CAPÍTULO 5 — O toque na tempestade

1886 Words
A quarta-feira amanheceu com o céu pesado de Boston, como se a cidade inteira soubesse que algo estava prestes a mudar. Ethan acordou antes do despertador, inquieto. Os dias anteriores havia sido um exercício de negação negou para si o quanto pensou em Elena, negou a lembrança do brilho dos olhos dela na biblioteca, negou a vontade que teve de prolongar aquela conversa. Ele não podia ter permitido aquele momento fora da sala de aula. Estava decidido: hoje restabeleceria os limites. A partir de agora, distância. Frieza. Controle absoluto. Era para o bem dos dois. Ele se vestiu com precisão militar: camisa social cinza, relógio, blazer escuro. Nada fora do lugar. Se o mundo interno estava uma confusão, pelo menos o externo continuaria impecável. Chegou cedo ao campus. O anfiteatro ainda estava vazio, fileiras em semicírculo, mesas brancas, cadeiras com apoio acolchoado, o painel de vidro mostrando a manhã nublada lá fora. Ali era sua zona de autoridade. Ali ele tinha o domínio. Ali ele podia m***r a fraqueza. Quando os primeiros alunos entraram, ele manteve os olhos fixos no laptop mas o corpo reagiu antes da mente. O perfume dela. Sutil. Floral. Um convite involuntário. Ele não olhou imediatamente, mas sabia. A respiração errou o ritmo por milésimos recuperou rápido o bastante para parecer natural, tarde demais para ser confortável. Elena passou pela fileira central e se sentou no lugar de sempre. Cabelos longos castanhos claros caindo sobre os ombros, notebook já aberto, dedos preparados no teclado. Não havia provocação, nem tentativa de chamar atenção. E talvez isso fosse exatamente o problema, a beleza dela era inevitável, natural, não buscava nada… e ainda assim prendia tudo. O relógio marcou o início da aula, e Ethan falou: — Bom dia. A voz saiu firme, controlada até o limite. Ele não olhou para ninguém em particular. Não olhou para ela. — Hoje trabalharemos métricas avançadas de comportamento do consumidor — anunciou, trocando o slide. — O material está disponível no sistema desde ontem. Quem não leu, terá dificuldades. A sala se agitou discretamente. Elena não se intimidou apenas começou a digitar com atenção, rápida, organizada, ágil. O som levemente ritmado das teclas do notebook dela parecia mais alto do que tudo no anfiteatro. Ele começou a andar entre as fileiras, explicando os gráficos. Cada vez que passava perto dela, a consciência do perfume voltava como golpe sensorial e ele precisava se concentrar nas projeções para manter a voz estável. Quando terminou a parte teórica, anunciou: — Agora vamos realizar um trabalho prático. Atividade em dupla. Escolham um parceiro. A reação foi imediata, alunos se levantando conversas surgindo, risadas. A juventude organizando pares com facilidade. E então aconteceu o inevitável. Mal começou o burburinho e um aluno Daniel, do time de atletismo, popular, bonito, humor fácil se levantou e foi direto até Elena. — Morrison — chamou com um sorriso confiante. — Quer ser minha dupla? Elena ergueu os olhos com surpresa momentânea seguida de um sorriso leve. — Claro — respondeu. Foi natural. Foi educado. Foi normal. Mas Ethan sentiu como se algo tivesse sido arrancado do lugar dentro dele. O instinto de posse, irracional, perigoso, veio rápido demais. Como se outra pessoa tivesse segurado o peito dele por dentro e apertado com força. Ele disfarçou com perfeição rosto neutro, postura controlada, mas o sangue pulsou nos ouvidos e o estômago se contraiu em um reflexo primitivo que ele não reconhecia em si há muitos anos. Ridículo, ele disse a si mesmo mentalmente. Sua obsessão por uma aluna, chega a ser patético. Mas saber não impedia sentir. Elena e Daniel começaram a analisar o case no notebook dela, e por alguns minutos Ethan acreditou que conseguiria ignorar. A cada gargalhada