Elena estava no dormitório naquela quarta feira a noite revisando os últimos detalhes do projeto que apresentaria na próxima semana quando o celular vibrou duas vezes seguidas.
Ela desbloqueou sem pensar muito.
MÃE
Amor, que horas seu voo chega amanhã?
Seu pai está querendo saber para ir te buscar. ❤️
O coração dela falhou uma batida.
Voo.
Ação de Graças.
Casa dos pais.
Ela tinha comprado a passagem meses antes.
Antes de Ethan.
Antes do caos.
Antes de tudo.
Por um segundo, só um segundo, o mundo girou rápido demais.
Ela tinha esquecido completamente.
Ela digitou a resposta para a mãe e apertou enviar:
Chego 14h05.
Mal vejo a hora de ver vocês. ❤️
Ela colocou o celular na mesa. Luna percebeu na mesma hora o semblante da amiga mudar.
— Notícias ruins? — Luna perguntou com cuidado.
Elena respirou lento, tentando organizar os pensamentos.
— Não… não ruins. Só… inesperadas. Eu esqueci do feriado prolongado na casa dos meus pais.
Luna abriu um sorriso compreensivo.
— Então vai ser ótimo pra você. Casa, família, comida, descanso. Você precisa disso.
Elena sorriu de volta… mas parte dela estava apertando de um jeito que Luna percebeu sem nenhum esforço.
— Você não quer ir por causa dele — Luna concluiu, com a voz suave.
Elena não confirmou, mas também não tentou negar.
Mais tarde Ethan estava sentado no sofá do apartamento com o notebook no colo quando o celular tocou.
- Ethan - a voz dela veio num susurro
— O que aconteceu? — a voz dele veio calma, mas firme.
Elena respirou fundo antes de falar.
— Amanhã é Ação de Graças.
O ar ficou parado entre os dois.
— Eu comprei a passagem antes de tudo — ela continuou. — Meus pais já estão esperando. Eu sinto falta de casa.
Nenhum dos dois falou por alguns instantes.
Não havia briga, não havia acusação.
Só uma verdade que precisava ser dita, ainda que doesse.
Ethan se não falou nada por alguns segundos, processando.
— Quanto tempo você vai ficar? — ele perguntou.
— Até domingo — ela respondeu, quase num sussurro.
Ele inspirou fundo, exalando com uma espécie de aceitação resignada.
— Você precisa ir — ele disse, com a convicção de quem amava de verdade. — Seus pais merecem você. E você merece paz mesmo que seja longe de mim por alguns dias.
O chão de Elena quase cedeu.
— Eu não estou indo pra fugir — ela disse com firmeza. — Nem pra apagar o que a gente tem. Eu só preciso recarregar. E quando eu voltar…
A voz dela ficou baixa, sem tremor, sem incerteza:
— ...eu volto pra você.
Algo dentro de Ethan derreteu.
Ele sorriu não forçado, não triste, não confuso.
Um sorriso cheio de amor, e só amor.
— Você não me deve nada, Elena — ele murmurou, tocando o queixo dela com o polegar. — Mas obrigada por voltar pra mim. Eu estarei lá quando o avião pousar te trazendo de volta.
Ela não chorou.
Mas sentiu a garganta fechar com o peso doce da saudade antecipada.
Ethan sentiu a tensão dela mesmo a distância.
— Liga pra mim quando estiver lá. Não importa a hora. Nem onde. Eu só quero ouvir sua voz.
Elena sorriu com a mesma ternura.
— Prometo.
O aeroporto estava cheio, mas Elena caminhava como quem se desloca em duas realidades distintas: o corpo ali, o coração em outro lugar.
Luna a ajudou com a mala até a entrada, abraçando-a forte antes de se despedir.
— Você merece descansar, amiga. — Luna sussurrou. — E quando voltar, a gente enfrenta qualquer tempestade juntas.
Elena assentiu, respirando fundo.
Não estava fugindo estava apenas indo viver uma parte da vida que sempre existiu antes de Ethan.
Mas quando o avião decolou e a cidade ficou pequena pelas janelas, ela apertou a tela do celular com a foto do contato dele.
Não era saudade dramática era uma saudade bonita, que prova que existe amor.
Ethan, do outro lado da cidade, recebeu a mensagem assim que as rodas tocaram a pista de pouso:
> Pousou. Estou bem. Já sinto sua falta.
Ele fechou os olhos por um instante antes de responder:
> Volta logo.
Elena se reencontrou com o cheiro da casa, com o riso da mãe, com o abraço forte do pai, só então percebeu o quanto sentiu falta da casa, de p******o, do amor e da simplicidade que era estar ali com os pais.
O jantar de ação de graças correu tranquilo, ela falou da universidade, das aulas, dos amigos tudo verdadeiro, mas com uma lacuna luminosa que ela não podia compartilhar Ethan, mas durante os agradecimentos agradeceu em silêncio por ter ele em sua vida mesmo dentro do caos que se transformou os últimos dias.
Depois do jantar, ficou no quintal deitada na rede, ouvindo os grilos e o vento.
Era fácil ali, era leve, mas algo dentro dela pulsava com urgência.
O celular vibrou.
> O dia foi longo sem você.
Ela mordeu o lábio, segurando o sorriso.
> Aqui está tudo bem, mas não tem você.
Durante o resto da noite, tentou fingir normalidade conversou, ajudou na cozinha, assistiu filme com os pais.
Mas às vezes se pegava olhando o céu como quem espera uma mensagem cair de lá.
Ele passou o feriado sozinho, recusou convites educados, entregou-se à rotina que sempre dominou com facilidade trabalho, relatórios, leitura.
Mas tudo parecia menor sem ela.
No sexta à tarde, ele saiu para correr, como sempre fazia.
