Depois daquele dia no parque, a relação entre Bekah e Joseph mudou de forma quase imperceptível. Não houve um momento específico que pudesse ser apontado como o início daquela proximidade; não existiu uma conversa decisiva, nem um acordo silencioso firmado entre os dois. Foi algo que se construiu aos poucos, em detalhes pequenos demais para chamar atenção, mas significativos o suficiente para permanecer.
Joseph passou a frequentar a casa dela com uma naturalidade que, no início, Bekah estranhou. Antes, qualquer visita parecia um evento; agora, ele aparecia com a mochila jogada em um ombro e um sorriso largo, como se aquele espaço já fosse, de alguma forma, dele também. Angelita sempre o recebia com um sorriso aberto, oferecendo suco, biscoitos ou qualquer desculpa para fazê-lo ficar mais tempo. Bekah fingia se incomodar, mas no fundo gostava da presença constante, do barulho que ele trazia consigo, da sensação de que a casa já não parecia tão silenciosa.
Ela finalmente parecia ter desenvolvido uma paciência quase admirável para a falação interminável de Joey. Antes, ela costumava responder com monossílabos, ou simplesmente se perder em pensamentos enquanto ele narrava histórias demais para um único fôlego. Agora, ouvia de verdade. Prestava atenção. Interrompia para perguntar detalhes. Ria nos momentos certos. Joseph percebia e isso o fazia falar ainda mais.
Em uma dessas tardes, acabaram organizando uma festa do pijama improvisada. Nada planejado, nada anunciado. Apenas dois adolescentes jogados no tapete da sala, cercados por cobertores, almofadas e potes de sorvete quase vazios. Bekah escolheu filmes românticos, aqueles previsíveis, cheios de trilhas sonoras exageradas e finais felizes demais para serem realistas.
Ela chorou em todos.
Chorou quando o casal se separou, quando se reencontrou, quando a música ficava mais alta do que deveria. Chorou quando a personagem principal percebeu que estava apaixonada e, principalmente, quando teve medo de perder aquilo que acabara de encontrar.
Joseph se divertia observando. Não ria dela, exatamente, mas da intensidade com que Bekah sentia tudo. Ele achava curioso como alguém tão reservada conseguia ser tão vulnerável diante de uma tela.
— Você sabe que isso não é real, né? — comentou em determinado momento, estendendo o pote de sorvete em sua direção.
— Eu sei — Bekah respondeu, limpando o rosto com a manga do moletom. — Mas… e se fosse?
Joseph não respondeu. Apenas deu de ombros, sentando-se mais perto.
De certa forma, ele supria um pouco da falta que os antigos amigos faziam para ela. Não ocupava o mesmo lugar, nem tentava substituir ninguém, mas preenchia os silêncios de um jeito diferente. Bekah não se sentia tão sozinha quando Joey estava por perto e isso significava mais do que ela gostava de admitir.
Julian, por outro lado, não ficou para trás naquela aproximação. Mas a forma como ele se inseriu na vida de Bekah era completamente distinta. Onde Joseph oferecia conforto, Julian trazia intensidade. Onde Joey se acomodava, Julian avançava.
Julian não escondia suas intenções. Não fazia esforço para parecer algo que não era. Gostava de atenção, gostava de ser visto, gostava de ocupar espaço. E Bekah, com sua postura discreta e olhar sempre atento, tornara-se exatamente isso: um desafio.
Agora, um mês depois, toda a escola ainda reagia como se estivesse diante de algo improvável quando via Joseph, Julian e Bekah andando juntos pelos corredores. Cochichos surgiam imediatamente. Olhares curiosos se acumulavam. Ninguém entendia como dois garotos tão populares haviam se aproximado justamente dela, a garota que passara tanto tempo tentando não ser notada.
Bekah fingia não perceber, mas percebia tudo.
Naquela manhã, o dia do baile amanheceu claro demais. O céu estava limpo, azul, sem nuvens. Bonito demais para combinar com a inquietação que se instalara em seu peito assim que acordou. Tudo parecia leve ao redor, o clima, as conversas na escola, os risos pelos corredores, mas havia algo diferente no ar. Uma expectativa silenciosa, impossível de ignorar.
— Ei, você sabe que dia é hoje? — Joseph apareceu ao seu lado, encostando no armário com um sorriso animado demais para aquela hora da manhã.
Bekah fechou a porta metálica com cuidado antes de se virar para ele.
— Não faço ideia — respondeu, rindo de leve.
— Baile, Bex! Homecoming! — Ele praticamente pulou no lugar, como se estivesse contando uma grande novidade.
— Ah, é verdade… — Ela sorriu, mas sentiu o estômago revirar levemente. — Vamos. Aula de quê?
— Biologia. E você?
— Língua Inglesa.
— Nos vemos depois.
Bekah já ia se afastar quando se lembrou de algo.
— Ei, Joey! — chamou, dando dois passos para trás. — Você viu o Julian hoje?
Joseph franziu o cenho, pensativo.
— Ainda não.
— Ok, obrigada.
