Episódio 8

1752 Words
— Mingau de aveia de novo? Irina fez uma careta ao entrar na cozinha. Minha filha estava de pijama rosa, com o cabelo todo bagunçado. Eu costumava penteá-lo depois do café da manhã. Não dormi muito naquela noite. Minha cabeça latejava, meus olhos ardiam, meu corpo estava exausto, mas havia uma vantagem: eu já tinha pensado em tudo o que faria a seguir e levantei cedo para preparar o café da manhã para as crianças. — O café da manhã dos campeões, lembra? Sorri para minha filha. Mesmo sem me sentir confiante, eu precisava ser forte pelos meus filhos. Ou pelo menos dar essa impressão. — Acho que você está nos enganando. Disse Irina de repente, e meu coração parou por um instante. Será que as crianças tinham ouvido a minha conversa noturna com Denis? — Como assim? — Mingau de aveia não tem nada a ver com campeões. Disse a esperta garotinha, revirando os olhos em tom de deboche. — É óbvio. Suspirei fundo. Eles não ouviram. — Sugiro que você veja por si mesma. Se você se tornar uma campeã de dança, aí sim poderá me dizer se eu estava certa sobre o café da manhã ou não. Entendeu? A menina bufou. — Se eu me tornar uma campeã, não será graças ao mingau de aveia. — Graças a quê, então? — A mim mesma. Respondeu minha filha com convicção. — Isso também é óbvio, mãe. Você não sabia? Irina sentou-se à mesa, pegou uma colher e começou a comer a contragosto. E eu fiquei ali parada, atônita com mais uma descoberta inesperada: até minha filha de oito anos estava pronta para confiar na própria força. Então, não adiantava expressar meu medo de que ela não fosse capaz de enfrentar as dificuldades sozinha. — Eu sei, querida. — Então eu estava certa sobre o mingau de aveia? Ela perguntou, estreitando os olhos maliciosamente. — Talvez. Sorri. — Mas não conte para seus irmãos. — E o que eu ganho em troca? — É melhor pensar no que você não vai ganhar em troca. Respondi alegremente, o que fez minha filha suspirar profundamente. A tentativa de manipulação não funcionou. — Mamãe, então podemos comer sanduíches no café da manhã amanhã? Ela perguntou, limpando a aveia cinza da boca. — Tudo bem. Concordei, acariciando a sua cabeça. — Mas hoje é aveia. Vai te ajudar a crescer forte e inteligente. Irina bufou, mas continuou comendo. Senti um leve aperto no coração enquanto observava minha princesinha. Tão inocente, tão pura, prometi a mim mesma que faria tudo o que pudesse para protegê-la da dor que a vida adulta traz. Será que eu quero que Irina experimente a infidelidade masculina? Dizem que as filhas costumam repetir as histórias de suas mães. Será que eu quero que ela perdoe um marido que me mostrou tão pouco respeito? Porque Denis traiu não só a mim, mas também os nossos filhos. Ele permitiu que a amante dele me humilhasse na frente de amigos e colegas. Será que eu quero que a minha filha também tenha que engolir essa pílula amarga e se perder na dependência de um homem forte? — Mamãe, posso ir brincar no parque depois do café da manhã? Perguntou Irina, já quase terminando de comer. — Claro. Respondi, sorrindo. — Mas primeiro, vamos pentear o seu cabelo, tá bom? Nesse momento, os gêmeos, Mik e Dmytro, entraram correndo. Eles se pareciam, mas não eram idênticos como gêmeos fraternos, e estavam sempre juntos, como um pequeno furacão. — Mamãe, estamos com fome! Exclamou Mik, puxando minha mão. — É, morrendo de fome! Acrescentou Dmytro, tentando subir na cadeira sozinho. — Tudo bem, meninos. Eu disse, ajudando-os a se sentarem à mesa. — Aqui está o mingau de vocês. Comam e vocês ficarão fortes, como verdadeiros cavalheiros. — Como o papai? Perguntou Dmytro, fazendo-me engasgar. — Como o papai. Sorri amargamente, m*al conseguindo pronunciar a óbvia mentira. Denis ainda era um exemplo para os meninos. Eles o adoravam. Será que eu quero que meus bons meninos se tornem desprezíveis? Os meninos começaram a comer com gosto, e eu senti um pequeno alívio. Essa cena, como tantos outros momentos comuns, me dava forças. O riso e a inocência deles eram como um bálsamo para minha alma ferida. Sentamos à mesa, desfrutando da nossa rotina familiar. Os meninos conversavam sobre seus planos para o dia, e enquanto eu os ouvia, senti minhas dolorosas preocupações se dissiparem por um instante. Mas, de repente, Denis entrou na cozinha. Sua presença mudou imediatamente a atmosfera. Ele parecia revigorado e confiante, como se nada tivesse acontecido. — Bom dia. Disse ele, sentando-se à mesa. — Bom dia, pai. Responderam as crianças alegremente. Respirei fundo, tentando manter a calma. A presença de Denis me fez lembrar de todos os problemas que nos separaram, do abismo que ele criou entre nós. Era doloroso até mesmo olhar para ele. Eu sentia como se meu coração estivesse se partindo. Mas ele parecia não notar. Eu queria poder desligar minhas emoções com um estalar de dedos. Mas, infelizmente, eu sentia toda a gama delas. O amor não tinha ido embora. Apenas estava envolto no abraço da dor, me