Capítulo 26 - DOMINGO, UMA VIDA QUE PODIA SER SÓ DELES

1660 Words
O silêncio da casa de campo tinha outro tipo de som o som de paz. Quando Elena abriu os olhos, a manhã já avançava lá fora, mas dentro do quarto o tempo parecia suspenso. Ethan ainda dormia atrás dela, o braço pesado sobre sua cintura, o corpo colado ao seu. Não havia tensão em nenhum músculo dele como se pela primeira vez em muito tempo, ele tivesse permitido a si mesmo descansar. Ela ficou alguns minutos só observando o espaço: o quarto luminoso, os lençóis amassados, as roupas espalhadas pelo chão em descuido, os rastros suaves de uma noite intensa… e aquela sensação quente no peito. Era assim que era amar alguém? Era assim que era ser amada? Antes que ela pudesse se perder nos pensamentos, Ethan mexeu o rosto contra sua nuca e murmurou, ainda com a voz arranhada de sono: — Se você tentar escapar, eu te arrasto de volta pra cama. Ela riu. — Eu nem me mexi. — Pensou em se mexer — ele rebateu, sem sequer abrir os olhos, puxando-a mais para si pela cintura. Ela virou no colchão para encará-lo, o rosto tão perto que o nariz quase roçava o dele. — Então você agora lê pensamentos? — O seu eu leio — ele respondeu sem ironia. — Eu noto tudo em você. Elena sentiu aquele arrepio no peito o tipo que vem quando alguém te enxerga de verdade. Depois de alguns beijos lentos e preguiçosos, eles finalmente saíram da cama, mas não se separaram. Tomaram café de mãos dadas na enorme bancada de madeira, riram um do outro por estarem descabelados, roubaram pedaços do prato um do outro, como um casal que existia há anos, não dias. Quando terminaram, ele olhou para ela como quem decide alguma coisa importante. — Se você quiser… eu gostaria que hoje fosse o tipo de dia que nem eu nem você tivemos antes. — Que tipo? — ela perguntou. — O tipo em que ninguém se esconde. Saíram para caminhar pelos jardins da propriedade. O sol de outono era suave, filtrado pelas folhas avermelhadas das árvores. Ethan entrelaçou os dedos nos dela no instante em que pisaram para fora da varanda sem hesitar, sem olhar para os lados, sem se preocupar com quem veria. Ela achou que fosse desabar ali mesmo. Ele percebeu. E apertou sua mão com mais firmeza. — Você não precisa ser pequena ao meu lado — ele disse. — Pode ocupar espaço. Inclusive na minha vida. Elena mordeu o lábio, não para esconder um sorriso, mas para impedir as lágrimas. — Eu nunca… tive isso — ela confessou. — Eu também não — ele admitiu, tocando o rosto dela com o polegar. — Mas quero ter. Com você. A caminhada virou conversa, a conversa virou riso, e o riso virou um beijo inesperado encostados em uma cerca de madeira calmo, terno, profundo. Não havia fome naquele beijo. Havia afeto. Ele encostou a testa na dela: — A gente podia viver assim — ele murmurou. — Sem medo, sem regras, sem ter que esconder que eu olho pra você como se o mundo ficasse em silêncio. Ela fechou os olhos. — Eu queria isso. — Eu vou te dar, enquanto eu respirar — ele prometeu. O almoço foi improvisado, de pés descalços, com música baixa na cozinha e tomate cortado de qualquer jeito. Ele dançava com ela entre panelas e risadas, girando Elena pela cintura como se fosse a coisa mais natural do mundo. Depois, deitaram no gramado para ver o céu, ele com o braço por baixo do pescoço dela, ela desenhando círculos no peito dele com o dedo, em silêncio confortável. — O que você pensa quando está assim? — Elena perguntou, curiosa. Ethan olhou para o céu e respondeu devagar: — Que eu passei tempo demais vivendo como se sentimentos fossem fraqueza. E que você provou que eram exatamente o contrário. Ela ficou quieta. Mas o coração dela disse tudo. Ele virou o rosto para encará-la. — Eu não quero voltar pra vida em que eu fingia indiferença. Não comigo. Não com você. Elena inspirou fundo, tentando guardar aquele momento em algum lugar que ninguém pudesse tirar. — Então não volta — ela disse. — Fica com a gente. Com o que a gente tem. Um sorriso leve se formou nos lábios dele, e ele puxou o corpo dela para cima do seu não com urgência, mas com carinho. — Eu fico — ele prometeu, beijando a têmpora dela. — Eu fico por você. O resto da tarde passou com eles jogando cartas na sala, provocando um ao outro, deixando a casa encher com pequenas intimidades: • ela usando o moletom dele • ele ajeitando o cabelo dela atrás da orelha • beijos roubados quando nenhum dos dois estava preparado Não eram só gestos. Eram pertencimento. Era aquilo que eles nunca puderam viver lá fora. E agora podiam. Quando o sol começou a