Só que quando passou próximo ao lago aquela lembrança do fim de semana na casa de campo golpeou: ela caminhando ao lado dele, rindo do vento e segurando a mão dele sem medo.
O peito apertou.
Como é possível sentir falta de alguém que você só conheceu de verdade há tão pouco tempo?
Como é possível ela ter entrado na sua vida tão profundamente tão rápido?
Ele sentou-se num banco, olhando a água imóvel do lago, e só então aceitou o pensamento que estava tentando evitar:
Ele estava apaixonado.
Não se envolvendo, não gostando muito, não curtindo a novidade.
Amando.
Sem aviso.
Sem p******o.
Sem chance de voltar atrás.
E pela primeira vez desde que a conheceu, Ethan sentiu medo, não do relacionamento, mas da força do que sentia.
E sentiu outra coisa também: certeza.
Elena já estava deitada no quarto de infância quando ligou para ele por vídeo.
Ambos sorriram antes mesmo de dizer qualquer palavra.
— Não consigo fingir que não sinto sua falta. — ela confessou, com o rosto meio escondido no travesseiro.
— Também não consigo. — ele admitiu, com a voz baixa, quase vulnerável.
Não precisaram conversar por horas.
A ligação ficou aberta enquanto falavam de coisas simples o filme que os pais estavam vendo, o contrato que Ethan estava revisando, uma recordação engraçada da infância dela.
E quando o sono começou a vencer, ela murmurou:
— Fica comigo até eu dormir?
— Sempre.
Ela adormeceu em paz.
Ele continuou olhando para ela por alguns minutos antes de sussurrar, quando tinha certeza de que ela não ouviria:
— Eu te amo.
E então encerrou a chamada.
O café da manhã no sábado foi cheio de risadas. O pai contava histórias de quando ela era pequena, a mãe reclamava do frio chegando cedo demais naquele ano e Elena sorria, mas havia algo inquieto no fundo do olhar, como se ela estivesse ali e longe ao mesmo tempo.
A mãe percebeu.
Ela sempre percebeu tudo.
Quando terminaram de arrumar a cozinha e o pai saiu para pegar o casaco no quarto, a mãe se aproximou devagar, apoiando a mão na costa de Elena.
— Você está feliz — disse com suavidade, não como uma pergunta, mas como uma certeza.
Elena piscou, surpresa.
— Estou.
— E com saudade — a mãe completou, sorrindo de canto. — Daquele alguém de quem você não falou o fim de semana inteiro.
O sangue subiu ao rosto de Elena na mesma hora.
— Mãe eu não falei de ninguém.
— Justamente por isso — a mãe respondeu, com carinho. — Quando a gente está empolgada com um paixão a gente fala sem parar. Quando é amor a gente cala, porque tem medo de estragar dizendo em voz alta.
Elena engoliu em seco, tomada pela vulnerabilidade inesperada.
A mãe continuou:
— Seus olhos falavam com quem quer que estivesse do outro lado do telefone. E os suspiros depois desligar…
Elena escondeu o rosto nas mãos.
— Meu Deus, eu estava tão na cara assim?
— Para mim, sim. Para qualquer outra pessoa, talvez não. — A mãe sentou ao lado dela. — Mas eu sou sua mãe, Elena. Eu conheço seu silêncio melhor do que a sua voz.
Elena sorriu, mas era um sorriso frágil.
— É complicado, mãe…
A mãe segurou sua mão.
— As melhores coisas geralmente são.
Elena respirou fundo. Algo dentro dela queria p******o, mas outro pedaço queria dividir o peso.
— Ele é mais velho — confessou, baixinho.
— Mais velho quanto? — perguntou com naturalidade.
Elena respirou fundo.
— Doze anos.
Silêncio por um segundo e então a mãe riu. Não de deboche. De compreensão.
— Doze anos não é um abismo, amor. Seu pai é oito anos mais velho do que eu, e olha nós aqui, vinte e seis anos depois. Idade nunca impediu o amor. — Tocou o rosto da filha com ternura. — O importante é se ele te faz feliz, se te trata com carinho, se está do seu lado.
Elena piscou, surpresa. Era como se esperasse julgamento e recebesse colo
Elena sentiu os olhos arderem.
— Ele me trata como se eu fosse preciosa. Como se eu fosse suficiente. Como se eu fosse tudo.
A mãe sorriu com o tipo de felicidade que só uma mãe sente quando o amor da filha é correspondido.
— Então é isso que importa.
Deu um beijo na testa da filha.
— Da próxima vez, traga ele para o Natal. Eu quero conhecer o homem que faz minha menina suspirar de madrugada escondido na cozinha.
— Mãe! — Elena riu, envergonhada e encantada.
— Não adianta negar — a mãe provocou, — Quando é amor, o mundo inteiro percebe mesmo quando a gente tenta esconder.
A frase ficou gravando no peito de Elena enquanto caminhavam até o carro para o aeroporto.
Era a primeira vez que contava para alguém sobre Ethan, mesmo sem contar toda história.
No domingo Elena acordou cedo para aproveitar mais pás últimas horas em casa, a leveza de estar ali em família, mas quando os pais a levaram ao aeroporto após o almoço, Elena já estava inquieta como se o corpo quisesse atravessar quilômetros correndo.
A mãe reforçou o convite para que ela não viesse sozinha para o Natal.
E quando o avião decolou e ela encostou a cabeça na janela, não pensou em boatos, nem em julgamentos.
Só pensou em Ethan.
No homem mais velho que fazia o coração dela parecer simples.
O homem que a esperava do outro lado do oceano de dias que agora se reduziam a minutos
No avião, escreveu uma mensagem para enviar quando pousasse:
Estou voltando para você.