Aquele momento ainda estava ali, não no corpo, mas no pensamento, latejando como se tivesse acontecido um segundo antes.
Mas na manhã seguinte, Elena fez exatamente o que qualquer pessoa racional faria quando algo impossível acontece:
Fugiu.
Não respondeu ao e-mail automático com o aviso da reunião de sexta.
Não passou pela biblioteca no horário habitual.
Não cruzou com Ethan nos corredores, se manteve em seu dormitório o máximo de tempo possível.
Se alguém perguntasse, ela diria que estava apenas cansada, e poupando o seu tornozelo.
E talvez acreditasse nisso por alguns segundos.
Mas a verdade era simples e brutal:
Ela não estava pronta para olhar para ele.
O quase beijo não a assombrava pela culpa e sim pela intensidade do momento.
Aquilo não tinha lógica, não tinha explicação e, acima de tudo, não tinha permissão para existir.
Ethan, por outro lado, não precisou mudar nada na rotina para evitar encontrar Elena.
Ela mesma fez isso por ele.
Ele a viu de longe apenas uma vez atravessando o pátio devagar com a bota ortopédica, segurando os livros contra o peito.
Ele desviou antes que ela pudesse ver.
Mas desviou tarde demais para si mesmo.
O coração bateu de um jeito indigno para um homem da idade dele.
Ridículo.
Inaceitável.
Ele havia prometido não só na quarta-feira, mas durante toda a vida adulta que jamais cruzaria uma linha dessas.
Ele tinha lido o código de ética dezenas de vezes.
Sabia os riscos.
Sabia o peso.
E, ainda assim… quase tinha cedido.
Aquele momento ficava voltando, como uma memória involuntária: a mão dela agarrando sua camisa, o suspiro dela próximo ao seus lábios, a forma como Elena o puxou com a mesma fome que ele negou.
Cada lembrança era uma lâmina.
Na quinta-feira, quando ele abriu o notebook para preparar o cronograma da reunião do projeto, a pasta compartilhada mostrava o nome dela.
Elena Morrison — atualização enviada às 3h17 da manhã.
Ethan fechou os olhos.
Ela estava trabalhando exaustivamente para não pensar.
E ele estava lutando exaustivamente para não sentir.
Então, quando a sexta-feira chegou, ele não tinha dúvidas:
Elena estaria na reunião.
E ela não o olharia.
A sala de projetos estava silenciosa quando Elena entrou.
Chegou cedo, cedo o suficiente para evitar o risco de se sentar perto de alguém específico.
Ela escolheu o lugar mais distante da mesa central, colocou os livros à frente, abriu o notebook e manteve os olhos fixos na tela, como se o brilho fosse um escudo.
A respiração dela estava sob controle.
O batimento cardíaco, não.
Cada movimento do tornozelo latejava, mas doía menos do que a confusão emocional.
Estava tudo sob controle até a porta se abrir e Ethan entrar com a postura habitual: silencioso, composto, profissional.
Mas havia algo diferente.
Ele não olhou para ninguém por mais de um segundo.
E especialmente, não olhou para ela.
Elena percebeu antes que ele dissesse qualquer palavra.
Ele estava se esforçando para ignorá-la.
E foi aí que o coração dela fez algo inesperado:
não doeu pelo quase beijo,
não doeu pela culpa,
doeu pela distância.
Não fazia sentido, mas fazia efeito.
Ethan colocou os papéis na mesa, conectou o laptop ao projetor e começou a reunião com precisão mecânica.
— Vamos revisar o andamento do projeto — disse, sem emoção. — Quero que cada grupo apresente os avanços e os obstáculos encontrados até agora.
A voz era polida, impecável.
Mas havia algo nela que Elena nunca tinha ouvido antes:
Autodefesa
O tipo de frieza que não nasce do desinteresse, mas do medo de sentir demais.
Quando os grupos discutiam seus tópicos, Ethan acompanhava atentamente, corrigia, perguntava, direcionava.
Nada nele denunciava o caos interno, para qualquer um, ele era apenas um professor exemplar.
Mas quando foi a vez do grupo de Elena apresentar, ela sentiu.
Ele engoliu seco antes de falar.
— Grupo Morrison.
Era só o sobrenome dela.
Mas, dito na voz dele, soou como uma lembrança.
Ela tentou manter o tom impessoal:
— Nosso grupo avançou com a estrutura inicial do artigo...
Conseguia falar com clareza, calma, coerência.
Mas as mãos tremiam levemente sobre o teclado, não pelos colegas… por ele.
Ethan ouviu cada palavra sem levantar os olhos.
Não confiava no próprio olhar.
Quando ela terminou, ele respondeu de forma impecável, profissional, irretocável.
— Excelente trabalho. O argumento está sólido. Continuem nessa direção.
Nenhum elogio além do necessário.
Nenhum segundo de contato visual.
Nenhuma brecha para interpretar.
Se alguém na sala estivesse prestando atenção, pensaria:
Eles m*l se conhecem.
Mas essa indiferença controlada
para Elena, foi uma lâmina mais afiada do que qualquer erro teria sido.
As horas seguintes passaram com uma única tensão não resolvida:
Ela tentando fingir que o beijo negado não existiu.
Ele tentando fingir que não sentia falta.
E ambos falharam, mas silenciosamente.
Quando a reunião terminou, os alunos foram saindo.
As cadeiras arrastaram, mochilas fecharam, risos e conversas se espalharam.