cair, Elena estava no sofá e Ethan se sentou ao lado dela, puxando-a para seu colo com naturalidade como se os dois fossem feitos para caber ali. — Eu queria poder segurar sua mão assim em qualquer lugar — ela confessou, com os dedos brincando na nuca dele. — Um dia a gente vai — ele garantiu. — E quando for, eu não vou largar. Ela encostou a cabeça no peito dele, ouvindo seu coração bater firme, seguro, por ela. Não havia s**o naquele momento. Mas havia amor. E ele era feroz. A luz alaranjada do fim de tarde atravessava as janelas da sala quando Elena percebeu que Ethan estava quieto demais. Ele a abraçava, acariciando lentamente suas costas, mas a mente dele estava longe. — O que você está pensando? — ela perguntou, sem se mover. Ethan demorou alguns segundos antes de responder como se escolhendo palavras uma a uma. — No futuro — ele admitiu por fim. Elena sentou-se devagar no colo dele para poder olhar em seus olhos. — O nosso? — ela perguntou. E só de ouvir aquilo, ele respirou fundo. — Sim. E… — ele engoliu em seco — no que pode acontecer se tudo der errado. Aquela frase caiu entre eles, pesada, real. Mas verdadeira. Elena colocou uma das mãos no rosto dele, com delicadeza. — Eu também tenho medo. Ele fechou os olhos por um instante ao ouvir aquilo como se a coragem dela desse força à dele. — Eu não tenho medo de ficar com você — Ethan murmurou, segurando a mão dela contra seu rosto. — Eu tenho medo de perder você. Ela sentiu o coração apertar. — O mundo não é gentil com histórias como a nossa — ele continuou. — Diferença de idade… professor e aluna… expectativas… julgamentos. As pessoas adoram decidir o que os outros deveriam sentir. — Elas adoram — Elena concordou, num sussurro. — E eu fico pensando se… se essa pressão vai te machucar. Se vão te olhar torto, falar nas suas costas, impedir oportunidades… e se, em algum momento, você olhar para mim e achar que vale mais a pena desistir. A sinceridade machucava, não porque era injusta, mas porque era honesta. Elena respirou fundo antes de responder. — Ethan… eu sei exatamente o preço de amar alguém. Eu já paguei. Quando fui assaltada, quando perdi tudo, quando me senti sozinha — ela falou com a voz baixa, firme. — Nada doeu mais do que não ter ninguém com quem contar. Os olhos dele ficaram mais escuros. — E agora eu tenho você — ela continuou. — Então não interessa se o mundo vai olhar f**o, se vão cochichar, se vão inventar histórias. Eu já sei o que é viver sem você. E eu não quero voltar pra esse lugar. Ethan parecia lutar entre respirar e desabar. Elena continuou, sem desviar os olhos: — O medo existe. Mas não é maior do que o que eu sinto por você. Ele levou uma das mãos à nuca dela e puxou suavemente, encostando a testa na dela. — Você merece um futuro limpo, brilhante, tranquilo. Não quero ser a razão de nenhuma porta se fechar pra você. — E eu não quero um futuro que não tenha você — ela rebateu na mesma hora. Ele sorriu com dor, aquele tipo de sorriso que carrega amor e preocupação ao mesmo tempo. — Promete uma coisa? — ele pediu. — O quê? — Se algum dia isso estiver te machucando… de verdade… você me diz. Antes de guardar, antes de se calar, antes de ir embora. Elena assentiu devagar. — Eu prometo. Mas quero que prometa também. Ethan arqueou as sobrancelhas, curioso. — Prometer o quê? — Se algum dia o medo ficar pesado demais pra você, se a diferença de idade, as críticas, a ética, os julgamentos te fizerem questionar você me fala. Você não se afasta. Você não me protege com silêncio. Você me deixa lutar com você. Os olhos dele brilharam. Ninguém nunca tinha pedido isso a ele. Ninguém nunca tinha prometido ficar. Ele tocou o queixo dela, a voz baixa, rouca, carregada de emoção: — Eu prometo, Elena. Nada entre nós vai ser decidido sozinho. Nunca. Ela sorriu — e foi um sorriso pequeno, vulnerável, mas cheio de verdade. Ethan beijou esse sorriso. Não como um homem que quer possuir. Mas como um homem que escolheu amar. Quando se afastou, manteve a mão no rosto dela como se aquilo fosse vital. — O mundo pode falar o que quiser — ele disse. — Mas nós dois, nós sabemos o que temos. — E isso é tudo — ela completou. — É tudo — ele concordou. Elena se enroscou novamente no peito dele, e o silêncio que se instalou não era pesado era seguro. Um silêncio de quem tinha dito o que precisava ser dito. Um silêncio de quem estava decidido. Lá fora, a noite caiu. Aqui dentro, eles ficaram. O medo ainda existia. Mas, naquele domingo à noite, o amor era maior.
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