A sexta-feira começou com uma sensação de derrota antes mesmo de o sol subir.
Ethan acordou cedo, como sempre, mas o apartamento parecia frio, maior do que deveria ser, e completamente silencioso.
O tipo de silêncio que não descansa, que incomoda.
Ele abriu o laptop, tentou responder e-mails, mas acabou checando o telefone pela terceira vez em menos de cinco minutos.
Nada.
Nenhuma mensagem.
Nenhum retorno.
Tinha ligado na noite anterior para ela, o telefone contivuava na caixa postal. Mensagens continuavam não sendo entregues.
Enviou e-mail institucional o mais frio e formal possível mas a resposta não voltou.
Nenhuma resposta.
A frustração veio com força. Por que ela o estava evitando dessa maneira, o que havia acontecido naquela quarta feira para ela mudar assim?
Ethan fechou o laptop com força demais.
Se odiou por estar lidando com tudo daquela maneira, como um homem sem controle, sem racionalidade, sem filtro.
Mas era inútil fingir: aquela semana estava machucando.
Ele precisava vê-la.
Precisava ouvir qualquer coisa da boca dela até um “não quero mais” seria melhor do que o vazio.
Às 15h ele já estava no campus, duas horas antes da aula.
Fingiu que era para preparar material, mas isso foi mentira até para ele mesmo.
A cada grupo que passava pelo corredor, ele olhava instintivamente.
A cada risada feminina ao longe, o corpo reagia antes da razão.
E nada.
Ninguém.
Nenhum sinal dela.
Quando o relógio marcou o horário da aula, ele entrou na sala com a postura firme de sempre.
A turma já discutia ideias para o projeto de marketing de expansão, um case complexo de posicionamento estratégico.
Tudo deveria correr bem.
Mas não correu.
Porque assim que Ethan entrou, seu olhar varreu a sala como um radar e encontrou o que mais temia.
Elena não estava lá.
De novo.
A explosão interna foi silenciosa, mas devastadora.
Ele já não estava apenas preocupado estava magoado.
Respirou fundo, caminhou até a mesa do professor e iniciou a aula com o mesmo tom impecável de sempre, mas quem o conhecia o suficiente saberia que a voz estava mais cortante, mais controlada, mais gelada.
A porta permaneceu fechada
Até que, dois minutos depois do início da aula, ela entrou.
Sem bolsa.
Sem caderno.
Sem notebook.
Só ela.
E parecia cansada, abalada mas isso, ironicamente, não ajudou em nada.
A visão dela doeu tanto quanto aliviou.
Os alunos a olharam com curiosidade, e confusos com a coragem dela de entrar na sala após o início da aula, sabia que Ethan não tolerava atrasos.
Ethan foi o único que não desviou o olhar.
E foi nesse olhar que o estopim aconteceu.
Elena caminhou até o lugar habitual, próximo a janela da sala de projetos evitando encontrar os olhos dele.
Mas Ethan nunca evitou nada e não ia começar naquele dia.
Ele esperou ela se sentar.
Esperou que ela se ajeitasse.
Esperou que o silêncio pesasse.
E então falou:
— Não tolero atrasos Senhorita Morrison — disse com um humor irônico, mas frio como aço. — Veio para uma aula prática sem absolutamente nenhum material. Bastante… confiante de sua parte.
Alguns alunos se entreolharam, desconfortáveis.
Elena engoliu em seco, sem se levantar.
— Peço desculpas, professor Hayes isso....
Ele a interrompeu.
— Se desculpar não muda o fato de que estamos lidando com um projeto corporativo real, que exige comprometimento. Seus colegas vieram preparados. Você não. Não podemos trabalhar baseados em improviso, muito menos em… expectativas de que alguém faça seu papel por você.
Aquela última frase atingiu os dois ele sabia exatamente o que estava insinuando.
Elena manteve a postura, mesmo ficando pálida.
— Eu entendo. E lamento. Aconteceu um imprevisto, mas isso não vai se repetir.
— Imprevisto? — ele repetiu, com ironia controlada. — A vida adulta é feita de imprevistos. Mas não é por isso que deixamos de cumprir responsabilidades. O mínimo esperado é estar preparada. Espero que tenha lido o relatório com os próximos passos do projeto, enviado às oito da manhã.
