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2257 Words
Christopher  A minha mente era um quebra-cabeças de mil peças, impossível de ser organizado e montado em seu devido lugar. O mundo ao meu redor se tornou um borrão enquanto a minha voz interior gritava dentro de mim, dizendo-me o quanto eu era sujo e o quanto eu havia errado.  Continuar naquela quermesse não era uma opção, eu precisava mesmo ficar sozinho em silêncio e rever tudo o que estava acontecendo em minha vida.  Enquanto dirigia em direção ao meu prédio, eu pensava em todas as coisas que Dulce me proporcionou sentir desde que a conheci. Não, não foi um sentimento instantâneo, foi um carinho que cresceu com o tempo, como uma árvore sendo cultivada cuidadosamente. Quanto mais tempo eu passava perto dela, mais queria estar com ela.  Cheguei a me perguntar o porquê de me sentir tão diferente na presença de Dulce e a única resposta que eu aceitava era de que ela era especial e que Deus a havia colocado em minha vida para que eu a ajudasse. Acreditar nisso me ajudava a não me sentir abalado toda vez que ouvia a voz dela. Agora vejo que me enganei totalmente, me deixando levar por sensações mundanas de que abdiquei a muito tempo.  Era fácil falar com ela, fácil passar o tempo ao seu lado e era fácil gostar dela. De fato, Dulce é a pessoa mais interessante que já passou pela minha vida e eu me enganei totalmente em achar que toda essa explosão em meu peito ao ver o seu rosto era só uma pura e grande amizade.  Só o fato de eu me sentir incomodado quando ela falava carinhosamente do meu irmão já era um sinal notável de que eu estava tendo pensamentos errôneos sobre ela. Por que o meu subconsciente me fez ser tão ingênuo?  Assim que passei pela porta do meu apartamento, eu corri até a sala do meu altar, acendi algumas velas, peguei o meu terço preferido e me ajoelhei.  — Senhor, eu sei que deveria estar confessando com um outro padre, mas não aguento esta angústia dentro de mim. Não sei o que está acontecendo, mas sei que não é certo e peço que me ilumine e que se puder, me perdoe! — eu estava ofegante, com um choro preso em minha garganta. — Jurei a mim mesmo seguir a minha missão até o dia de minha morte, sem deixar que nada nem ninguém me atrapalhasse. Tenho sido fiel por todos esses anos e não pretendo parar por um momento de fraqueza. Fui falho e me arrependo disso.  Continuei as minhas orações por horas a fio, como se as palavras que saiam de minha boca fossem uma espécie de feitiço capaz de apagar a última noite. Mas toda vez que eu fechava os olhos, eu só via o rosto de Dulce e tinha a sensação de seus lábios macios sobre os meus, correspondendo-me firmemente.  Oh, céus! Ela me correspondeu! Isso só podia significar que também havia algo de errado na cabeça dela, ou talvez o fato de eu ser igual ao seu último amor a tivesse coagido a me desejar. Tentar ajudar uma mulher a esquecer um amor que tem o mesmo rosto que o meu foi um erro. Como eu pude não imaginar que ela me usaria como uma espécie de espelho do Alex?  O dia estava começando a amanhecer e eu continuava com meus joelhos no chão, mesmo sentindo minhas pernas dormentes. Minhas orações continuavam e eu apertava o terço tão forte em minha mão que com certeza estava criando calos em meus dedos.  O sol iluminou o meu apartamento e com um pouco de dificuldade, eu me pus de pé, olhando para a imagem de Jesus à minha frente. A primeira lágrima do choro que eu estava segurando rolou pelo meu rosto, devagar e silenciosa.  — Irei continuar na minha missão. Prometo me redimir do meu pecado e não ser rude com a Dulce, pois ela não tem culpa de nada. — fiz o sinal da cruz. — Louvado seja o senhor.  Olhei meu relógio de pulso. Já eram cinco da manhã e eu não teria como dormir, já que estaria na igreja para ouvir as confissões em poucas horas. Como eu poderia ouvir as confissões das outras pessoas estando com a minha consciência tão pesada? Sim, eu iria até a igreja, mas para falar com outro padre. Precisava me libertar.  