que não deve se repetir e deve ser esquecido. — eu vi ela arquear as sobrancelhas e abaixar os ombros, como se eu tivesse a pegado de surpresa. — Fiz as minhas orações, estou lidando com isso da maneira correta.  — Tratando como se não tivesse significado nada? — soou um tanto quanto brava. Eu a analisei por alguns instantes, tentando entender o que ela queria de mim. — Dulce, eu sou um padre, tenho uma missão a seguir e não vai ser um simples desejo mundano que me fará desviar do meu destino. Eu amo a igreja mais do que qualquer coisa.  — Talvez eu ainda não tenha passado tanto tempo dentro da igreja para entendê-lo. — ela estava claramente frustrada. — Por que você tem que se prender dessa forma?  — Não estou me prendendo, estou no caminho que me faz bem. — Eu te faço bem, você me quer! — ela tentou segurar a minha mão, mas eu a afastei.  — Dulce, por favor... — fechei meus olhos e respirei fundo. — Eu não quero ter que me afastar você.  — Eu... — Dulce tremeu seu lábio inferior e eu não tinha certeza se ela queria chorar ou gritar comigo. — Tudo bem. — suspirou e encostou-se contra sua cadeira. — Eu respeito você. — ela parecia estar se obrigando a dizer aquilo.  — Eu não sou o Alex e ele nunca será igual a mim, somos pessoas completamente diferentes. Eu não quero que deposite em mim a esperança de ter um Alex "melhorado". — fiz aspas com os dedos.  — É isso o que você acha? — abriu levemente a boca. — Acha que eu finjo que você é um Alex melhor? — arfou em indignação. — Desculpa, mas eu estou pouco me fodendo pra p***a do seu rosto! — agora sim ela estava mesmo irritada. — Isso não é sobre você ser gêmeo do meu ex namorado, é sobre a forma como me sinto perto de você! — bateu a mão na mesa.  Eu olhei para a sua mão, que agora apertava a toalha de mesa firmemente e depois, baixei meus olhos para o meu colo, tentando procurar as melhores palavras depois desse surto raivoso dela. Não estava nos meus planos irritá-la e era por isso que eu pretendia me preparar antes de ter uma conversa.  — Desculpe. — eu disse apenas. O silêncio retornou e ela continuou me encarando.  — Só isso? — franziu a testa.  — O que quer que eu diga? Eu sinto muito por você ter criado sentimentos por mim, não era para isso acontecer! Eu só queria ser seu amigo!  — Foi você quem me beijou! — falou alto demais, o que me fez olhar em volta, para ter certeza de que ninguém ouviu isso.  — Eu sei! — esfreguei meu rosto com as mãos. — Foi um grande erro! Eu estou tratando de resolver esse conflito interno e não vou deixar que nada assim aconteça de novo.  — Ótimo, parabéns por cuidar de si mesmo, mas e o meu conflito interno?  — Eu... — observei o rosto dela atentamente. — Não sei o que quer que eu fale.  — Uau... — suspirou. — O homem que sempre sabe o que dizer não faz ideia do que me falar agora.  — Eu estou confuso.  — E acha que eu não estou?  — Você tem uma vida amorosa ativa, Dulce, eu não. Está acostumada a lidar com esse tipo de tensão, mas o que eu deveria fazer? — Eu nunca gostei de um padre antes, eu não sei o que fazer! Bem... — desviou o olhar. — Quando gosto de alguém que não me quer, eu costumo ficar longe da pessoa.  — Eu não quero que você fique longe de mim. — fui claro.  — Eu também não quero isso. Mas pensa só o quanto vai ser estranho!  — A gente pode tentar fingir que nada aconteceu.  — Tá brincando comigo? — arqueou a sobrancelha. — Quer saber? A gente precisa de um tempo pra pensar.  — Essa era a minha ideia inicial, mas você foi me procurar e agora eu estou aqui confuso e você irritada.  — Não vamos falar do que aconteceu. — eu assenti. — Ok... mudando de assunto... o seu irmão quer falar com você.  — Por que?  — Ele tem uma filha.  — Que? — pisquei. — Pra ser totalmente franco, não me surpreende ele ter feito um filho por aí.  — A menina tem onze anos, Alex engravidou a namorada do ensino médio e ela só o procurou agora.  — Isso sim é uma surpresa. E como ele está?  — Apavorado. Seria bom que você colocasse a sua cabeça no lugar e dissesse as coisas certas.  — Eu posso fazer isso. — assenti. — Diga para ele me ligar quando tiver um tempo.  Os cafés chegaram e a partir dali, o único assunto da mesa era a filha do Alex. Dulce me contou tudo o que sabia sobre ela e a mãe. Descreveu também o quanto Alex ficou em pânico, tendo que dormir no sofá da casa dela depois de chorar. Era difícil imaginar Alex chorando.  Depois da conversa, nos despedimos na porta da cafeteria de forma formal, apenas com um aceno de cabeças, evitando nos aproximar demais um do outro. Era evidente que mesmo querendo não mudar as coisas, elas eventualmente mudariam. Eu sei que Dulce estava magoada por gostar de mim e eu não podia fazer nada para ajudá-la.  No final da tarde, Alex me ligou e nós marcamos de nos encontrar em seu apartamento. Cheguei lá no horário marcado e depois que o porteiro liberou a minha entrada, eu peguei o elevador direto para o seu andar. Toquei a campainha e quando ele abriu, senti o cheiro de macarronada cozinhando.  — Não sei se já jantou, mas eu estou preparando algo. — ele disse depois que eu entrei.  — Não tinha um espelho ali? — apontei para o lugar na sala onde Alex esbanjava um enorme espelho.  — A Dulce quebrou quando nós terminamos. — riu. — Ela jogou uma das minhas bolas de metal em mim, mas eu abaixei.  — É, eu imagino que ela seja um pouco temperamental. — sorri de lado lembrando da face dela quando estava brava. Suas bochechas ficavam rosadas e ela movia o queixo como se estivesse rangendo os dentes. Era incrivelmente fofo.  — Christopher?  — Sim? — voltei minha atenção para ele.  — Tudo bem? Pareceu meio aéreo. — franziu a testa.  — Estou bem. Mas e você? Como foi com a Lorena? — nos sentamos no sofá, um de frente para o outro.  — A minha filha é incrível! Eu estava um pouco nervoso com a possibilidade de ela me odiar por eu não ter estado perto durante toda a vida dela, mas até que ela me recebeu muito bem. Eu e Belinda explicamos o que estava acontecendo e a Lô ficou muito feliz em ter um pai. — sorriu.  — Lô? — sorri também. — Nunca achei que você se animaria com a ideia de ter um filho.  — Ela já tem onze anos, já recebeu as instruções mais importantes para ser uma pessoa boa, eu não tenho que me preocupar tanto em moldar a formação de caráter de alguém. Além do mais, ela mora com a mãe, não tenho que me preocupar em adaptar a minha casa para que uma criança more aqui, a não ser quando ela vier dormir. Tudo o que eu preciso fazer é ajudar financeiramente, comprar presentes, levá-la para sair e me divertir com a minha filha. — ele parecia confiante demais.  — Constatou tudo isso depois de conhecê-la hoje? — perguntei como estranheza.  — Não. Eu já tinha tudo isso em mente. — sorriu de canto e eu vi perversidade em seu olhar.  — Então, por que a Dulce me disse que você estava apavorado?  — Porque eu queria que ela pensasse isso. — ele disse tranquilamente.  — Espera, você tá manipulando a Dulce? — arqueei as sobrancelhas.  — Manipulação é uma palavra muito forte, irmãozinho. Eu apenas estou mostrando para a Dulce o homem sensível que eu sou. Não era isso que ela queria?  — Ela queria que você fosse honesto com ela e você está mentindo de novo! — aumentei o tom de voz. — Dulce confiou em você, achou realmente que você estava mudando e estava feliz em ser sua amiga! Como você tem coragem de fazer isso com alguém que tanto se importa com você? — eu estava furioso. — Ela até veio falar comigo sobre você, mesmo estando brava comigo!  — Ela está brava com você? — ele pareceu gostar dessa informação.  — Isso não vem ao caso! Você está sendo o Alex sem caráter de sempre e eu não vou deixar que magoe a Dulce de novo! — fiquei de pé.  — Você vai deixar sim. — falou calmamente.  — E o que te garante isso?  — Não se perguntou qual o motivo de eu querer falar com você? — ficou de pé também, parando em minha frente. — Eu quero que você se afaste da Dulce.  — O que? — dei risada.  — Ela gosta de você bem mais do que uma fiel deveria gostar de um padre. — respirei fundo.  — E daí? Eu sou um padre, eu não vou corresponder a nada.  — Mentir é pecado, Christopher. Você a correspondeu quando beijou ela na quermesse. — fiquei estático, ainda processando o fato de Alex saber daquela informação. — Acha que eu não vi? Imagine a minha surpresa quando eu fui procurar a Dulce e encontrei o meu irmãozinho, até então sacerdote de Deus, enfiando a língua na garganta da mulher que eu amo. Mas eu te agradeço, porque devido ao seu erro, eu pensei na melhor maneira de ter a Dulce de volta. Ela vai ficar caidinha por mim quando notar o pai incrível e sentimental que eu sou. — riu com deboche.  — Eu ainda posso falar tudo o que me disse para a Dulce. Em quem você acha que ela acreditaria?  — Em você, é claro! E é por isso que você não vai dizer nada. — eu apenas fiquei em silêncio, esperando que ele prosseguisse. — Sei que não vai largar a igreja por ela. Bem, pelo menos, não pensa nisso agora. Mas se você passar mais tempo perto da Dulce, verá que não tem versículo da bíblia que seja mais reconfortante do que qualquer palavra saída da boca daquela mulher. Você vai acabar se apaixonando por ela e isso é uma ameaça para mim.  — Seja mais direto. — falei irritado.  — Se continuar grudado com ela e se disser qualquer coisa sobre essa nossa conversa, eu vou fazer uma denúncia formal ao bispo da sua paróquia, alegando que o respeitoso padre Christopher anda tendo encontros amorosos com uma de suas fiéis. Quer ser expulso da sua missão por causa de um beijo?  — Você é podre! — berrei entredentes.  — Estou apenas fazendo o possível para tê-la de volta. Se você parar para pensar, estou até te fazendo um favor. Dulce é como uma droga e eu estou te libertando do seu vício. — riu e me olhou de cima a baixo. — Nunca pensei que disputaria uma mulher com você.  — Eu não quero a Dulce!  — Isso, quanto mais negar, mais rápido vai acreditar na sua mentira. — eu ia dizer mais alguma coisa, mas o celular dele começou a tocar. — Falando no diabo... — ele sorriu e atendeu. — Oi, Dul... Sim, eu estou melhor. Christopher está aqui e está me ajudando a manter a calma... Se eu quero almoçar com você amanhã? Mas é claro! Estou louco para contar como foi com a Lorena... Obrigado por se preocupar comigo, você é um anjo!... Boa noite. — e desligou.  Naquele momento, eu queria esquecer tudo o que jurei sobre a bíblia e simplesmente socar o rosto irônico do meu irmão agora. Ele sempre fez de tudo para me tirar do sério, desde que éramos crianças, mas essa definitivamente era a pior coisa que ele já havia feito contra mim.
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