O quarto estava mergulhado em uma luz suave, a cor do amanhecer filtrada pelas cortinas grossas do loft. O silêncio era quase absoluto, salvo pela respiração tranquila de Elena e pelo som distante da chuva fina que persistia lá fora, agora leve demais para ser ameaça, forte o bastante para parecer um aviso.
Ethan despertou primeiro.
Não por desconforto, nem por arrependimento, simplesmente porque o corpo dele estava alerta, como se a presença dela ao lado fosse poderosa demais para deixá-lo dormir profundamente. Havia algo eletrizante no fato de tê-la ali. Algo que fazia o peito dele doer e ao mesmo tempo aquecer.
Elena estava parcialmente apoiada no peito dele, mas coberta pelo lençol. O cabelo solto caía em ondas pela clavícula, e a expressão tranquila no rosto dela contrastava com tudo o que ele sabia estar acontecendo dentro dela e dentro dele também.
Ele não resistiu a tocar suavemente uma mecha do cabelo dela, afastando-a do rosto. Não queria acordá-la, mas também não queria parar.
O toque fez Elena se remexer levemente, tentando encontrar de novo o calor do corpo dele. A mão dela, num movimento involuntário, agarrou o lençol mais perto, como se isso fosse suficiente para protegê-la de um mundo inteiro.
E foi só quando ela abriu devagar os olhos verdes ainda turvos de sono que o coração de Ethan perdeu o ritmo por um instante.
Ela o viu.
E não desviou.
Não havia pânico.
Não havia culpa imediata.
Não havia aquele horror de quem acorda de algo que acha que não deveria ter acontecido.
Havia calma.
E, por um instante, aquilo foi pior porque tornava a realidade mais perigosa.
— Bom dia… — ela murmurou, ainda sonolenta, a voz baixa, quase rouca.
Ethan sorriu, pequeno, contido, como se estivesse pisando em vidro.
— Bom dia.
Mas era mais que isso. Era um eu me lembro de tudo e não mudaria nada escondido entre as palavras.
O olhar de Elena pesou, e então ela percebeu de repente onde estava no peito dele, na cama dele. Corou, puxou o lençol para cima do corpo e se encolheu, o rosto parcialmente escondido. Era um gesto pequeno, mas cheio de significado.
Ethan pensou em dizer alguma coisa, talvez para tranquilizá-la, mas antes que ele conseguisse, ela se sentou devagar, buscando algum tipo de controle. Seus olhos encontraram a camisa dele jogada no chão e por algum motivo isso a deixou ainda mais corada. Ela hesitou, mas levantou e pegou a peça de roupa.
Por vergonha.
Por conforto.
Por saudade do toque dele, embora jamais admitisse.
Vestiu a camisa, que ficou grande demais nela, caindo até o meio das coxas. Ethan observou, silencioso, tentando não devorar a imagem. Não era apenas desejo era algo que ameaçava ser maior.
— Desculpa — ela murmurou, olhando para qualquer lugar que não fosse ele. — É estranha essa manhã, eu… não sei como agir.
Ele se levantou também, sentando na beira da cama.
— Você não precisa se desculpar por nada. Por que não me contou?
Ela fechou os olhos por um segundo, como se aquelas palavras a atingissem fundo demais.
O silêncio que veio depois não era desconfortável era denso, cheio de tudo que estava prestes a acontecer e tudo que ainda não sabiam como enfrentar.
Elena caminhou até a janela, segurando a barra da camisa na altura das coxas, nervosa, tentando parecer calma. A chuva fraca marcava a paisagem, e ela fixou o olhar nela como se tentasse entender algo.
— Eu não tive a intensão de esconder, eu só nunca imaginei… — ela começou, com a voz baixa. — Nunca pensei que… isso pudesse acontecer.
Ethan se aproximou devagar, mas não a tocou. Não queria pressionar.
— Eu também não, mas aconteceu, e se você tivesse me contado eu teria ido com mais calma.
Ela soltou uma risada breve, triste e bonita ao mesmo tempo.
— Foi perfeito, eu me senti ama... Desejada.
Ela quase falou em amor, mas Ethan nunca prometera amor, prometera sedução, desejo. Amor nunca entrou na equação.
Ele respirou fundo, a palavra amor que ela tentou esconder não passou despercebido por ele.
Quando ela finalmente virou o rosto na direção dele, já não havia hesitação no olhar. Havia tudo: medo, desejo, carinho, confusão, saudade como se ela sentisse falta dele mesmo estando ali.
E foi assim que começou.
Não com um impulso, não com urgência mas com uma necessidade silenciosa.
Ele deu um passo, depois outro, até ficar perto o bastante para sentir a respiração dela. Ethan levantou uma mão devagar, tocando de leve o rosto dela, pedindo permissão sem dizer nada. Elena fechou os olhos e encostou a testa na dele.
- Me deixe te amar direito dessa vez - murmurou ele baixinho.
O beijo não veio rápido.
Demorou.
Primeiro a respiração compartilhada.
Depois o toque dos narizes.
Depois a mão dele na cintura, tímida para alguém que nunca foi tímido.
Depois o suspiro dela, pequeno e frágil.
E só então os lábios se encontraram.
Não havia pressa havia sentimento.