Elena fechou os olhos por um segundo, antes de admitir:
— Eu… não tive acesso.
A sala ficou um silêncio absoluto.
Ethan cruzou os braços tentando controlar a fúria dentro dele.
— Não teve. — repetiu, geladamente.- Que conveniente essa falta de informação.
Aquilo foi c***l.
Ele sabia.
E ainda assim disse.
Elena, com a voz baixa mas firme, respondeu:
— Não foi conveniência. Fui assaltada na quarta-feira, quando voltava da consulta do ortopedista. Levaram minha bolsa, celular, carteira e notebook tudo. Precisei voltar para o campus caminhando.
O mundo parou.
A respiração de Ethan falhou imperceptivelmente, mas falhou.
Ela continuou:
— Eu fiquei sem comunicação. Não tive como responder ninguém. E quanto ao projeto… eu já recuperei os arquivos. Tenho todos os backups na nuvem. Já baixei tudo no notebook do Daniel. Isso não vai prejudicar o andamento da equipe professor, isso eu posso garantir.
Ele sentiu o golpe.
A preocupação, a culpa, o alívio e o ciúme bateram ao mesmo tempo, e foi violento demais para processar na frente da turma.
Ele demorou alguns segundos para responder.
— …Certo. — disse enfim, a voz mais baixa. — Sinto que tenha passado por isso.
Mas havia uma dor crua ali, agora entendia porque ela ainda não tinha respondido nenhuma ligação.
Nenhuma mensagem.
Nenhum e-mail.
Ela havia sofrido e ele não estava lá.
Ele não podia estar.
E aquilo o devastou.
A aula prosseguiu.
Mas ninguém realmente absorveu nada todos perceberam a eletricidade contida, a tensão quase palpável.
Quando o horário se encerrou, Ethan fez uma pergunta Casual, mas que era tudo, menos casual:
— Leu as anotações da última aula?
Elena respirou fundo.
— Sim. revisei as anotações de Daniel na noite passada. - disse ela cansada e magoada pela repreensão dele.
— Ótimo. — ele disse. — Podemos tirar dúvidas agora. Alguns minutos extras não vão atrapalhar meu horário. Inclusive, estendo o mesmo aos demais.
Os colegas olharam o relógio, se entreolharam, e se levantaram quase em sincronia.
— Não, professor, estamos tranquilos. — disse os alunos saindo
Todos foram embora.
A porta havia acabado de bater, e o eco do corredor já desaparecia quando o silêncio entre eles se tornou ensurdecedor.
Elena continuou sentada.
Ethan ficou em pé, ao lado da mesa.
Nenhum dos dois sabia por onde começar.
Ele foi o primeiro e não com gentileza.
— Você teve acesso às anotações? — repetiu, mesmo já sabendo a resposta.
— Sim — ela disse, sem abaixar os olhos. — Daniel revisou comigo na noite passada.
— Você não atendeu minhas ligações ou respondeu qualquer mensagem ou e-mail — A voz dele saiu baixa demais… como se, se falasse mais alto, revelasse demais.
— Eu não tinha como responder ninguém. — ela disse, devagar. — Nem mesmo você.
O ar ficou denso.
Ethan passou a mão no rosto, como alguém prestes a explodir, mas que ainda tentava parecer inabalável.
— Você não imagina o que foi quarta-feira. — ele disse, finalmente revelando algo verdadeiro. — A aula inteira… esperando você atravessar a porta. E nada. Nenhuma notícia. Nenhuma justificativa. Nenhum sinal.
Elena engoliu em seco.
— Eu não tive a intenção de preocupar ninguém. — ela murmurou.
— Ninguém conseguia te localizar. — ele rebateu, sentindo a dor transformá-lo em faca. — Luna, Daniel, eu... Ninguém tinha resposta de onde te encontrar.
Ela sentiu o ar sair do peito.
— Eu não tinha como falar com ninguém, Ethan. — ela disse, firme, mas doce. — Não foi pessoal.
Ele riu sem humor nenhum.
— Não foi pessoal… — repetiu, a voz amarga. — Então, me explica por que o Daniel está lá quando você voltou. Por que o backup foi feito no notebook do Daniel. Por que foi ele quem revisou a matéria com você?