Tomei um banho gelado, me vesti formalmente e depois de comer uma fruta eu saí do meu apartamento. Passei pela frente de uma confeitaria e lembrei que devia algo à Dulce. Talvez essa fosse uma forma de dizer para ela que eu não a odiava nem nada do tipo.  Dulce  — Ele está bem? — Anahi perguntou quando entrei em sua casa pela manhã.  — Dormiu no meu sofá depois de chorar feito um bebê. — falei. — Eu nunca vi o Alex tão assustado. Aliás, eu nunca o vi chorar!  — Mas ele não gostou da ideia? Vai abandonar a Belinda? — Annie franziu a testa.  — Não, isso não. Ele está m*l por ter ficado longe por tanto tempo e não ter cumprido seu papel de pai. O maior medo dele é que a Lorena o odeie.  — Isso é mesmo possível. — deduziu. — Isso precisa ser feito com calma.  — É... — suspirei.  — Tem algum problema com você? Sinto que não é só a preocupação com o Alex que formou essas rugas em seus olhos.  — Está tudo bem. — eu contava tudo para a Annie, mas o fato de eu ter beijado um padre me deixava com muita vergonha.  — Tem certeza? — me olhou com desconfiança.  — Sim. Vou ver se o Alex já acordou e se está com fome. — falei mais para fugir dali. Quando saí do apartamento de Annie, avistei uma caixa em frente à minha porta. Tinha o slogan de uma confeitaria. Franzi a minha testa sem entender do que se tratava, já que eu não havia feito nenhum pedido.  Peguei a caixa e entrei em casa, notando que Alex continuava dormindo sob o cobertor que eu usei para cobri-lo depois que ele dormiu com sua cabeça apoiada em meu colo.  Fui até a cozinha, coloquei a caixa no balcão e abri, observando uma bela torta. Eu dei um breve sorriso e senti o interior da minha boca se encher de saliva. Mas quando vi o bilhete preso à tampa da caixa, eu voltei a ficar confusa.  "Parabéns por ter vencido no tiro ao alvo, você foi excelente!                                          – C."  Minha mente entrou em pausa por alguns segundos e eu paralisei relendo as palavras naquele bilhete. Por que ele estava fazendo isso? Eu sabia que tudo estava desmoronando depois da noite anterior, então por que me deixar tão atônita com um gesto assim?  Deixei o bilhete ao lado, apoiei meus cotovelos no balcão e cobri meu rosto com minhas mãos, fechando os olhos e respirando fundo algumas vezes, como se isso fosse capaz de fazer eu me acalmar.  Ficar consolando Alex foi um meio de me distrair de tudo isso e mesmo me sentindo m*l por usar o problema dele como válvula de escape, estava se tornando uma excelente forma de não me culpar por ter feito algo terrível com Christopher.  — Bom dia! — Alex disse se espreguiçando ao entrar na cozinha. — Opa, torta! — ele abriu o meu armário e pegou um prato, uma faca e um garfo. — Achei que só comesse coisas leves pela manhã. — começou a se servir.  — Eu não comprei, o Christopher que mandou. — expliquei.  — Ah, sim! — assentiu e depois, sentou ao meu lado no balcão, começando a comer o pedaço de torta. — Quero falar com ele sobre a minha filha. Por mais que eu odeie admitir, ele é um ótimo conselheiro, sempre sabe o que dizer.  — Acho que não é uma boa hora para pedir conselhos ao Christopher. — desviei o olhar para o chão.  — Por que? — franziu a testa.  — Sei lá... sinto que não é um bom momento.  — Foi você quem me disse para me aproximar dele. Acho que essa seria uma boa hora.  — Tudo bem. — cocei a nuca. — Mas tenha paciência, tá? Ele não está sempre disposto.  — Qual o problema, Dulce? — me olhou com curiosidade.  — Nenhum.  — Está mentindo. — pendeu a cabeça para o lado. — Você mexe nas suas unhas quando está mentindo. — encarou minhas mãos. — Odeio que me conheça tanto! — bufei. — Tá, tem um problema, mas eu não vou falar sobre isso com você.  — Você está me ajudando, quero poder fazer isso por você também.  — Acredite, isso está muito longe do seu alcance. Além disso, me concentrar em ajudar você está me ajudando.  — Ótimo! Hoje eu vou ver a Lorena pela primeira vez e me sinto um pouco nervoso. O que eu deveria fazer? Levar um presente?  — Isso seria bom, crianças adoram presentes. E só uma dica: ela ama o filme Frozen.  — Ok, vou tentar achar algo no centro, você pode vir comigo?  — Bem... — olhei o relógio em minha parede. — Eu tinha que editar umas fotos hoje. — tornei a olhar para ele, que fez sua melhor expressão de cachorrinho pidão. — Ai, Alex... — revirei os olhos. — Está bem!  — Valeu! — beijou minha bochecha. — Você é um anjo!  — Não se acostuma! — eu ri. Eu e Alex fomos até o centro e depois de olhar em algumas lojas, ele comprou uma boneca da Ana para Lorena e também comprou uma caixa de bombons. Eu podia ver o quanto Alex estava nervoso e cá entre nós, era muito fofo.  — Sempre achei que nunca teria filhos. — ele disse quando caminhávamos pelo shopping.  — Você nunca desejou ter filhos? — perguntei.  — Não. Pelo menos não agora. Eu gosto de sair, me divertir e ter o meu dinheiro só para mim, sabe? Crianças mudam completamente a vida de alguém.  — Isso é verdade, mas eu sempre quis ser mãe. Já estou chegando aos trinta e a ideia de não conseguir me casar antes dos quarenta é meio assustadora. — ri de leve. — Eu não posso esperar a vida toda para ser mãe, o meu útero tem uma data de validade.  — Hum... — me olhou de canto. — Que tal um acordo?  — Desses onde você propõe ter um filho comigo caso eu fique encalhada? — ri. — Que deprimente!  — E se você ficar encalhada? Não é legal ter um filho com qualquer um.  — Que tal você se concentrar na filha que tem agora? — arqueei a sobrancelha. — E antes que eu me esqueça, pede um exame de DNA.  — Acha que a Belinda mentiria para mim? — franziu a testa.  — Eu não sei, eu não a conheço! — dei de ombros. — É só pra você ter certeza.  — Ok. — assentiu. — Vai estar comigo nessa, não é? Eu não aguento isso sozinho.  — Eu sempre vou estar aqui. — coloquei minha mão dentro da dele. — Vai dar tudo certo. — sorri de leve.  — Eu espero que sim. — sorriu também. — Bem... hora de ir almoçar com a minha filha. Uau... — respirou fundo. — Não achei que diria essa frase tão cedo.  — Que orgulho, Alexander Uckermann finalmente será obrigado a amadurecer! — dramatizei, enxugando lágrimas falsas de meus olhos.  — Sempre muito engraçada! — riu dando dois tapinhas em minha testa. — O que vai fazer agora?  — Bem... eu iria para casa, mas acho melhor dar uma passada na igreja.  — Aproveita e diz ao Christopher que quero falar com ele.  — Ok, eu vou tentar. — suspirei.  Nos despedimos na entrada do shopping e depois, eu peguei um táxi até a igreja. Aquele era o dia de confissões e eu deduzi que Christopher estaria por lá.  Travei na entrada, pensando se era uma boa ideia procurá-lo tão cedo. Eu nem sabia o que iria dizer! Mas ele também não ajudou em nada mandando entregar aquela torta em minha casa. E cada vez que eu tentava me esforçar para entendê-lo, eu me confundia ainda mais.  Várias coisas passaram pela minha cabeça e eu pensei se talvez ele iria abandonar sua missão e tentar algo comigo, ou se me ignoraria e se afastaria de mim. Eu não queria que ele me cortasse de sua vida, por mais que eu não fosse tê-lo como realmente desejo. Christopher era um homem incrível e eu me contentaria em apenas ouvir a sua voz numa conversa amistosa e sem segundas intenções. Mas como ter isso sem que as coisas estivessem super estranhas entre nós?  Entrei na igreja passando meus dedos um no outro. Eu estava suando e minha respiração estava fora de compasso. Corri meu olhar pela igreja e vi alguns fiéis indo até o confessionário. Quando dei um passo para ir até lá, avistei uma silhueta familiar de joelhos em um dos bancos. Era o Christopher.  Caminhei devagar até lá e o observei por alguns segundos. Ele mantinha uma oração concentrada e seu rosto estava úmido de lágrimas. Ah, não! Estava chorando por minha culpa? Essa ideia fez meu coração doer.  — Christopher? — o chamei. Ele pareceu se assustar com a minha voz e se virou devagar na minha direção, com o rosto um tanto quanto surpreso.  — Oi. — falou apenas, numa expressão bem séria. — Oi.
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