Capítulo 13 — A Linha Que Não Deveríamos Cruzar

1090 Words
No fim da tarde de sexta Elena abriu a de presente e prendeu o colar no pescoço. Não porque precisava de um enfeite. Mas porque aquilo marcava uma escolha, uma escolha que ninguém poderia ver, mas que queimaria por dentro para sempre. A corrente do colar roçou na pele de Elena enquanto ela atravessava o corredor da sala de projetos. O diamante frio parecia queimar, como se carregasse todas as memórias da noite anterior e todas as consequências que poderiam vir. Não havia euforia. Não havia paz. Só intensidade. E o tipo de medo que nasce quando algo pode, finalmente, mudar tudo. Ela empurrou a porta, respirando fundo para impedir que o coração denunciasse o caos interno, falta a trinta minutos para o início da aula, mas Ethan estava ali, ereto, composto, cada linha do corpo rígida em controle absoluto. O mesmo homem que, dois dias antes, a beijara como se o mundo fosse desabar. Agora, ele parecia feito de aço. A colisão entre esses dois Ethan atingiu Elena num impacto mudo. Quando ela se aproximou da mesa, ele ergueu os olhos devagar. Nada em seu rosto traía urgência. Nenhum desespero. Nenhum arrependimento. Mas os olhos… os olhos queimavam. — Que prazer em vê-la Senhorita Morrison — ele disse, cada sílaba calculada. — É recíproco, professor Hayes — ela respondeu com a mesma firmeza. O silêncio que se instalou não era vazio era vivo, tenso, quase físico. Ethan levantou-se e cruzou os braços. Não invadiu o espaço dela, mas não precisava. Sua presença a atingia como gravidade. Elena respirou fundo e se aproximou até que um palmo apenas os separasse. — Obrigada pelo presente — sussurrou tocando o colar. O controle dele falhou por um segundo pequeno, mas real. — Combina com você — respondeu. Ele levantou a mão com cuidado, como se perguntasse permissão sem palavras, e tocou o diamante sobre o peito dela. O gesto não era de posse. Era reconhecimento. — Não significa que somos um casal — ela disse. — Não. Significa que talvez possamos ser nós — ele devolveu. O silêncio doeu mas doeu bonito. Então ela perguntou a única coisa que realmente importava: — Ethan… e se isso der errado? Ele segurou o rosto dela com as duas mãos com cuidado. — Aí eu sofro. E você também. Mas eu prefiro sofrer com você… do que viver fingindo que nada disso existe. A defesa de Elena ruiu na mesma hora. Ela fechou os olhos, respirou fundo e, quando abriu… já havia decidido. — Então vamos tentar. O som de vozes no corredor explodiu o instante. Ethan se afastou de imediato, retornando à mesa como se nada estivesse acontecendo. Elena caminhou até seu lugar e se sentou segundos antes da porta se abrir e todos entrarem. O resto da reunião aconteceu como se o mundo lá fora fosse normal. Mas nenhuma das duas mentes estava ali. Quando Elena saiu do campus após a aula o céu desabou de uma só vez. A chuva caiu pesada, violenta, empurrando os alunos para todos os lados. Ela correu até o estacionamento coberto, o corpo molhado, os braços abraçando a si mesma enquanto o frio mordia a pele. Encostou-se no pilar de concreto e fechou os olhos, tentando entender como a vida podia mudar tanto em tão poucas horas. Errado. Arriscado. Fatal. E impossível de evitar. Um farol cortou a escuridão da chuva. Um sedan preto se aproximou, freando diante dela. A porta do carona se abriu. Ethan estava lá, mãos no volante o olhar direto nela. Elena não se moveu. Talvez estivesse congelada de frio. Talvez de medo. Talvez de desejo. A voz dele veio baixa, rouca, quase um pedido, quase uma ordem. — Vem. Ele estendeu a mão. Ethan sabia que estava atravessando uma linha perigosa. Mas vê-la correndo na chuva despertara nele algo mais forte que prudência, pavor de perdê-la, de vê-la se machucar, de deixá-la enfrentar qualquer coisa sozinha. Elena hesitou. Segundos eternos. Depois deu um passo. Outro. E entrou no carro. Ethan fechou a porta com cuidado, como se guardasse algo precioso. A chuva martelava o teto enquanto ele dirigia, mas dentro do carro havia silêncio absoluto. Ele olhou para ela não com posse, não com fome mas como quem vê algo único. — Eu senti sua falta depois que você saiu — ele disse, incapaz de segurar. Elena engoliu, os olhos brilhando. — Eu também. — Vamos tirar você dessas roupas molhadas… depois eu te levo para casa — ele disse, mas a voz carregava desejo contido, à beira da ruptura. -Eu moro aqui no campus, só estava esperando a chuva passar. - Eu sei, mas eu precisava de uma desculpa para ter você por perto longe dos olhares do mundo. Ela não respondeu. Porque não precisava. Quando o carro entrou na garagem do prédio. Ethan desligou o motor. Não se moveu. Era como se cada fibra do corpo dele lutasse para fazer o certo… mesmo sabendo que já era tarde demais. — Eu sei que você sabe que não deveria estar aqui — ele disse. - Mas que não consegui seguir em frente quando te vi ali parada. — Eu sei — ela respondeu. - Eu também não deveria ter aceitado a carona, mesmo não precisando dela. Ele estendeu a mão e tocou um fio de cabelo molhado no ombro dela. Elena fechou os olhos. Aquele toque foi pequeno demais para significar tanto, mas significava. — Se você disser agora que quer ir embora… eu não vou impedir — ele afirmou, com honestidade devastadora. — Mas se você ficar, Elena… eu não vou conseguir ser só seu professor. Ela abriu os olhos devagar. Ele estava sendo real, sem máscara, sem controle, sem p******o. E ela estava cansada de fugir do que sentia. — Nós passamos desse limite há muito tempo — disse, a voz trêmula, mas firme. Ele fechou os olhos. Como quem se rende. E então, quando se inclinou lentamente para ela, a chuva caindo lá fora, como se o mundo tentasse lembrar os dois de todas as consequências, Elena o puxou e o beijou primeiro, uma escolha consciente, sem impulso, sem desculpa. — Eu quero ficar — ela sussurrou entre os lábios dele. Foi aí que Ethan perdeu o ar. Foi o golpe final. Ele inspirou fundo, como quem sente o corpo ceder. — Então vem. E antes mesmo de se moverem, antes do toque, antes de qualquer beijo… Elena já sabia que tinha escolhido. E que ele também. E o mundo lá fora não tinha mais força para detê-los.
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