Ethan tentou seguir com os dias como como se nada tivesse acontecido, tentou não pensar nela e nos acontecimentos da semana anterior e falhou miseravelmente.
Na segunda feira acordou mais cedo do que de costume, se vestiu como se veste uma armadura de guerra e foi para empresa, trabalhar sempre o ajudava a manter o controle, mas naquela segunda feira na sala de reuniões da empresa, as projeções sobre investimentos passavam diante dele como borrões. Os sócios discutiam números, gráficos, previsões, riscos. Alguém perguntou algo diretamente a ele duas vezes e a resposta não veio. Ele abriu a boca para dizer qualquer coisa profissional, lógica, racional, mas o cérebro só repetia uma cena específica da tarde:
Elena rindo.
Daniel ao lado dela.
Os dois saindo do prédio de braços dados.
A mão de Daniel na cintura dela queimava na memória de Ethan como uma provocação. Os dois pareciam íntimos demais para algo casual. E, pela primeira vez desde o início do projeto, Ethan percebeu algo que odiou perceber:
Ele estava com ciúmes.
Ele odiava ainda mais o fato de não ter o direito de sentir aquilo.
Por impulso, apertou com força a caneta entre os dedos. Quase a quebrou em dois. Alguém na mesa se calou, percebendo a tensão, mas ninguém teve coragem de comentar.
Quando a reunião terminou, Ethan nem esperou pelos comentários finais, nem recolheu os papéis. Apenas pegou o celular, as chaves e saiu. Dirigiu mais rápido do que deveria, como se a velocidade pudesse silenciar a mente.
Mas a imagem voltava com crueldade.
Elena apoiada em Daniel.
Como se estivesse tudo bem.
Como se não fizesse falta.
Como se o momento do auditório quando ele a segurou nos braços não tivesse significado absolutamente nada.
Ele tentou se convencer de que aquilo era bom.
De que ela não estar interessada simplificava tudo.
De que era melhor assim.
Mas a verdade cortava como lâmina.
Ele queria que tivesse significado alguma coisa.
No apartamento, tirou o blazer e o jogou no sofá sem cuidado. Afrouxou a gravata, passou a mão pelos cabelos, indo até o bar para servir um dedo de uísque que virou de uma vez, como se pudesse apagar pensamentos à força.
Responsabilidade, ética, limites.
Era isso que repetia para si mesmo, como um mantra desesperado.
Mas o peso no peito o denunciava.
Nunca tivera ciúmes de mulheres. Nunca desejara alguém que não pudesse desejar. Não era de perder o controle e ali estava ele, com a mente presa em uma aluna que nem parecia pensar nele.
E isso o torturava de uma forma que ele não sabia administrar.
Por um segundo, imaginou o que teria acontecido se ela tivesse escorregado com mais força no dia da chuva… se ele não tivesse estendido a mão… se não tivesse sentido o corpo dela encostado no dele, tão perto e tão rápido.
A lembrança era involuntária e visceral.
O perfume, a respiração, o olhar surpreso.
— i****a — sussurrou para si mesmo, irritado com a própria fraqueza.
Mas nada mudava o fato mais perturbador de todos:
Era segunda feira, a aula aconteceria somente na quarta e Ethan já estava contando os dias.
Não porque era dedicado ao trabalho.
Mas porque queria estar perto dela.
E isso, admitir isso era o começo do perigo.
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Na quarta feira Elena chegou à sala quinze minutos antes do horário. Não porque tinha pressa em estudar, mas porque precisava ter certeza de que ele não a veria entrando. Não queria correr o risco de cruzar olhares, de sentir o impacto do silêncio carregado do último encontro, de lembrar de novo do quase beijo que ainda queimava na pele dela.
Normalmente, ela se sentava na terceira fileira, mas por conta da bota ortopedia e da dor no tornozelo decidiu evitar degraus desnecessários e sentou na primeira fileira quase exatamente alinhada à mesa do professor. Ali, ela conseguia vê-lo de perto, enxergar cada expressão, cada sorriso, cada mudança no olhar.
Ela abriu o notebook e ficou olhando para a tela vazia estava decidida a ignorá-lo naquele dia. O cursor piscava, impaciente, enquanto a mente dela se recusava a funcionar. O estômago doía. O peito doía. E ela odiava como tudo nele parecia deixá-la sem ar.
Os outros alunos entraram, conversaram, riram, ocuparam lugares. E ela manteve o olhar preso ao teclado, tentando ser invisível.
Quando Ethan entrou na sala, nem percebeu o silêncio que caiu atrás dele. Estava atrasado, atrasado demais dentro da própria cabeça, o corpo presente, a mente em lugar nenhum. Ele colocou a pasta sobre a mesa, abriu o notebook, conectou o projetor, tudo no piloto automático.
Ele só ergueu os olhos quando começou a explicar sobre o tema da aula.
E então o mundo inteiro pausou.