atormentando, zombando de mim. — E o papai? Perguntou Mik, olhando para mim com curiosidade. As crianças perceberam que não havia mingau para o pai, nem mesmo um prato, como eu costumava fazer. Dmytro também percebeu a reação do irmão. Os meninos já estavam imitando o pai em muitos aspectos, então a ideia de que crescessem egoístas, como Denis, me repugnava. — Não sobrou mingal para o papai. Eu disse, dando de ombros. — Não se preocupe, ele vai comer no trabalho. Lá, eles o alimentam bem, e não apenas o alimentam de mingal. Irina franziu a testa, mas não disse nada. Os gêmeos ficaram satisfeitos com a minha resposta, mas meu marido não. — O que você está fazendo? Ele murmurou, apenas gesticulando. Claro, eu não tinha intenção de responder à sua pergunta, então o ignorei, o que irritou Denis ainda mais. Ele até corou. ‍​‌‌​​‌​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍Denis sempre fora reservado, e nas últimas 24 horas, suas reações haviam chegado ao limite. — Pai? Dmytro o chamou. — Comemos tanto que não sobrou nada para você? — Os meninos precisam comer bastante para ficarem fortes. O meu marido sorriu. — Não se preocupe, vou fazer uns ovos para mim. E ele realmente começou a fritar os ovos, sem nem me dizer uma palavra. Mas eu não devia me iludir. Tinha certeza de que Denis me confrontaria sobre isso mais tarde também. — O que vocês vão fazer hoje, crianças? Ele perguntou, tentando agir como se nada tivesse mudado. — Vamos brincar. Respondeu Mik, entusiasmada. — E vamos desenhar! — Que ótimo. Meu marido sorriu, lançando-me um olhar rápido. Denis sentou-se com seu prato de ovos, fingindo habilmente que tudo estava como sempre. Mas a tensão era palpável, preenchendo o espaço entre nós. Tentei manter a conversa fluindo para que as crianças não suspeitassem de nada. — Irina, o que você quer desenhar hoje? Perguntei, sorrindo para minha filha. — Quero desenhar todos nós no parque que fomos semana passada. Ela respondeu, m*al levantando a cabeça do prato. — Vai ficar lindo, querida. Acrescentou Denis. — Você vai desenhar a nossa família grande e feliz, não é? — Sim. Se olhares matassem, Denis já estaria morto. Ele realmente achava que eu não perceberia suas tentativas desastradas de enganar as crianças? — Mik, e o que você vai desenhar? — Vou desenhar dinossauros! Exclamou o menino. — Grandes e assustadores! R-r-r! — Isso vai ser interessante. Denis sorriu novamente, embora os seus olhos continuassem frios. Dmytro, animado com a conversa sobre desenho, acrescentou: — E eu vou desenhar uma nave espacial! E você vai poder viajar para o espaço com ele, papai. — Para o espaço? Perguntou Denis, surpreso. — Para a Lua. Dmytro bateu palmas. — Eu quero morar na Lua. — Não existe vida na Lua. Irina fez beicinho. — Claro que existe! — Isso parece ótimo, pessoal. Eu disse, tentando ignorar o olhar penetrante de Denis. — Trago lápis e papel para vocês depois do café da manhã. Comemos todos juntos, mas a normalidade era apenas uma fachada. Meu café da manhã estava quase preso na minha garganta, então me concentrei mais no meu café. A tensão entre Denis e eu era palpável em cada olhar, em cada palavra. As crianças, imersas em seus planos para o dia, pareciam alheias. — Mãe, quando vamos passear? Ao parque? Perguntou Irina, que acabara de terminar seu cereal. — Você prometeu. — Vamos mais tarde, quando vocês terminarem de desenhar. Respondi. Denis cerrou os punhos, visivelmente irritado com a minha indiferença aos seus olhares expressivos. — O papai vem com a gente? Perguntou Mik. — O papai está trabalhando, querida. Respondi antes que Denis pudesse reagir. — Ele trabalha incansavelmente dia e noite, noite e dia, e não pode vir com a gente. Li está esperando por ele… — Eva. Denis sussurrou na minha direção. — Eles estão esperando por ele no hospital. Sorri para as crianças, deliciando-me com o nervosismo do meu marido. — Vocês sabem que o pai de vocês tem um trabalho muito importante. Ele salva vidas. — Como o Supergato? Os olhos de Dmytro se arregalaram. — Como o Supergato. O café da manhã continuou em silêncio, quebrado apenas ocasionalmente pela tagarelice das crianças. Senti cada minuto se arrastar enquanto tentávamos agir como se tudo estivesse bem, embora nosso mundo já tivesse mudado drasticamente. E não havia escapatória. Assim que as crianças terminaram de comer, Denis as acomodou na sala para desenharem e depois voltou para perto de mim. — Que cena você fez, Eva! Denis m*al conseguiu conter a raiva. — Não envolva as crianças nos nossos assuntos. É desprezível. Quase deixei cair a louça que estava colocando na lava-louças. — Você está me acusando de ser desprezível? — Não me provoque, Eva. Porque você não vai gostar do resultado. Ele retrucou, cerrando os lábios. — Você já recorreu a ameaças, Denis? — Então você não escolheu a primeira opção, Eva, não é? E eu realmente esperava que você fosse razoável.
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