Ele não conseguiu terminar.
Elena ficou em silêncio por alguns segundos e depois respondeu com a verdade mais pura que tinha:
— Porque você não podia estar lá. Você estava, mas se afastou. Você escolheu ir embora.
Aquilo acertou mais fundo do que qualquer acusação.
Ethan se recostou na mesa, como se as pernas tivessem fraquejado por dentro.
Elena continuou, tentando controlar a própria voz:
— Você se preocupa comigo. Eu sei,
mas existe um limite e isso não te dá o direito de me repreender daquele jeito.
Ele fechou os olhos por um segundo para não revelar que ela estava certa.
— Eu sei, eu não deveria ter falado com você daquele jeito mais cedo. — ele murmurou, vencido. — Foi desproporcional.
Elena olhou para ele, os olhos brilhando não de fragilidade, mas de intensidade.
— Você estava frustrado — disse, sem rodeios. — Eu também fiquei — ela confessou a voz baixa, mas afiada como um segredo. — Dois dias sem conseguir falar com você, quando vi você no campus na quarta à noite e você simplesmente desapareceu antes que eu pudesse chegar em você.
Ethan sentiu o corpo inteiro reagir.
— Eu desapareci porque eles apareceram — ele disse com franqueza crua. — Eu não podia chegar perto.
Elena levantou pela primeira vez, lentamente, ele respirou fundo, prendendo o impulso de tocá-la.
— Você sumiu. — ele murmurou. — E eu achei que tinha… te perdido.
Ela aproximou um passo.
— Você nunca me perdeu. — respondeu, com certeza absoluta. — Eu só fiquei longe. À força. Mas eu voltei.
O coração dele bateu forte pela primeira vez em dias, não por dor, mas por alívio.
— E vai embora de novo? — ele perguntou, revelando o medo real atrás de toda a frieza.
Ela se aproximou mais um passo.
Agora só existia um metro entre eles.
— Só se você quiser. — ela disse.
A tensão s****l entre os dois estava no limite, o tipo de limite que faz o corpo tremer antes do toque acontecer.
Ethan deu meio passo na direção dela… e parou.
O medo se transformara em ciúmes.
O ciúmes em raiva.
E a raiva em puro desejo.
Ethan atravessou a sala em passos longos, tomou a chave sobre a mesa e girou a maçaneta num movimento seco.
Trancou a porta.
Elena congelou.
— Ethan… — ela começou, surpresa, o coração acelerando.
Ele se aproximou.
Não com violência.
Mas com urgência.
Uma urgência que dizia *eu esperei demais, eu sofri demais, e eu preciso te sentir viva aqui comigo.*
— Dois dias. — ele disse, a respiração pesada. — Dois dias sem saber onde você estava. Dois dias imaginando mil possibilidades. Dois dias achando que eu tinha perdido você… quando eu m*l tive você.
Elena deu um passo para trás, não por medo, mas porque o corpo dela tremia de antecipação.
— É agora você está aqui — ele murmurou. — E eu não consigo fingir que isso não significa tudo para mim.
Ethan a tomou nos braços em um movimento rápido e inevitável, a boca encontrando a dela num beijo faminto, desesperado, sem espaço para dúvidas.
Elena correspondeu com a mesma intensidade unhas cravando na camisa dele, como se o quisesse ainda mais perto.
Ele a empurrou contra a mesa, não com força, mas com necessidade o corpo pedindo o contato que a mente tinha negado por dias.
O beijo se aprofundou, se intensificou, se tornou quase perigoso.
As mãos de Ethan estavam no rosto dela, depois na cintura, depois nas costas sem saber onde parar porque não queria parar.
— Eu fiquei louco. — confessou, a voz rouca, quebrada. — Louco com saudade. Louco de preocupação.
Elena sorriu não de arrogância, mas de reconhecimento.
O beijo voltou mais lento agora, mas ainda feroz, carregado de tudo o que tinham reprimido.
Ethan deslizou a mão para a barra do casaco dela, puxando-a para mais perto, e Elena prendeu a respiração.
— Me peça pra parar — ele murmurou.
Elena encostou os lábios no canto da boca dele, sem beijar, só sentindo.
— Eu não quero que pare — sussurrou.