descontraída do colega, a cada inclinação do corpo dele para olhar a tela de Elena, algo apertava por dentro silencioso, inconfessável, vergonhoso. Ninguém percebeu. Nem por um segundo. Ele era bom demais em esconder. O céu escureceu antes mesmo do fim da aula tingindo o campus com um cinza pesado. Do lado de fora das grandes janelas da sala gotas grossas começavam a riscar o vidro com violência crescente. Lá dentro, o alunos tentavam ignorar o barulho da chuva enquanto discutia ideias. Ethan fingia concentração, mas sua mente insistia em trair a própria razão. Cada vez que Elena falava, ele se pegava assistindo não ouvindo. A forma como ela prendia o cabelo com um lápis, como franzia o nariz ao discordar de algo, como seu entusiasmo aparecia quando um argumento fazia sentido. Ele odiava o efeito que ela tinha nele. Odiava, porque não poderia sentir nada disso. E Elena? Para ela, aquela era apenas mais uma aula, não havia nada de especial, nada de perigoso. Ethan era só o professor respeitado, inacessível. Ponto final. Mas o destino não estava interessado em limites naquela manhã. Quando o professor decidiu encerrar mais cedo por causa da tempestade, o corredor principal estava à meia-luz. Parte do campus havia perdido energia, e os alunos tentavam sair antes que a chuva piorasse. Elena caminhava rápido, segurando o notebook contra o peito. Um trovão rompeu o ar, fazendo o chão vibrar, e ela se assustou, o salto da bota escorregou na poça que se formava no piso molhado. O tombo foi inevitável. Só não foi doloroso porque Ethan estava perto demais. Ele a segurou antes que atingisse o chão, um braço firme em sua cintura, o outro estabilizando sua mão. Foi um gesto instintivo automático como se o corpo dele já soubesse exatamente o que fazer. A respiração de Elena ficou presa por um segundo, mais pelo susto do que pelo toque. Ela piscou, tentando entender o que havia acontecido. — Você está bem? — a voz dele saiu baixa demais, rouca demais. Ela assentiu, mas tentou recuperar o equilíbrio sozinha. Tarde demais o tornozelo já protestava. — Estou bem - tentou apoiar o pé no chão mas o tornozelo não sustentou — Não finja força — Ethan respondeu, sério. — Você está com dor. Não era uma ordem dita como professor. Era preocupação pura e inesperada. Elena mordeu o lábio, contrariada. Ele estendeu a mão. Não pediu, não forçou. Apenas ofereceu. Por um instante, o mundo ficou reduzido ao barulho da chuva, ao cheiro de terra molhada entrando pelas portas abertas e à distância minúscula entre os dois. Elena colocou a mão na dele apenas para se apoiar. Mas para Ethan, o toque foi choque. Um raio silencioso atravessando o corpo. Ele a ajudou a caminhar até um banco próximo. O contato era mínimo, apenas necessário… mas cada centímetro significava demais para ele. Quando Elena finalmente se sentou no banco de madeira, respirou aliviada. — Obrigada. Você foi rápido — ela sorriu, grata, simples, genuína. E isso o destruiu completamente. Porque ela não fazia ideia do que estava causando. — Sempre que precisar — ele respondeu antes de pensar. E se arrependeu no segundo seguinte. Eles ficaram ali, ouvindo a tempestade sem olhar um para o outro, ela porque estava distraída pelo incômodo no tornozelo, ele porque tinha medo do que poderia ver se encarasse direto aqueles olhos verdes. Quando a chuva perdeu força, Elena se levantou com cuidado. — Acho que já consigo caminhar. Obrigada professor. — Certo. Me avise se precisar de uma carona — escapou dele, espontaneamente. Ela piscou, surpresa. Não era um pedido típico de professor. Mas ela não viu aquilo como interesse, só como atenção. — Não será necessário. Meu dormitório é aqui no campus. E foi embora. Ethan permaneceu parado, observando a porta por onde ela desapareceu. O corpo ainda lembrava do toque. A mente gritava para esquecê-lo. Ele