Cada beijo dizia eu sinto antes de dizer eu quero
As mãos dele deslizaram pelas costas dela, segurando-a como se tivesse medo de deixá-la escapar. A de Elena subiram devagar pelo peito dele, pelos ombros, pela nuca, como se decorassem o corpo dele pela primeira vez e pela última.
Quando ele a pegou no colo e ela enlaçou a cintura ao redor dele, não havia nada de físico era pura necessidade emocional.
Ele a deitou na cama como se ela fosse algo precioso demais para ser tocado com descuido. E ela o puxou de volta como se estivesse completa só quando ele estava perto.
O segundo momento de paixão não veio como fogo.
Veio como mar.
Lento.
Profundo.
Inevitável.
Eles não estavam fugindo da realidade, estavam adiando o impacto dela.
E quando tudo se acalmou, quando os corpos relaxaram e as respirações retomaram o ritmo, a verdade se enroscou entre eles, silenciosa e pesada, como um aviso.
Helena estava com a cabeça no peito dele de novo.
Ethan estava com o braço em torno dela.
Mas agora nenhum dos dois dormia.
Agora sentiam.
Ela foi a primeira a falar o silêncio estava pesado demais para ser suportado por mais um segundo.
— Isso não deveria ter acontecido… — a frase veio num sussurro frágil, sem força, como se ela mesma tentasse acreditar no que dizia. — Mas… eu não consigo me arrepender.
Ethan fechou os olhos ao ouvir aquilo. Não era exatamente um alívio — era pior. Porque significava que o que tinham feito era real o bastante para doer.
— Eu também não consigo — ele admitiu, a voz baixa, rouca, quase quebrada. — Nem por um segundo.
Elena levantou a cabeça para olhar para ele, e por um momento, parecia que não havia drama no mundo capaz de vencer o que existia naquele olhar, mas a realidade não se afasta só porque duas pessoas se desejam e o medo retornou nos olhos dela como uma maré.
— O que vamos fazer? — ela tentou manter a voz firme. — Isso não é só a diferença de idade, a ética ou o risco de escândalo… é tudo ao mesmo tempo.
Ethan virou o rosto para o teto, como quem procura força em um ponto fixo, como se se mover pudesse fazê-lo desmoronar.
— E você é brilhante — ele continuou. — Tem um futuro inteiro pela frente e eu não posso comprometer você.
— Não fala assim… — pediu. — Como se eu não tivesse escolha. Como se eu não soubesse o que estou fazendo. Eu sei exatamente o que estou arriscando aqui
Ethan sentiu o peito apertar de um jeito que nunca tinha sentido com ninguém, nem mesmo em seus relacionamentos mais sérios.
Elena se sentou na cama, abraçando os próprios joelhos, escondida dentro da camisa dele, pequena, vulnerável, confusa. Ele se sentou atrás dela, mas não a tocou.
— Eu nunca… fiz algo assim — ela disse, sem olhar para ele. — Nunca quis alguém desse jeito.
Ethan passou a mão pela cintura dela puxando ela para mais perto.
— Eu passei a vida inteira evitando isso — ele confessou. — Sempre coloquei limites. Sempre soube quando parar. Sempre mantive distância até encontrar você — ele completou.
Ela virou devagar para encará-lo e Ethan desviou o olhar, não por vergonha, mas porque sentir era difícil demais.
— Eu tentei ignorar você — ele continuou, com a voz mais baixa. — A cada maldito dia de aula. A cada pergunta que você fazia. A cada vez que eu via você sentar no seu lugar. Eu tentei. Eu lutei contra isso como nunca lutei contra nada na vida.
— E eu também — ela interrompeu, quase num desabafo. — Eu tentei ser racional. Tentei fingir que não notava seu olhar, tentei te tratar como qualquer professor. Tentei convencer meu corpo a não reagir quando você me olhava, mas naquele dia na biblioteca eu enxerguei você, o homem porctras do título de professor.
E então ela riu, uma risada triste, sufocada, cheia de dor.
Ethan a encarou com algo entre amor e desespero.
— Então o que a gente faz? — ele perguntou por fim, e nunca na vida tinha soado tão vulnerável. — Porque… eu quero você. Deus, Elena, eu quero você mais do que deveria. Mas eu também quero proteger você. Não quero que nada te machuque. Não quero que ninguém fale sobre você. Que ninguém te julgue. Que ninguém tente destruir sua carreira antes mesmo de ela começar.
Os olhos dela encheram de lágrimas não por fraqueza, mas porque havia verdade demais ali.
— E eu quero você… mas eu não quero ser sua ruína — ele finalizou
Foi como admitir uma sentença.
Os dois, lado a lado na beira da cama, com o mundo desmoronando dentro deles e nenhum dos dois conseguindo soltar o outro.
— Então a gente tem um problema — ela concluiu.
Ethan riu sem humor.
— Tem.
Mas não havia distância entre eles.
Nem um centímetro.
— Porque a gente não pode continuar… — Elena sussurrou.
— …mas nenhum dois dois deseja parar — ele terminou.
E ali estava a verdade.
Brutal.
Inevitável.
Pior do que qualquer decisão final.
Eles não decidiram nada.
Eles só admitiram tudo.