O céu ainda estava escuro quando o carro esporte prata estacionou discretamente atrás do bloco residencial do campus. O motor silencioso contrastava com o coração acelerado de Elena.
Ethan desligou o veículo e ficou alguns segundos em silêncio, apenas olhando para ela como se o tempo tivesse sido c***l em avançar tão rápido.
— Tem certeza de que quer entrar agora? — ele perguntou, a voz baixa, quase um pedido.
Elena sorriu com doçura.
— Se eu esperar até amanhecer, alguém pode nos ver chegando juntos. Assim é mais seguro.
Ele assentiu, mesmo detestando a ideia de deixá-la ali, sozinha, como se o fim de semana perfeito tivesse sido só um sonho escondido da realidade.
Ela apertou a mão dele.
— Foi o melhor fim de semana da minha vida.
Ele levou a mão até o rosto dela, acariciando de leve.
— Elena… eu nunca quis um fim de semana não acabasse tanto quanto esse.
Os olhos dele diziam tudo: medo de perder, medo de machucá-la, necessidade de protegê-la do mundo.
Ela abriu a porta, já estava virando para sair quando ele a segurou com delicadeza pelo pulso.
— Me manda mensagem assim que estiver dentro do dormitório. Eu só vou conseguir respirar quando souber que você está bem.
Ela sorriu, cúmplice.
— Eu vou. E você… vá embora antes que alguém veja seu carro.
O beijo que trocaram não foi longo. Foi urgente. Silencioso. Cheio de despedida.
Elena se afastou sem olhar para trás. Se olhasse, não teria forças para entrar.
Ethan só deu partida quando a viu atravessar a porta do prédio.
O dormitório estava silencioso. Elena esperava entrar discretamente, mas Luna estava sentada na cama, acordada, braços cruzados, expressão entre preocupação e alívio.
— Você me assustou. — a amiga respirou fundo. — Mas eu não vou bancar mãe. Você está bem?
Elena sorriu, cansada e feliz.
— Eu estou bem. Muito bem.
Luna arqueou as sobrancelhas com provocação.
— Não vou perguntar detalhes. Só… estou feliz por você.
Daniel apareceu na porta do quarto, com camiseta de dormir e uma escova de dentes na mãos.
— Eu ouvi vozes. Está tudo bem?
Luna respondeu antes de Elena:
— Está. Elena voltou e você precisa ir.
Ele sorriu.
— Já me expulsando.
— Não reclama, já teve o seu fim de semana — Elena respondeu rindo
Eles se despediram e Elena entrou no banho, tentando relaxar a saudade que já apertava o peito.
As aulas ainda não tinham começado, mas os corredores já ferviam de vida. Elena percebeu os olhares rápidos demais para serem inocentes, lentos demais para serem casuais.
Duas garotas conversavam perto dos armários. Elas não sabiam que Elena estava atrás, pegando livros.
— A fulana viu ela chegando de carro de luxo, segunda bem cedo.
— Deve ser um s*********y.
— Ou alguém pagando a faculdade.
— Els sumiu o fim de semana todo — e voltou muito… feliz.
Risadinhas.
Elena continuou andando com calma, não deu a elas o prazer de reação. Respirou fundo e seguiu seu caminho.
Luna e Daniel só entenderam que algo estava errado quando Elena sentou à cafeteria com um sorriso treinado — daqueles que acalmam todo mundo, menos quem o usa.
— O que está acontecendo? — Luna sussurrou.
— Nada que valha nossa energia. — Elena desviou o assunto.
Mas o brilho dos olhos dela não era mais leve. Era resistência.
Quarta-feira - O campus — 7h30
Ethan entrou no campus com o carro conservador, o carro de professor pronto para uma rotina normal.
Mas bastou atravessar o corredor da faculdade para ouvir trechos soltos de conversas:
— A aluna do terceiro ano.
— Sumiu o fim de semana inteiro.
— Chegou de carona de um carro de luxo.
— Deve estar sendo sustentada.
O sangue dele gelou.
Não sabiam quem era ele.
Mas estavam falando dela.
Falando com crueldade.
Ele continuou andando, mas o maxilar travou. Tudo nele gritava para defendê-la. Para parar ali e dizer:
Ela não merece isso. Ela não fez nada de errado. Ela está comigo.
Mas se falasse a arruinar ia.
Elena caminhava para a sala de aula tentando s e manter firme para encontrar com Ethan, a essa hora ele já devia ter ouvido alguns boatos. Ao subir as escadas o primeiro comentário do dia veio sutil, com duas garotas cochichando perto da escada. Depois mais dois alunos olhando na direção dela e engasgando risadas.
