CAPÍTULO 6 — Impulso incontrolável

1921 Words
O campus estava mais calmo naquela sexta feira a tarde. O sol fraco atravessava as árvores, iluminando o pátio com um brilho frio de final de outono. Elena caminhava lentamente, apoiada levemente na bota ortopédica que cobria o pé direito. O médico da emergência havia dito que não era fratura, mas o entorse era grave imobilização por três semanas. Não era exatamente o roteiro ideal para alguém sobrecarregada com prazos acadêmicos. Ela tentava se apoiar no corrimão da escada que dava acesso à sala de projetos tentando ignorar o incômodo no tornozelo. Tudo o que ela queria agora era chegar a sala, sentar, revisar as leituras e colocar o grupo adiantado no projeto. O lado positivo? Ela estava de bom humor. O acidente havia sido um susto, sim, mas no fundo ela estava grata de não ter se machucado pior. E, se fosse honesta, sem drama… Ethan tinha sido rápido. Assustadoramente rápido. Ela nem entendia como ele a alcançou tão antes do impacto. Mas não pensou muito nisso. Era só um professor que estava perto na hora certa. Acaso. Fim. Ela estava no meio da escada quando Ethan vinha subindo com alguns documentos na mão, blazer escuro, auréola de autoridade impecável como sempre. Elena estava concentrada demais tentando não cair para perceber de imediato a presença dele, mas ele a viu, e viu a bota. Ele subiu os últimos degrais para alcançar ela antes que conseguisse racionalizar, quase num reflexo. Não era parte do plano. Ele tinha prometido a si mesmo: distância. Mas quando chegou perto, a voz saiu antes da razão. — Morrison. Elena ergueu os olhos, surpresa. — Professor Hayes. Boa tarde O sorriso dela era simples. Gentil. Nada além disso. Mas para ele… foi demais. — O tornozelo… — a voz dele vacilou imperceptivelmente. — Estava pior do que parecia. — É — ela respondeu com leveza, dando de ombros. — Só um entorse forte. Três semanas com esse incômodo e já melhoro. As mão que se apoiava no corrimão tremia lentamente pelo esforço da subida ou talvez pela dor no tornozelo. Ethan notou. E isso bastou para acionar o instinto. — Me deixe ajudar — ele disse. Foi automático, rápido, quase íntimo demais. Elena piscou, confusa. Não porque sentiu algo… mas porque não esperava esse nível de gentileza. — Ah, não precisa, professor, está tudo bem. Já estamos chegando. Ele hesitou. O orgulho acadêmico dele implorava para dar meia-volta. A lógica gritava para não prolongar o contato. Mas os olhos dele se prenderam nos dela por uma fração de segundo e, por dentro, tudo desmoronou de novo. — Deixe me levar esses livros em segurança — ele disse, estendendo a mão para os livros, tentando transformar preocupação em racionalidade. Elena riu, um som leve, não provocativo, apenas espontâneo. — Está preocupado com os livros? — Estou preocupado com a forma como você quase caiu ontem — ele respondeu antes de pensar. O sorriso dela suavizou. Ela não percebeu o peso emocional escondido ali. — Ok. — E entregou os livros a ele. Aquilo não devia significar nada. E para ela, não significou. Mas para Ethan… foi o limite. O perfume dela, o toque breve quando os dedos se encostaram, a proximidade inevitável na caminhada curta até a sala, cada detalhe parecia um teste projetado para destruí-lo. Quando chegaram, Ethan colocou os livros com cuidado na fileira de mesa a frente. — Se sentir dor, vá à enfermaria. Há fisioterapeutas disponíveis para orientações. Não deixe piorar. — Vou fazer isso. — Ela sorriu de novo. Ele respirou fundo tentando se ancorar na expressão neutra que passara anos aperfeiçoando. Mas antes se virar em direção a mesa dele ao centro da sala Elena o chamou, não com i********e, nem com sentimento… apenas com curiosidade genuína. — Professor? — Elena disse, sincera. — Obrigada