Seguiram juntos pelo corredor até se separarem nas salas. As aulas daquele dia pareceram mais longas do que nunca, apesar de terminarem mais cedo. Bekah tentava prestar atenção, mas sua mente insistia em escapar, voltando sempre para a noite que a aguardava.
Ela não encontrou Julian durante o dia, mas recebeu uma mensagem explicando sua ausência. Nada alarmante. Nada que justificasse preocupação. Bekah preferiu acreditar sem questionar. Era mais fácil assim.
Os dois estavam, oficialmente, embarcando em um relacionamento, ainda que Bekah não tivesse contado nada à mãe, nem a Angelita. Ray havia reagido bem à ideia de Bekah ter um namorado. Disse que era normal, parte da vida. Jonathan, por outro lado, não gostou nem um pouco. Sua reprovação veio em silêncios longos e olhares avaliadores, mas nenhum dos dois mencionou exatamente o motivo.
No horário do almoço, Rebekah encontrou Joseph já sentado à mesa habitual, mexendo distraidamente na bandeja.
— Posso? — ela perguntou, apontando para o banco à sua frente.
— Sempre — ele respondeu, abrindo um sorriso.
Eles começaram a comer em silêncio por alguns minutos. Bekah empurrava o arroz de um lado para o outro, claramente distante.
— Você tá nervosa — Joey comentou.
— Não tô.
— Tá sim.
— Não tô.
— Tá — ele insistiu, inclinando-se para frente. — É por causa do baile?
Bekah suspirou.
— Um pouco.
— Por causa do Julian?
Ela hesitou antes de responder.
— Também.
Joseph ficou em silêncio por alguns segundos, observando-a.
— Ele vai te buscar hoje à noite, né?
— Vai.
— Hum.
— O que foi? — Bekah perguntou, estreitando os olhos.
— Nada. Só… — Ele deu de ombros. — Quero que você fique bem.
Ela o encarou, sentindo algo apertar no peito.
— Eu sei, Joey. Obrigada.
— Se precisar sair de lá hoje — Joey disse, sério por um instante — você me chama. Mesmo que seja só pra dançar mais.
Rebekah sorriu, tocada.
— Prometo — ela respondeu.
Mais tarde, no estacionamento, ela correu atrás de Joey.
— Ei, King! — chamou. — Quer uma carona hoje à noite?
— Relaxa, loirinha… opa, agora é morena — ele riu da própria confusão. — Vou com o carro do meu pai, Bex. Não posso buscar meu par de carona, não é?
— Bom, nos vemos lá, então!
Já em casa, no fim da tarde, o telefone tocou. Bekah reconheceu o número antes mesmo de atender.
— Você já tá se arrumando? — a voz do outro lado soava tensa demais.
— Ainda não — Bekah respondeu, sentando-se na beira da cama. — Por quê?
— Porque eu não consigo parar de pensar nisso.
Ela suspirou.
— JJ…
— Eu sei, eu sei — ele se apressou. — Eu não devia me meter. Mas eu não confio nesse garoto.
— Você nem conhece ele.
— Justamente. — Houve uma pausa. — Ele te olha como se já tivesse decidido coisas por você.
Bekah franziu o cenho.
— Você está exagerando.
— Talvez. Mas promete uma coisa?
— O quê?
— Que se em algum momento você se sentir desconfortável… você sai. Você liga. Você vai embora.
Bekah fechou os olhos.
— Nada vai acontecer.
— Promete mesmo?
— Prometo — respondeu, com mais firmeza do que sentia.
— Eu pedi pro King ficar de olho.
— Eu sei. Ele me disse exatamente as mesmas palavras.
— Então tá. — Outra pausa. — Só… se cuida.
Quando desligou, ficou alguns segundos encarando o próprio reflexo no espelho. Havia algo em seus olhos que não reconhecia completamente, uma mistura de expectativa e dúvida. Aquela conversa havia tirado parte de sua empolgação.
O quarto já estava movimentado. A cabeleireira ajustava os produtos sobre a bancada. A maquiadora organizava pincéis com cuidado quase ritualístico. Angelita observava tudo da porta, emocionada.
Rebekah sentou-se diante do espelho grande, cercada por luzes suaves. O vestido vermelho estava pendurado ali perto, protegido por uma capa transparente. Elegante. Caro. Escolhido com ajuda de alguém que entendia de moda melhor do que ela.
— Vamos começar pelo cabelo — disse a cabeleireira, sorrindo.
Enquanto mãos experientes lavavam, secavam e modelavam seus fios recém-escurecidos, Bekah se observava no espelho. Não estava acostumada a ser o centro de tanta atenção. Pessoas cuidando de cada detalhe. Decidindo o que combinava melhor com seu rosto, seu tom de pele, sua postura.
Ela tinha dinheiro. Sempre tivera. Mas raramente pensava nisso dessa forma. Aquela noite tornava tudo mais evidente.
— Confia — disse a maquiadora, percebendo seu olhar inseguro. — Você vai se reconhecer no final.
Angelita deixara o vestido cuidadosamente estendido sobre a cama. Vermelho. Longo. Elegante demais para alguém que, por tanto tempo, tentara passar despercebida.
Quando finalmente se levantou, vestida, maquiada, com o cabelo perfeitamente arrumado, Bekah m*l se reconheceu no reflexo.
— Está linda, menina Bekah — Angelita disse, emocionada. — Seu pai iria se orgulhar.
O comentário apertou seu peito, mas ela sorriu. Precisava aproveitar aquela noite.
Julian chegou pouco depois, impecável em seu smoking preto, confiante demais para alguém tão jovem.
— Uau… — Ele a olhou de cima a baixo. — Você vai ser a mais linda daquele baile.
— Quem vê, até acredita — Bekah respondeu, rindo.
O ginásio estava iluminado, decorado com luzes pendentes e faixas coloridas. Música alta. Risadas. Bekah sentiu o impacto do ambiente assim que entrou. Joey apareceu logo, acompanhado, e fez questão de girar Bekah no meio do salão.
— Você está incrível — disse, sincero.
Julian envolveu a cintura dela em seguida, marcando presença.
— Falei que eu tinha sorte — comentou.
A música mudou para algo mais lento.
— Posso? — Julian perguntou.
Ela aceitou. Após várias danças, Joey apareceu.
— Vem dançar comigo.
— Agora?
— Agora!
Joseph a puxou para o meio da pista. A música era animada, alta demais para conversar. Bekah riu, girou, esqueceu por alguns instantes toda a tensão que carregava. Joey dançava sem medo de parecer ridículo, exagerando movimentos, fazendo caretas. Bekah ria tanto que chegou a perder o fôlego.
— Você dança muito m*l — ela gritou.
— Eu sei!
Dançaram mais uma música. Depois outra. Julian observava de longe, mas Bekah estava leve demais para notar qualquer coisa além daquele momento. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se parte de algo. Não invisível. Não deslocada.
Joey girou Bekah mais uma vez.
— Está feliz? — ele perguntou, sério por um instante.
— Estou.
— Então valeu a pena.
Julian se aproximou logo depois, envolvendo a cintura dela. Bekah ainda sorria quando a música mudou para algo mais lento. Ela aceitou a mão de Julian, permitindo-se aquele novo ritmo.
— Posso roubá-la um pouco? — ele perguntou.
Ela sorriu e aceitou.
Dançaram próximos. Intensos. As mãos dele eram firmes, seguras demais. Bekah sentia o contraste. Joey era leve. Julian era fogo.
Passaram mais tempo no baile. Conversaram. Riram. Joey trouxe bebidas, puxou Bekah para mais uma dança animada, ignorando os olhares ao redor. Ela se deixou levar. Aquela parte da noite parecia suspensa no tempo.
Depois de algumas músicas, Julian se inclinou.
— Quer sair daqui?
Ela hesitou. Apenas um segundo.
Depois assentiu.
Avisou Joey por mensagem e saiu com Julian.
A casa estava escura quando entraram. Bekah tirou os sapatos, tentando não fazer barulho.
— Você mora sozinha? — ele perguntou.
— Só com Angelita… e hoje ela está dormindo.
Julian se aproximou lentamente, a mão encontrando sua cintura. O beijo veio intenso, urgente, como se ele estivesse esperando por aquilo desde o início da noite. Bekah correspondeu, sentindo o coração acelerar.
Subiram as escadas quase em silêncio. No quarto, Julian fechou a porta atrás de si e a puxou para perto novamente.
— Você tem certeza? — ele perguntou, baixo.
Bekah não respondeu com palavras.
O mundo pareceu diminuir até restar apenas o quarto, os sussurros, o toque, a sensação de atravessar um limite invisível. Quando finalmente se afastaram, ofegantes, Bekah se deu conta de que algo havia mudado, não apenas naquela noite, mas dentro dela.
Rebekah ficou alguns segundos em silêncio, ouvindo apenas a própria respiração se acalmar. O quarto estava mergulhado em uma penumbra tranquila, cortada apenas pela luz distante da rua entrando pela janela.
Julian foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Você faz essa cara quando está pensando demais — ele disse, com um sorriso preguiçoso na voz.
Bekah virou o rosto na direção dele, estreitando os olhos.
— Não faz isso.
— Isso o quê?
— Ficar me analisando — respondeu, tentando soar séria.
Julian riu baixo, um riso contido, quase abafado.
— Não tô analisando.
— Para de rir — ela murmurou, empurrando-o de leve.
— Eu nem tô rindo.
— Tá sim.
— Um pouco — ele admitiu.
Bekah balançou a cabeça, mas acabou sorrindo também, apesar de si mesma. Aquele riso compartilhado parecia simples demais para carregar tanto peso e talvez fosse exatamente isso que a deixava inquieta.
Ela se virou de lado, fechando os olhos.
— Boa noite — murmurou.
— Boa noite, Bekah.
O silêncio voltou a ocupar o quarto e Bekah soube que algo havia mudado dentro dela.
Não sabia se aquela seria uma lembrança boa ou um erro bem maquiado.
Mas já era tarde demais para fingir que nada havia acontecido.
E, mesmo com os olhos fechados, ela sabia: algumas coisas, depois de vividas, não voltam a ser simples nunca mais.