Ela fingiu não ouvir.
Até que uma frase se tornou alta demais para ser ignorada:
— Ela chegou num carro que vale mais do que o dormitório inteiro juntos.
— Claro… dizem que encontrou um patrocinador.
Elena parou por um segundo — o sangue gelando nas veias.
Patrocinador.
A palavra cravou.
Luna apareceu exatamente nesse momento, colocando um braço protetor nas costas da amiga.
— Continue andando — ela sussurrou. — Eles não merecem sua reação.
Daniel surgiu logo depois, irritado, o olhar vasculhando o corredor.
— Se eu descobrir quem começou essa m***a…
— Não vale a pena, Daniel — Elena disse baixo, sem ânimo para brigas.
— Você é minha amiga — ele rebateu. — Pra mim sempre vale a pena.
Sala dos professores — 7h45
Ethan estava revisando slides da aula quando duas professoras entraram conversando em voz baixa.
— …e ainda teve gente dizendo que ela apareceu com um celular novo e caro um dia pro outro após o tal assalto.
— E com um notebook caríssimo também segundo o pessoal da turma dela.
— Alguém com boa alma está bancando a menina… ou algo pior, se é que me entende.
As duas riram discretamente.
Ethan congelou.
A cadeira foi empurrada para trás antes que ele percebesse. Ele deixou a sala quase sem ar o corredor parecia estreito demais, o coração batendo tão alto que abafava os sons ao redor.
Ele se sentia impotente, a quanto tempo aqueles boatos estavam acontecendo e porque ela não havia falado com ele?
Elena estava sendo ferida… e ele não podia defendê-la.
Não podia atravessar o campus, pegá-la pela mão e dizer a todos o que ela significava para ele.
Não podia olhar nos olhos dos alunos e dizer:
**Ela não é bancada.
Ela não é interesseira.
Ela é o amor da minha vida.**
Mas se fizesse… destruiria tudo para ela.
Sala de aula - 8h00
Quando ele entrou na sala, Elena já estava lá. Os olhos dela se levantaram devagar, encontrando os dele.
O sorriso era mínimo, educado, profissional.
Mas só ele percebeu a verdade por trás da máscara:
Ela estava sangrando por dentro.
E ele não podia protegê-la.
O mundo parecia prestes a explodir entre eles. Naquele dia ela não fez perguntas, tentou se manter o mais invisível possível, e assim que o relógio marcou o fim da aula ela se levantou e saiu antes de todos.
Biblioteca — 11h40
Elena tentava estudar na biblioteca, Luna e Daniel ao lado para afastar olhares invasivos.
Ainda assim, as vozes continuavam ecoando.
— Se eu fosse bonita assim também arranjava um milionário.
— Mas isso é mérito dela? Ou do corpo?
A mão de Elena tremia. Daniel queria levantar e socar alguém. Luna já chorava de raiva silenciosa.
E foi ali que o celular de Elena vibrou.
Ethan
Elena, está tudo bem?
A respiração dela falhou. Os olhos encheram.
Ela digitou rapidamente:
Estou lidando. Não quero se preocupe.
A resposta dele veio instantânea:
Eu me preocupo. Você é a minha razão.
E então:
Se eu for até aí agora, piora.
Se eu ficar longe, dói.
Só me diga o que você precisa que eu faça. Eu faço qualquer coisa.
Elena fechou os olhos respiração trêmula.
E respondeu:
Fique. Não apareça. Só me deixe ficar forte.
Silêncio por alguns segundos.
Então:
Eu estou aqui. Mesmo se ninguém puder ver.
Ela sorriu, mas o sorriso foi fraco.
Porque naquele exato momento, alguém em uma mesa próxima disse alto o suficiente para todos ouvirem:
— Ela não parece com cara de quem precisa estudar. Deve estar ocupada demais aproveitando a vida de amante.
O barulho do celular de Luna bateu na mesa com força quando ela se levantou.
— CHEGA! — ela explodiu.
E antes que a situação virasse uma briga, Daniel segurou Luna e colocou o corpo entre Elena, Luna e os colegas.
— Ela não está sozinha — ele disse, frio e firme.
Do outro lado da cidade — 14h02
Ethan estava parado no estacionamento da empresa, encarando o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Ele não entrava.
Não respirava direito.
Não pensava em números, contratos ou reuniões.
Só em Elena.
E no fato de que, pela primeira vez desde que se aproximaram, ele percebia:
O amor que os fortalecia em segredo agora começava a machucá-los em público.
E a pergunta, sufocante, inevitável, apareceu:
Se o mundo continuasse atacando Elena qual seria o preço para mantê-la?
E qual seria o preço para deixá-la?