Ele se virou. O olhar dele era diferente, intenso sem intenção e Elena percebeu. Não soube nomear, mas percebeu. — Eu faria isso por qualquer aluno que precisasse - disse ele finalizando a conversa não dando chance para mais nada. Se afastou rápido demais, como quem foge de um incêndio. As horas seguintes foi uma tortura para Ethan, ela estava próxima demais e ele consciente demais da presença e do perfume dela. Ao fim da aula a sala estava quase vazia, Daniel ofereceu ajuda para Elena porém ela recusou com gentileza, sabia que a ajudar atrasaria Daniel para o seu treino de atletismo e não gostaria de ser um peso para ele naquele momento. Quando Daniel fechou a porta atrás de si Elena já estava na metade do caminho para a saída, Ethan fingia terminar sua anotações em seu laptop, mas estava consciente demais dos movimentos dela. Elena cambaleou com dor e Ethan prontamente a segurou. Os corpos se inclinaram um para o outro. ELena sentiu a mão de Ethan tocar sua cintura leve, incerta, quase não existindo, mas queimando mais do que qualquer toque real. Eles estavam a centímetros. Os lábios dela entreabertos. Os dele também. A respiração dos dois se misturando. Ethan aproximou o rosto, devagar demais, como se quisesse dar a ela tempo para recuar mas Elena não recuou. Os lábios se aproximaram mais e mais até a distância ser uma fração do impossível. Então Ethan parou. Um som quase inaudível escapou da garganta dele, frustração, dor, fome. Ele encostou a testa na dela, como se sustentar o próprio autocontrole custasse cada fibra do seu corpo. — Eu não posso — ele sussurrou, a voz partida. — Meu Deus, eu quero. Mas eu não posso. Elena não afastou a testa. Não afastou o corpo. Só fechou os olhos, tentando entender o que estava acontecendo ali. — Eu estou enlouquecendo — a voz dele tremia. — Por que parece que você quer tanto quanto eu? Elena não confirmou nem negou, ela não sabia a resposta para aquela pergunta. Ethan agarrou o controle outra vez, mas pelas beiradas. O polegar na cintura dela endureceu, como se ele quisesse puxá-la mais e estivesse se proibindo. Um silêncio que doía tomou conta da sala. Ele afastou o rosto milímetros, como se o mínimo afastamento fosse uma tortura, mas o máximo fosse impossível. — Se eu te beijar agora… — continuou — eu não vou conseguir parar. E não existe nada nesse mundo que torne isso certo. Ethan respirou fundo, mas a respiração falhou. Ele finalmente soltou a cintura dela. Devagar, como se desfazer do toque fosse um ato físico e doloroso. — Vai… antes que eu estrague tudo. Ela ficou parada, sem responder. Não conseguia se mover. Só quando ele deu um passo para trás, o mais difícil que ele já deu ela andou até a porta de vagar parou com a mão na maçaneta tentando manter o equilíbrio Não olhou para trás, mesmo assim, ouviu a respiração dele. E a frase que ele deixou escapar — Você vai ser minha destruição. Elena fechou os olhos. E saiu. Mas nenhum dos dois respirou direito depois disso. Na quarta feira, Elena percebeu antes de qualquer palavra ser dita. Ethan estava diferente. Não como na primeira semana, quando eles ainda eram apenas professor e aluna, quando tudo era neutro. Agora era outra coisa uma distância forçada, estudada, calculada. Ele entrou na sala sem olhar para nenhum aluno em particular, mas foi impossível não notar o esforço com que evitou os olhos dela. — Bom dia — disse, profissional demais, voz rígida demais. Elena sentiu um aperto automático no peito. A memória do quase-beijo ainda queimava nela, nítida, viva demais, como se tivesse acontecido cinco minutos antes. Ethan começou a aula de forma impecável, objetiva. Corrigia análises, esclarecia dúvidas, escrevia no quadro tudo exatamente como ele deveria fazer. E ainda assim… havia