Todas as vezes em que partia para um novo emprego, jurava para si, que não voltaria mais para aquela casa que era tudo, menos o lugar que poderia chamar de lar. Não obstante, estava ela ali, voltando para mais uma vez ser humilhada. Passaram-se apenas quatro meses, mas, foi humanamente impossível continuar na residência do marquês de Windsor.
Ele é um homem perverso, promíscuo e lascivo. O seu olhar era c***l, o seu comportamento era imoral e desregrado, não tinha disciplina ou responsabilidade, sua vida era com excessos, sem contar que era sem ausência de princípios ou valores.
Ela conseguia visualizar no seu olhar a perversidade, quando umedecia os seus lábios com a língua cheia de saliva e a olhava com luxúria, Sophia nunca tinha visto tanta malignidade numa só pessoa. Mesmo assim, ela ainda ficou por quatro tortuosos meses na casa dele, até que não conseguiu mais suportar ficar.
Dormiu m*l durante semanas, estava aterrorizada. Durante o dia ficava com a menina que cuidava na sala de estudos, porém, mantinha-se sempre alerta a qualquer ruído ou passos do lado de fora. Não podia mais ficar, era preferível enfrentar os maus tratos do seu tio.
Sophia saiu dos seus devaneios quando outra carruagem ultrapassou a sua, desta vez era uma carruagem aberta, ela pode vislumbrar o rosto lindo de uma mulher que usava um chapéu preto com enfeites de rosas. Ela protegia-se do sol com uma sombrinha de rendas. Ao seu lado estava um cavalheiro muito nobre, vestia-se elegantemente, tinha uma cartola e um enorme cravo na lapela do seu traje. Havia um toque de elegância e romantismo no casal.
Instintivamente Sophia olhou o seu próprio vestido. Estava amarrotado, empoeirado e sujo, devido a estar horas na estrada, sem contar que as suas roupas não eram novas, sempre usou as roupas da sua prima. Estava com um vestido azul-claro, que eram perfeitos para a sua prima, que tinha cabelos loiros e olhos azuis, porém para ela, era uma catástrofe. O seu tio nunca deu-lhe roupas novas, escolhida por ela. Por dedução sabia que, o seu rosto e os seus cabelos deveriam estar nas mesmas condições, ou seja, nada apresentáveis!
Sophia e a sua prima Cláudia tinham mais ou menos a mesma altura, nisso consistia a única semelhança entre as duas. Sofia tinha uma tez de pêssego, os seus olhos eram verdes brilhantes, que contrastavam com os seus cabelos ruivos, com cachos bem definidos que iam até a altura da sua cintura. Enquanto Claudia era branca, com cabelos loiros ondulados que iam até a cintura e os seus olhos eram azuis, bem claros.
Sophia era semelhante à sua mãe, que foi considerada mulher de rara beleza. Beleza esta que chamou a atenção do irmão mais novo do seu tio. Por encontrar objeções na sua escolha para esposa, resolveu fugir com a pianista da famosa orquestra britânica. Casaram-se e formaram uma família, onde viveram felizes, até o fatídico dia do naufrágio, já haviam se passado 13 anos, mas, a ira da família Cavendish não se abrandara nem mesmo quando o jovem casal perdeu a vida, deixando uma filha pequena. Muitos disseram que foi um castigo bem merecido.
Sophia era a única filha, foi levada para Flower Gardens Manor para ser educada junto com a sua prima Cláudia, que tem a mesma idade dela.
Sophia tristemente descobriu mais tarde que o lorde Cavendish odiava o irmão e ficava possesso com qualquer coisa que o fizesse lembrar dele. Talvez este ódio pudesse ser por algo ocorrido na infância ou, talvez a sua mãe o tivesse rejeitado. Essas eram as suspeitas da Sophia. O meio que ele achou de se vingar por ter tido o seu orgulho ferido, foi fazendo da vida dela um inferno na terra.