fechou os olhos e sussurrou para si mesmo, derrotado: — Isso não pode acontecer. Mas já estava acontecendo. O relógio marcava 16h47 quando a reunião começou, e o andar inteiro da Hayes Global Innovation tinha o ritmo elétrico de sempre. A mesa oval de vidro refletia o brilho dos monitores, os diretores alinhavam previsões de mercado, gráficos, projeções agressivas para o próximo trimestre. Mas Ethan Hayes o homem que normalmente comandava tudo com precisão cirúrgica estava fora de sintonia. Sentado à cabeceira, ele parecia presente. Estava com as mãos entrelaçadas, postura perfeita, olhar fixo nas apresentações. Só que sua mente estava em outro lugar. — Como discutimos, se conseguirmos fechar o contrato internacional ainda este mês, nossa expansão para o Japão será antecipada para começou o diretor de operações. Ethan ouviu. Mas não processou. Sem aviso, a lembrança voltou vívida, sensorial. O corpo de Elena caindo, o som da chuva contra o concreto, a respiração dela presa no susto, o instante em que os dedos dele fecharam firme em sua cintura. Ele sentiu de novo. A força involuntária com que a puxou para perto para protegê-la. O calor do corpo dela contra o dele. A certeza imediata e devastadora de que queria tê-la beijado naquele momento. — Senhor Hayes? — alguém chamou. Ele piscou, retomando o foco como se tivesse emergido debaixo d’água. — Continue — ele respondeu com voz neutra, rígida demais. Os diretores voltaram ao relatório, aliviados por não terem irritado o CEO. Ethan ajeitou a caneta entre os dedos, tentando prender o pensamento com lógica. Ridículo, ele repetiu para si. Ela é uma aluna, apenas uma aluna. Mas a memória vinha como sabotagem emocional todos os detalhes que ele preferia esquecer: A mão dela segurando o braço dele para se equilibrar. O perfume floral que encostou em sua pele. O sorriso grato, inocente, depois do susto. A confiança sem esforço… como se ele fosse simplesmente alguém em quem se podia confiar. Alguém que não representava perigo. — Devemos iniciar o piloto de teste na sexta-feira — outro diretor avisou. Sexta-feira. A palavra atingiu Ethan como um gatilho involuntário não por causa do negócio, mas por causa do projeto da universidade. A segunda reunião do grupo seria… sexta. Ele tinha evitado pensar nisso desde que a deixou no campus. E fracassado em todas as tentativas. Sentiu o maxilar tensionar. Não queria vê-la. Precisava vê-la. A dicotomia o corroía em silêncio a urgência que ele não admitiria nem sob tortura. Não era paixão. Não era amor. Era algo mais primitivo, mais perigoso: a necessidade de estar perto, mesmo que apenas para sofrer. — Senhor Hayes…? — chamou novamente o diretor de operações. Ethan percebeu que estavam esperando a validação dele. Ele endireitou a postura, recuperando o tom que fazia investidores tremerem. — A expansão internacional só avança se o relatório estiver finalizado até amanhã. Ponto. — disse, frio e preciso. Os diretores concordaram, anotaram, prosseguiram. A sala continuou falando de lucros, logística, tecnologia, bilhões. Mas dentro dele, só havia quinta-feira sendo arrastada pelo calendário até sexta, o dia em que ela entraria na sala do campus e sentaria a poucos metros dele. O dia em que ele teria de agir como se nada estivesse acontecendo. Ele respirou fundo, silenciosamente, como se estivesse se preparando para um combate. Porque era disso que se tratava. Ethan sabia que podia dominar cidades, contratos, mercados, tudo. Mas temia profundamente não ser capaz de dominar a si mesmo. E quando a reunião finalmente acabou, ele ficou sentado sozinho, mãos ainda fechadas em punhos, encarando o próprio reflexo no vidro escuro da sala. — Controle — murmurou para si, com a voz mais baixa e ameaçadora do que pretendia. — Controle, Hayes.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD