Quando se acalmaram e voltaram às suas atividades, saí silenciosamente da sala de estar e fui para o nosso quarto. Peguei uma pequena pasta na mesa de cabeceira e comecei a revisar os documentos.
A campainha da porta da frente interrompeu a minha tarefa. Era Tatiana.
— Olá, Eva! Sorriu a babá. — Que bom te ver, você está linda.
Eu sabia que não era verdade. Eu tinha me visto no espelho naquela manhã, mas preferi não quebrar a gentileza.
— Nós tínhamos marcado hoje? Perguntei, genuinamente surpresa.
— Denis ligou e pediu para eu vir.
— Sério?
— Ele disse que você precisava descansar depois do evento de ontem. Você se divertiu, não é? Disse Tatiana com um sorriso. — Eu entendo como você se sente.
— Sim, foi ótimo. Sussurrei, olhando para ela.
Ela entrou no apartamento, tirou as sandálias e foi até as crianças.
— Eu cuido das crianças, não se preocupe. Posso até preparar o almoço se você não estiver com vontade.
— Estou bem, obrigada. Respondi, cerrando os punhos.
— Que bom. E quais são os planos das crianças para hoje? Perguntou a babá cordialmente.
Não conseguia me livrar da sensação de que Denis a havia mandado para ficar de olho em mim… Ou será que eu estava enganada?
— Elas estão terminando os desenhos, depois prometi um passeio no parque. Depois do almoço, Irina tem aula de dança e os meninos precisam ir para a aula de judo.
— Entendido, vou me arrumar para o parque.
— Obrigada, Tatiana.
Quando as crianças saíram com a babá para o parque, fiquei sozinha no apartamento. O silêncio envolveu-me novamente como um cobertor frio e, suspirando profundamente, fui para a cozinha preparar o almoço. Cada movimento parecia mecânico, mas, ao mesmo tempo, me ajudava a distrair de pensamentos dolorosos.
Enquanto o caldo fervia no fogão, peguei o telefone e liguei para a chefe do departamento de ginecologia, Maria Ivanovna. Ela não só tinha sido minha supervisora durante a residência, como também minha mentora, alguém a quem eu sempre podia recorrer.
— Olá, Maria, bom dia. Eu disse, ouvindo a sua voz familiar na linha.
— Olá. Como posso ajudar?
— Sou eu. A Eva.
— Qual Eva?
O meu coração parou. Ela talvez não se lembrasse de mim. Fazia tanto tempo desde a última vez que conversamos.
— Eva Boyko. Quer dizer, Vysnevecka. Fiz a minha residência com você... talvez você não se lembre de mim.
— Eu tinha grandes expectativas em relação a você como uma especialista promissora, mas você se casou e teve um filho logo depois de terminar a residência. Claro que me lembro de você. Como vai? Ela parecia simpática, mas dava para perceber que estava ocupada.
— Podemos nos encontrar? Há algo importante que eu gostaria de discutir. A minha voz estava um pouco tensa, e eu esperava que ela não percebesse.
— Claro. Ela respondeu. — Posso te encontrar depois do almoço, às quatro. Funciona para você?
— Sim, obrigada. Mas não no hospital, se possível.
A última coisa que eu queria era encontrar meu marido, já que eles trabalhavam no mesmo hospital, ou a amante dele. Além disso, os colegas de Denis poderiam contar a ele que me viram. Eu não queria isso.
— Essa é uma boa desculpa para sairmos e tomarmos um café em outro lugar. Não me importo. No KavoKafé, então.
— Estarei lá. Obrigada. Até logo. Encerrei a ligação, aliviada por o encontro ter corrido bem e feliz por ela não ter recusado o meu convite.
As crianças voltaram do passeio, contando animadas as suas aventuras no parque. Arrumei a mesa e convidei todos para comer. As conversas giravam principalmente em torno de assuntos infantis, mas cada olhar para seus rostos reafirmava minha decisão de fazer tudo o que fosse possível pelo bem-estar deles.
— Irina, crianças, assim que terminarem de comer, a Tatiana vai levá-las para as atividades. Lembrei às crianças, tentando parecer animada. Os meus pensamentos já estavam na reunião. Eu estava muito nervosa para saber se tudo o que havia sido planejado daria certo.
— Você não vai nos levar? A minha filha perguntou, franzindo a testa.
— Estou com dor de cabeça hoje, então a Tatiana vai ficar com vocês.
— Tudo bem. Concordaram as crianças, enquanto a babá me dava um sorriso encorajador.
O almoço terminou e as crianças saíram com a Tatiana para as atividades. Assim que a porta se fechou atrás delas, rapidamente juntei as minhas coisas e fui para a reunião com Maria Ivanovna.
Cheguei ao Kavokafé, que ficava a cerca de dois quarteirões do hospital, um pouco antes do horário marcado, e enquanto subia as escadas, sentia uma mistura de nervosismo e determinação.
O café era pequeno, mas aconchegante. O seu interior foi projetado num estilo minimalista moderno: paredes em tons claros, mesas e cadeiras de madeira e grandes janelas que deixavam entrar muita luz natural.
Vasos de cactos pendiam nos parapeitos das janelas, e um jazz suave tocava nos alto-falantes. O aroma do café pairava no ar. Eu deveria ter criado uma atmosfera relaxante, mas meus nervos continuavam inquietos.
Encontrei uma mesa vazia perto da janela e sentei-me, pedindo um latte. Enquanto esperava por Maria, não conseguia parar de pensar em como iniciar a conversa. Diferentes cenários de como as coisas poderiam se desenrolar passavam pela minha cabeça, e eu tentava me preparar para cada um deles. Eu precisava de ajuda. Será que conseguiria?
Maria chegou um pouco atrasada, mas assim que entrou no café, a sua presença imediatamente chamou a atenção.
Ela parecia confiante e profissional, como sempre. Tinha mais de cinquenta anos, mas aparentava ser surpreendentemente jovem. Os seus cabelos loiros estavam penteados num corte curto e elegante, e o seu terno bordô escuro realçava a sua aparência profissional. Um leve sorriso brincava no seu rosto, que ainda refletia a beleza do seu passado, aumentando o seu charme.
Ela aproximou-se da minha mesa, e eu me levantei para cumprimentá-la.
— Desculpe o atraso. Disse ela ao sentar-se à minha frente. — Você não esperou muito, não é?