falhas. Sempre que o olhar dele, sem querer, esbarrava no dela, ele desviava rápido demais. Naquela dia ela não fez nenhuma pergunta, não queria chamar atenção para sí. Ela sabia por quê ele estava distante e isso a deixava desconfortável. Quando a aula terminou, os alunos começaram a arrumar seus materiais. A confusão de vozes e cadeiras arrastando encheu o ambiente… até que tudo diminuiu de novo. Só Elena e Ethan pareciam parados no tempo. Daniel se aproximou da mesa dela com naturalidade. — Elena, precisa de ajuda para chegar a próxima aula? — perguntou, sorrindo como se a proximidade dela fosse a coisa mais natural do mundo. Ela não teve tempo de responder. Porque, naquele instante, ela viu. Ethan ouviu. E por um segundo, um único segundo o controle dele se rompeu. O maxilar travou. A mão no quadro ficou tensa. Ele virou ligeiramente o rosto, escutando a conversa apesar de fingir estar ocupado. — Obrigada Daniel mas vou voltar pro dormitório agora, preciso de um momento de descanso — respondeu Elena, num tom neutro. - Poderia fazer as anotações para mim por favor? Daniel sorriu, satisfeito. — Passo no seu dormitório para deixar as anotações depois. Poderia enviar no e-mail mas vou usar como desculpa para te ver. Elena riu com a provocação dele. E quando ele se afastou ela ficou novamente sozinha com Ethan. Mesmo assim, ele não olhou para ela. Pegou seus materiais, fechou o laptop e ajustou a aliança que a muito tempo não existia mais no dedo, um gesto automático de quem procura amparo onde não existe. Quando finalmente falou, a voz estava cuidadosamente controlada. — Sua análise no último capítulo está muito boa. — Ele não se aproximou. — Continue nesse caminho. Elena engoliu seco. — Minha análise? Ele hesitou por menos de um segundo, e nesse segundo ela viu tudo: a luta interna, o desejo, o medo, a culpa, a vontade de mantê-la próxima e a necessidade desesperada de afastá-la. E então ele ergueu as barreiras outra vez. — Sim. A palavra caiu como um golpe. Ela assentiu, fingindo que não havia nada dentro dela desmoronando. — Certo. Até a próxima aula, professor Hayes. A palavra professor foi propósito puro para lembrar a ele do limite. Mas também machucou nela. Elena caminhou rápido de mais em direção à porta, o tornozelo reclamou e ela gemeu de dor, mas ela se manteve firme Ethan fechou os olhos e apoiou as duas mãos na mesa, respirando fundo como se precisasse impedir o próprio corpo de correr atrás dela, mas perdeu a batalha para sí mesmo. Ele a alcançou antes que ela abrisse a porta, girou ela a encostando na porta impedindo assim que alguém entrasse ali, segurou o rosto dela com as duas mãos, seus olhos continha uma intensidade, refletia todo o desejo contido que vinha de todas as noites em que tentou não pensar nela, Elena tinha o mesmo olhar, igual entrega, ela segurou a camisa dele como se o próprio ar dependesse daquilo, antecipando o beijo. Era proibido. Era errado. Mas parecia inevitável. Os lábios estavam novamente a mililitros de distância, e mais uma vez a realidade os atingiu como um soco. Ethan foi o primeiro a se afastar negando aos dois aquele beijo. Havia desejo nos olhos dele. Culpa. Dor. Um pedido de desculpa silencioso por quase ter perdido a cabeça novamente. — Isso… não pode acontecer — conseguiu dizer, mais para si do que para ela. Elena não respondeu. Os olhos estavam marejados tentando entender o que estava acontecendo ali, em como correspondeu com tanta facilidade e desejo de ser beijada por ele. Ela saiu primeiro. Ethan ficou sozinho, com o coração batendo tão forte que doía. Awueme momento que nunca deveriam ter acontecido novamente se tornou o momento impossível de esquecer. E nada seria igual depois disso.
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