Capítulo VIII

1030 Words
Rebekah voltou para casa depois de horas sentada naquele banco do parque, observando pessoas passarem sem sequer perceberem que o mundo dela havia desmoronado. O coração disparou ao pensar em como contaria aquilo. E sua mãe? Lilian sempre exigira perfeição. O que ela chamava de exemplo de uma filha decente. Gravidez fora de um casamento, depois de uma noite bêbada, definitivamente não fazia parte desse conceito. Rebekah já conseguia imaginar o olhar frio, as palavras calculadas, o desprezo. Como ela reagiria? Provavelmente, da pior forma possível. Para sua sorte, não encontrou Angelita na sala. Pensou rapidamente em como contaria a ela — mas não agora. Subiu as escadas quase correndo, entrou em seu quarto e trancou a porta antes de se jogar na cama. Grávida. A palavra ecoava, pesada, impossível de ignorar. As lágrimas vieram sem aviso. Ela chorou como pôde, soluçando, deixando o medo escorrer junto com a dor. Precisava colocar tudo para fora antes de enlouquecer. Como sustentaria uma criança? Sua mãe certamente bloquearia qualquer acesso ao dinheiro assim que descobrisse. Havia economias, mas não o suficiente. Não para uma vida inteira. A ideia do aborto atravessou sua mente, rápida, assustadora. Rebekah era a favor do direito de escolha, mas não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Não sabia se seria forte o bastante. Adoção. A palavra surgiu quase como um alívio. Ela teria o bebê e depois o entregaria para adoção. Sua vida seguiria. E, melhor ainda, não precisaria contar nada à mãe. Lilian m*l ficava em casa. Quando aparecia, bastaria se esconder no quarto, no banheiro. Em pouco tempo, estaria viajando novamente. Convencida ou tentando se convencer, Rebekah acabou adormecendo. “— Rebekah, eu não acredito que você fez isso! — Jonathan gritava. — Jhonny… — ela chorava, m*l conseguindo respirar. — Você é h******l! — Ray também gritava. — Ele não tinha culpa do seu erro! — Vocês nunca gritaram comigo… — Bekah m*l conseguia falar. — Eu te odeio — Joey disse, com frieza. — Eu também te odeio — Jonathan completou. — Jhonny, não… por favor… — implorou. — Não me deixa agora. — Nunca mais fale comigo! — Jonathan virou as costas.” — Jonathan, não! — Rebekah gritou, sentando-se na cama, ofegante. Era só um sonho. Ou melhor, um pesadelo. O medo permaneceu. Não da gravidez em si, mas da rejeição. Dos amigos. Do olhar de decepção. Da possibilidade de ficar completamente sozinha. Pegou o celular, ainda tremendo, e ao sair do quarto, deu de cara com sua mãe, que saía do próprio quarto arrumada demais para alguém que ficara em casa. — Rebekah… — Lilian a analisou dos pés à cabeça. — O que aconteceu com você? Está péssima. Parece que faz questão de ignorar tudo o que eu digo. Uma moça precisa se apresentar bem. — Ma-mamãe… — Bekah gaguejou. — Se tem algo a dizer, diga logo. — Lilian suspirou, impaciente. — Não tenho o dia inteiro. Meu vôo sai em algumas horas. — Eu… eu preciso te contar uma coisa. — Agilidade. Tenho compromissos em Los Angeles. — Você sempre diz que adolescentes fazem coisas sem pensar… — Rebekah, pare de rodeios. — A voz era baixa, mas cortante. — Fale. — Eu… eu não sou mais criança e… — Se continuar assim, vou sair. — Lilian cruzou os braços. — Última chance. — Eu estou grávida. — Rebekah disparou, fechando os olhos. O silêncio foi pior do que um grito. — Você está o quê? — Lilian perguntou devagar. — Diga agora que isso é mentira. — Não é, mãe. — Então minha filha virou uma dessas garotas? — A voz saiu fria. — Engravidando de qualquer um que aparece? — Eu sei quem é o pai! — Espero que saiba mesmo. — Lilian deu uma risada sem humor. — Porque eu não criei você para ser mãe solteira. Muito menos para carregar o filho de um qualquer. As palavras vinham como lâminas. — Transformou-se numa decepção. — Continuou. — Uma vergonha. Sempre avisei para tomar cuidado. É tão difícil ser uma boa garota? É tão difícil me ouvir? Os olhos de Rebekah se encheram de lágrimas. — Chega. — Lilian respirou fundo. — Você ultrapassou todos os limites. Ela se aproximou. — Arrume suas coisas. Saia daqui. Vá atrás do pai dessa criança. — Fez uma pausa c***l. — Da herança do seu pai, você não verá um centavo. Nunca mais volte. Não quero notícias suas… nem desse feto. Virou-se e saiu. Rebekah entrou no quarto atordoada. Obedeceu rápido demais. Estava sufocada, ferida, precisava sair dali. Encontrou Charles limpando o carro. — Charles… por favor, me tira daqui. Entrou no banco traseiro e encostou a testa no vidro, deixando as lágrimas caírem em silêncio. Sem perguntas, ele dirigiu. Depois de mais de uma hora, a voz calma dele quebrou o silêncio. — Quer ir para algum lugar específico, Bekah? — Cambridge… você pode me levar? — Para onde a senhorita mandar. — Podemos parar para comer? — Claro. — Ele sorriu. — Angelita comentou que você não comeu hoje. — Eu saí sem avisar… sem pegar nada. — Está tudo bem. Eu avisei que você estava comigo. Ela sorriu fraco. Sempre fora grata por Charles e Angelita. Depois da morte do pai, eram eles que a seguravam quando tudo desmoronava. Rebekah parou em uma lanchonete e pediu dois hot dogs para levar. Logo ficou pronto e ela retornou para o carro, entregando um para Charles. — Não precisava — Charles disse. — Precisava sim. — Ela tentou sorrir. — Acho que nem está mais no seu horário de trabalho. Se é que você ainda trabalha comigo… — Como assim? — Coisa da Lilian… depois explico. Ele deu de ombros. — Ignore. Sempre funcionou antes. Se ele soubesse. Pouco depois, estacionaram em frente à república onde Jonathan e Ray estavam hospedados. Rebekah respirou fundo e ligou. — Bekah! Me perdoa, eu cheguei agora… ia te ligar. — Você pode vir aqui fora? — Agora? — Estou na frente. A gente precisa conversar. Sentou-se no banco em frente ao prédio. Minutos depois, Jonathan apareceu, confuso. Era hora de contar. Era hora de confiar em alguém.
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