TYLER
Acordo com um grito estrangulado preso no fundo da minha garganta.
Pisco os olhos lentamente, esfregando a minha face suada e atordoada.
Há tempos não tinha nenhum pesadelo com ela. O resto da madrugada pareceu um martírio.
***
Após uma péssima noite dirijo rumo a empresa. De péssimo humor, pego o elevador privativo, passando direto para a minha sala, ignorando totalmente o bom dia açucarado da minha secretária.
Ao adentrar a minha sala me deparo com uma desagradável surpresa.
— Essa sala foi feita para mim, admita.
Solta com um sorriso debochado.
— Não delire meu tio. E agora levante-se e me deixe trabalhar em paz.
Ele sorri, levantando-se vagarosamente.
Leonardo Rigoni, meu tio e agora inimigo declarado.
Está claro como água, que ele fará de tudo para agarrar a presidência.
— Tic tac, tic tac, Tyler! — Ele levanta o pulso direito exibindo um Cartier, uma peça de sua imensa coleção de relógios caros.
— Não conte vitória ainda meu tio, não trabalhei e dei o meu sangue nessa empresa para entregar-lhe tudo de mão beijada. Fique feliz com a vice-presidência, apenas ela!
— Vejo que está confiante, meu sobrinho.
— Seus olhos verdes se apertam em desconfiança.
— Não me diga que resolveu assumir o seu caso com sua secretária e a levará a o altar?
Aperto o maxilar com força e respiro fundo. Eu não irei cair em sua provocação.
— Mesmo não sendo da sua conta, sim irei me casar. E com quem…
Giro em meus calcanhares e ando em direção a porta, abrindo-a e esperando que ele entenda o recado. O que ele faz com o mesmo sorriso debochado de antes.
— Saberá no momento certo. — Completo quando ele passa por mim.
Fecho a porta com força, provocando um baque. Vou em direção a minha mesa e pego o telefone ligando para a minha secretária.
— Venha até a minha sala, Agora!
Segundos se passam e Leona surge no limiar da porta.
— Como posso ajudá-lo, senhor Rigoni?
Inquire com um olhar falso de submissão, tudo que ela não é. Submissa!
Retiro o meu palito e o estendo sobre minha cadeira, em seguida me sirvo com uma boa dose de uísque.
— Porque deixou Leonardo entrar em minha sala, sem a minha permissão?
— Pergunto, saboreando a bebida lentamente.
Leona não se intimida com o meu olhar, pelo contrário, isso parece excitá-la.
— Desculpe senhor, mas como vice-presidente da empresa, não pensei que haveria problemas.
Me aproximo vagarosamente do seu corpo, ficando a centímetros da sua face.
Me inclino o suficiente para sussurrar em sua orelha.
Vendo como minha proximidade a afeta
— Não lhe pago para pensar nada, senhorita Clive. O senhor Leonardo está proibido de entrar em minha sala, fui claro?
Me afasto olhando-a fixamente.
— Sim, senhor! — Diz, passando a língua pelos lábios cheios.
Desvio o olhar, e me sento em minha cadeira a dispensando com um gesto.
— Cuide para não haver uma segunda vez, ou isso lhe custará o seu emprego.
— Alerto, antes que ela cruze a porta.
Leona apenas assente, pisando duro, para fora da minha sala.
A visita desagradável do meu tio só serviu para me deixar ainda mais irritado.
Tenho que me casar e logo, já que não tenho outra saída.
Precisando clarear as ideias, saio da empresa deixando Leona sob aviso. Passarei o dia fora, então pedi para desmarcar toda a minha agenda do dia.
Entro em meu carro e dirijo para o único lugar que me sinto em paz.
O túmulo dos meus pais.
Venho sempre que posso, não há um só dia que não sinto a falta dos dois.
Desço do carro avistando a mesma mulher do outro dia entrar apressadamente no cemitério.
Ela parece não estar bem, e como uma força inexplicável me vejo seguindo-a.
Com um sobretudo rosa e um cachecol cinza envolta do pescoço, ela para em frente a um túmulo, se abaixa e deixa uma rosa branca.
Seus ombros se sacodem um pouco denunciando seu choro.
Tento me aproximar o suficiente, sem que ela note minha presença. Não entendo porque essa estranha está me intrigando tanto.
— H-anna, me perdoe, por favor! — Sussurra em um fio de voz.
Ela respira fundo, tentando controlar os soluços desesperados.
— Eu estou fazendo o melhor que posso, eu juro! Mas estou falhando. Eu não sou você, Hanna. Que cuidou de mim, quando a nossa mãe morreu.
Após escutar essa última parte, senti um aperto no peito. Ela também perdeu a mãe.
— Hanna, O-lívia sente tanto a sua falta, eu sinto! Eu só queria que me desse uma luz, direção que fosse. Me vejo tão sozinha, atolada em dívidas. Irmã, era eu que tinha que estar aí, não você…
Ouço o seu desabafo carregado de dor e um instinto protetor surge dentro de mim. Uma insana e quase dolorosa vontade de abraçá-la e consolá-la com palavras doces. Não sei explicar o turbilhão de sentimentos que sinto nesse exato momento, o que me deixa atordoado.
Corta o meu coração assistir seu choro copioso, ao mesmo tempo que me sinto m*l por estar escondido, invadindo sua privacidade.
Sem pensar nas consequências, me vejo andando ao seu encontro, ela se assusta quando retiro um lenço do meu bolso e estendo-o em sua direção.
Seus olhos castanhos encaram os meus e lentamente sinto o ar deixar os meus pulmões.
Seu olhar é tão intenso e ao mesmo tempo angustiado.
É como se eu pudesse enxergar sua alma e todas as suas nuances.
Ela desvia o olhar brevemente e abaixa a cabeça colocando uma grossa mecha do seu cabelo n***o atrás da orelha.
Sem fazer contato visual, recolhe o lenço e com um fraco sussurro, agradece.
Um longo e excruciante silêncio se estende entre nós, e sou o primeiro a quebrá-lo.
— Está tudo bem?
Ela assente com a cabeça.
— Por vezes acreditei que não devia sentir o luto — Começo a falar. — que seria mais fácil seguir a vida, mesmo de maneira automática, me ocupando com outras coisas e não me permitindo pensar demais — Olho-a de soslaio. Ela se empertiga e continua evitando contato visual.
— É só minha opinião — Pontuo, olhando a lápide à minha frente.
Hanna Sophie Blossom
“ Eterna como a mais doce lembrança”
— O que te fez mudar de opinião? — Sua voz aveludada me faz olhá-la novamente nos olhos, sendo pego por sua pergunta.
— Não mudei. — Respondo sinceramente, dando de ombros.
Construí uma verdadeira fortaleza em meu coração, aprendi a controlar os meus sentimentos e jamais demonstrar a alguém qualquer fraqueza que seja. O luto, para mim, é uma fraqueza. Por mais que eu sinta a dor da perda profundamente em meus ossos.
Seus olhos castanhos brilham com novas lágrimas se acumulando.
Balançando a cabeça como se saísse de um transe, sussurra:
— Tenho… que ir — Olhando mais uma vez para a lápide.
— Se não se importar, posso lhe dar uma carona — Ofereço gentilmente, e ela franze o cenho.