O coração dele acelerou de forma imediata e involuntária. Um golpe. Um aviso.
Ele tentou manter a postura, tentou continuar a explicação, mas o corpo não obedeceu, o perfume dela leve, limpo, familiar atravessou a distância entre eles e encontrou sua memória antes de encontrar o ar.
Ele engoliu em seco e continuou a aula com uma firmeza que era só fachada.
Elena permaneceu em silêncio o tempo inteiro.
Não fez perguntas.
Não esboçou nenhuma expressão além da concentração tensa de quem tenta não demonstrar nada.
E isso foi o que mais machucou.
Ethan tentou não olhar, mas falhou.
Tentou ignorar, mas falhou novamente.
A forma como ela mexia o cabelo quando estava nervosa.
O jeito como friccionava o polegar no canto do notebook quando pensava.
A respiração curta quando estava ansiosa.
Ele notou tudo.
Só percebeu que estava fixado demais nela quando perdeu o raciocínio no meio de uma explicação e precisou olhar para os slides para se reencontrar.
Os alunos não perceberam Elena sim, e foi nesse momento que ela levantou os olhos e os olhares se cruzaram por três segundos.
Foram suficientes.
Ele pareceu implodir.
Ela pareceu fugir.
Desviaram ao mesmo tempo, como se tocar com os olhos fosse tão proibido quanto tocar com as mãos.
Ele tentou continuar explicando os critérios do marketing com um autocontrole frio, quase mecânico. Mas o estômago dele ardia com o tipo de desejo que ele não tinha direito de sentir e sentia assim mesmo.
Elena se esforçou para manter o olhar fixo na tela do notebook e isso estava esgotando suas forças e ela não sabia por mais quanto tempo conseguiria aguentar aquilo.
A aula passou arrastada.
Para Elena, porque estar na mesma sala que ele doía.
Para Ethan, porque estar longe dela doía mais.
E foi só quase no fim da aula, quando ela inclinou o rosto e prendeu o cabelo atrás da orelha, revelando o perfil tão familiar, que ele percebeu:
Ele estava completamente obsecado por ela.
Essa consciência o destruiu.
— Por hoje é isso — ele disse, encerrando a aula mais cedo com a voz mais baixa que de costume.
Os alunos começaram a guardar mochilas, a descer os degraus, a conversar em corredores estreitos entre as carteiras. Barulho comum, normal.
Mas não para Ethan.
Ele observava somente uma pessoa.
Elena fechou o notebook devagar, devagar demais, tentando ganhar tempo,
ela esperou os outros descerem, não queria ficar no caminho dos alunos apressados e correr o risco de levar um esbarrão e forçar o tornozelo ainda mais do que já estava forçando.
Só quando restou silêncio o suficiente para escutar o próprio coração, ela se levantou e começou a andar lentamente em direção à porta.
Foi aí que Ethan se moveu.
Não pensou.
Não planejou.
Apenas se levantou e atravessou a sala até alcançá-la antes de ela sair.
— Senhorita Morrison
Ela congelou no mesmo instante.
Não se virou.
Não se mexeu.
Apenas parou.
A respiração mais alta no ar silencioso era dele e dela.
— Por favor — ele disse, a voz quebrada. — olha pra mim.
Ela mordeu o lábio com força, os ombros tensos, como se olhar para ele significasse cair.
Mas ela não olhou
Ethan prendeu a respiração.
— Você está me evitando.
— Não — ela disse, mas a voz dela hesitou. — Eu só estou tentando entender. .
Ethan chegou um passo mais perto e tocou o ombro dela.
Ela se afastou por instinto, não rejeição.
— Eu sei que passei dos limites — ele disse, quase num sussurro. — Tudo o que eu tenho feito é tentar não ultrapassá-los novamente.
Ela se virou e o olhou, os olhos dela ele percebeu brilhavam, não de raiva mas de tristeza.
— Eu... — ela começou mas parou tentando acalmar o turbilhão de emoções que a esteva consumindo. — Eu não sei o que pensar, está tudo confuso na minha cabeça agora
Ele fechou os olhos como se aquelas palavras fossem uma faca.
— Me deixe explicar... Eu não deveria ter passado do limite
Elena enxugou discretamente uma lágrima antes que ela caísse.
— Eu fico bem… se você ficar longe — ela disse. E a frase a matou enquanto dizia.
Ela virou para a porta, com passos firmes demais para alguém que m*l conseguia andar.
Ethan não tentou impedir.
Não porque não quisesse, mas porque ele estava paralisado.
Destruído pelo medo de segurá-la e destruído pelo medo de deixá-la ir.
Quando a porta se fechou atrás dela, o som não foi alto.
Mas dentro dele ecoou como um estrondo.
Ele levou a mão ao rosto, respirou fundo, e sentiu o mundo inteiro ficar pesado demais.
A única coisa mais dolorosa do que desejar Elena era não poder tê-la.
E agora ele não poderia nem desejar nem tê-la para o bem dela.