Independente da razão, no exato momento em que, os seus pés pisaram em Flower Gardens Manor, Sophia sentia-se culpada por ter nascido. Nada estava bom, por mais que tentasse fazer as coisas certas, era sempre criticada. À medida que foi crescendo, conscientisava-se do desejo s****l do tio por ela, quando podia, fugia dele. Sendo assim, lorde Cavendish castigava-a incansavelmente por essa rejeição. Os espancamentos eram constantes, mas, para Sophia a humilhação moral era pior do que a dor física.
A sua carruagem foi direcionada para a porta dos fundos, ela constatou que não havia ninguém por perto. Sophia sabia que os criados deviam estar todos ocupados servindo os convidados no jardim da frente da casa. Essas festas eram suntuosas, lorde Cavendish mesquinho como era, exigia que cada empregado fizesse serviços de dois ou três.
- Miss, onde coloco a sua bagagem?
- Por favor senhor, coloque o meu baú no pátio! ... Pediu ela educadamente ao cocheiro. – Vou pegá-lo mais tarde.
Com dificuldades, devido a sua curvatura na coluna e a sua respiração asmática, com dificuldades ele colocou o baú no chão de pedras. Não estava muito pesado, porque ela não possuía muitos pertences, mas, mesmo assim, ele enxugou o suor da sua testa após terminar.
Sophia acrescentou as suas poucas economias como gorjeta ao dinheiro que havia combinado anteriormente pelo transporte. O idoso vendo o gesto de bondade da moça, ficou extasiado, feliz, curvou-se várias vezes agradecendo a generosidade da miss.
- Muito obrigado miss, muito obrigado mesmo!
Ele subiu na boléia, chicoteou o cavalo cansado e m*l alimentado, iniciou a viagem de volta. Sophia ficou parada no mesmo lugar olhando para ele, até que o perdeu de vista. Estava com dificuldades para entrar. Relutava em se mexer.
Após alguns minutos, respirou fundo, se virou e atravessou o pátio dos fundos e entrou na casa. Percorreu rapidamente o corredor de pedras que ligava a área de serviços ao resto da casa. Com cautela olhou em volta e não avistou ninguém, mas ouviu as vozes que vinham do jardim, misturadas com a música de hábeis violinistas.
Sophia levou alguns minutos para chegar ao andar de cima, utilizando as escadas dos serviçais. Entrou rapidamente no sótão, onde era o seu quarto desde o dia em que chegou. Ela gostava de ficar ali. Apesar de não ser um quarto, ela o arrumou do seu jeito, com a ajuda da sua prima, que a amava como se fossem irmãs.
Ela olhou-se no espelho, constatou o que já sabia, estava amarrotada, suja, empoeirada e despenteada. Sophia tirou o pequeno chapéu que adornava a sua cabeça, deixando uma cascata de fios vermelhos caírem nas suas costas, chegando acima da sua cintura. Ela lavou-se, trocou de roupas, penteou-se, desceu as escadas e foi direto para os aposentos da sua prima, no andar de baixo.
Sophia entrou rapidamente no grande aposento, que, encontrava-se vazio, mas os pertences da sua prima eram visíveis, espalhados por todos os lados, dando indício de que ela estivera ali. O vestido usado na manhã, as meias, a anágua rendada, fita do cabelo e outros itens estavam jogados, totalmente desleixados. A Cláudia nunca foi um modelo de organização, mas não era desordeira e nem deixava de ser pontual. A impressão que dava, era que ela havia se arrumado no último momento, sendo assim, a empregada não tinha como arrumar, pondo as coisas no lugar.
Sophia franziu a testa, pensou que alguma coisa estava acontecendo com a sua prima. O que poderia ser?
Pegou uma fita do chão, alisou-a e a pôs sobre o vestido. Virou-se e começou a catar as roupas espalhadas e colocando-as dobradas sobre a cama.
Estava cansada, pois viajou por horas numa carruagem desconfortável. A fadiga aumentava quando imaginava o momento em que enfrentaria o seu tio mais tarde.
- Não vou ter medo, não posso ter! ... Em voz alta repetia para o seu reflexo no grande espelho que havia no canto do quarto da sua prima. ... - Todos os homens são animais bestiais, demônios libidinosos. ... De punhos fechados, cravando as suas unhas nas palmas das suas mãos, não percebendo que estava sangrando.
CONTINUA!...