Até que restaram apenas duas pessoas tentando não existir na mesma sala.
Elena juntou os livros devagar, respirando fundo para não mancar.
Queria sair antes dele.
Mas, antes que conseguisse levantar, Ethan finalmente falou pela primeira vez olhando diretamente para ela.
E foi devastador.
— Senhorita Morrison
A voz era baixa, tensa, urgente como se ele tivesse segurado aquela palavra por dois dias inteiros.
Ela ergueu o rosto, e a dor passou de física para visceral.
Ele parecia prestes a dizer algo importante, perigoso, irreversível.
Mas quando abriu a boca a porta se abriu também.
Daniel entrou apressado, radiante:
— Morrison! — sorriu. — Quase esqueci de você aí. Vamos, te ajudo a levar os livros.
E sem querer, sem saber, interrompeu o momento que poderia mudar tudo.
Elena piscou como alguém que volta à superfície depois de prender a respiração por tempo demais.
Quando respondeu, sua voz foi gentil… e uma sentença:
— Claro. Obrigada Daniel.
Daniel pegou os livros, ofereceu o braço, e Elena se levantou apoiando-se levemente nele.
Ethan ficou imóvel, observando.
Não chamou.
Não corrigiu.
Não pediu.
Apenas assistiu.
E quando Daniel e Elena cruzaram a porta, sem perceber o estrago, Ethan ficou sozinho na sala vazia.
E, finalmente, quando ninguém mais pôde ouvir, ele deixou escapar aquilo que passara dois dias tentando engolir.
— O que eu fiz?
Mas não havia resposta.
A destruição já tinha começado.
E nenhum dos dois respiraria em paz depois daquilo.
Naquela noite ninguém diria que havia algo diferente na fachada espelhada do prédio da Hayes Global Innovation, mas por dentro, o CEO estava quebrado de um jeito que ninguém poderia adivinhar.
Ethan estava sozinho na sala de reuniões do 38° andar, as luzes da cidade refletindo nas janelas, a gravata largada sobre a mesa, o blazer esquecido em algum lugar no caminho. O projetor ainda mostrava os gráficos da reunião de mercado que ele não conseguiu prestar atenção por mais de três minutos.
Ele tentava pensar em números, metas, expansão, fusões qualquer coisa que o mantivesse longe daquilo que não deveria importar.
Mas o que ficava voltando
não era aquele exato momento.
Era a imagem de Daniel oferecendo o braço, e Elena aceitando. Os dois saindo juntos e a porta se fechando.
E, por mais que ele repetisse mentalmente que aquilo não significava nada, uma parte dele a parte que ele mais odiava reagia como se significasse tudo.
Ciúme não era um sentimento que combinava com ele.
Frustração, ele dominava.
Raiva, ele canalizava.
Perder o controle? Não fazia parte.
Mas aquilo… aquilo o corroía.
Ele apoiou as mãos na mesa, respirou fundo e fechou os olhos, tentando ser racional.
Ela é uma aluna e ele é um colega de turma, não existe código de ética que impessa a relação entre os dois, é óbvio que ele vai ajudar e é natural que ela aceite.
Ele sabia disso.
Então por que o peito doía como se estivesse perdendo algo que nunca foi seu?
A resposta veio, c***l, inevitável:
Porque ele queria ter sido aquele braço.
Aquele apoio.
Aquela companhia.
E não podia ser.
Meia hora depois, ele estava dirigindo pela cidade sem lembrar exatamente quando decidiu ir embora do escritório. O apartamento estava silencioso quando ele entrou. Silencioso demais. Uma pilha de relatórios esperava na mesa da sala, mas ele passou direto.
Sentou-se no sofá, ainda de camisa social, sem coragem de afrouxar os botões que pareciam sufocar mais do que qualquer gravata.
A mente dele tentava lógica.
Ela não é sua.
Não deveria ser.
Nunca será.
O certo é distância.
O certo é esquecer.
Mas cada vez que repetia essas frases, a memória empurrava outra:
O corpo dela contra o dele.
A mão dela agarrando sua camisa.
O suspiro dela próximo da boca dele.
E depois, hoje:
Ela saindo com outro.
Ele apoiou o antebraço na testa e deixou o ar sair num meio-riso ácido, amargo, desesperado.
Imaginou Daniel parado na porta do dormitório dela.
Imaginou risadas.
Imaginou proximidade, i********e.
E então o pensamento que o destruiu:
Se eu não tivesse parado, eu a teria perdido o controle e tomado ali?
Não, não teria.
Porque ele não podia.
Porque ele não tinha o direito.
E porque, se continuasse, iria destruir tudo, ela, ele, a reputação, a carreira, o futuro dela.
Ainda assim… ele queria.
Ele passou as mãos no rosto, vencido pela própria contradição, sentindo-se de uma fraqueza que não lembrava desde a juventude, uma juventude que ele passou tentando enterrar.
Nunca foi o tipo de homem que dividia nada com ninguém.
Mas agora sentia que estava perdendo algo que nunca teve e era isso que o acabava.
Não era ciúme pelo fato de alguém tê-la.
Era ciúme pela impossibilidade de tê-la.
Um relógio marcava onze e meia da noite quando ele finalmente sussurrou a frase, a mesma que tentou m***r desde o momento em que Elena saiu pela porta com Daniel:
— Eu não devia me importar.
Mas se importava.
E enquanto aceitasse isso…não haveria paz.