Sequestro no Morro

891 Words
BEN Mano, eu nunca fui de ir no pagode. Aquele barulho de batuque, cavaco e gente bêbada cantando desafinado nunca foi minha praia. Meus pais sempre vão, levam a Cecília e o Lipe, pois é um evento tranquilo e seguro. Mas hoje era diferente. Hoje eu tava levando a Keyla pro pagode que rola todo mês no pé do morro. Era política, era estratégia. Todo mundo precisava ver que a gente tava junto, que ela tava comigo. Que o Matemático que se f**a, ela era minha agora. A Keyla tava linda pra c*****o. Um vestido vermelho justo que marcava cada curva, aquele cabelo solto... toda vez que eu olhava pra ela, dava vontade de levar ela pra um canto e reviver o que a gente faz na minha casa, na minha cama. Mas tinha que manter as aparências. — Você tá tenso, Ben — ela sussurrou no meu ouvido, passando a mão no meu braço. — Tô de boa — menti, tomando um gole da cerveja. Meus olhos não paravam de scanear a multidão. Saber que o Douglas e o Matemático tavam solto por aí, com cinco fuzis e ódio no coração, me deixava com os nervos a flor da pele. Foi quando o Toquinho chegou, um dos meus vapô mais antigos. E não tava sozinho. Trouxe a irmã, a Haryane — a Ane, como todo mundo chama. Porra. A mina é um perigo. Baixinha, branquinha, uns olhos verdes que parecem de gata, e um cabelo loiro que chega na cintura. Desde que a Luana vazou, ela não perde uma chance de se jogar pra mim. — E aí, Ben! — ela chegou já com aquele sorriso maroto, se encostando em mim de propósito. — Que bom te ver por aqui. A Keyla ficou dura do meu lado. Eu senti a mão dela endurecer apertando o meu braço. — Ane — cumprimentei, curto, tentando me afastar um pouco. Mas a maluca não desistiu. A noite inteira ela ficou me cercando. Quando eu tava conversando com uns brothers, ela aparecia do lado. Quando eu fui pegar outra cerveja, ela tava lá. E sempre com uns toques, uns olhares, uns sorrisos. Keyla tava ficando com uma cara de poucos amigos que até dava medo. — Você deixa essa p*****a te encostar assim? — ela sussurrou pra mim, com os dentes cerrados. — Relaxa, Keyla. Ela é só a irmã do Toquinho, não consigo ser grosso. — Só irmã do Toquinho o c*****o! Ela tá te comendo com os olhos, Ben! Eu ia responder quando o clima mudou. Minha irmãzinha se aproximou. — Tá namorando Ben? — ela perguntou toda doce. — Sim Cecília, estou muito feliz. — respondi. — A Keyla é muito bonita. — Ela disse pra mim e se virou pra Keyla. — Gostei do vestido, combina com você. A Keyla ficou vermelha e agradeceu. No mesmo instante a Ane voltou a se aproximar com aquele sorriso bobo. Um carro preto, vidro escuro, parou na entrada do pagode. A música não parou, mas eu senti o perigo, empurrei a Cecília pro canto onde tinha um corredor escuro. Três caras desceram, capuz, armas na mão. Não eram daqui. Conheço todo mundo do morro, e esses aí eram estranhos. — Ben... — Keyla agarrou meu braço. Antes que eu pudesse reagir, eles foram direto na nossa direção, apontando as armas pra mim, a Ane ainda de costas pra eles, rindo pra mim sem notar o caos que estava se formando. Um deles a surpreendeu, deu um tapa na cara dela, outro jogou ela no chão. O Toquinho tentou impedir, levou uma coronhada na cara e caiu. Aquilo não parecia ser comigo, não parecia ser real. Eu fiquei sem reação mano, travado, as lembranças do que aconteceu com a Cecília me invadiram. Eu senti as lágrimas escorrendo e finalmente consegui me mover. — PARA COM ISSO! — gritei, sacando minha Glock. Mas era tarde. Eles já tinham arrastado a Ane pro carro. Um deles atirou pra cima, a multidão se dispersou em pânico, e o carro saiu cantando pneu, sumindo na escuridão. O pagode virou um caos. Gente correndo, gritando. Toquinho no chão, sangrando. Keyla tremendo do meu lado. E eu, parado ali, com uma impotência que queimava por dentro. Duas horas depois, já no QG, depois de repreender todos os moleques da contenção por terem deixado um carro desconhecido entrar no meu morro, meu celular vibrou. Recebi um vídeo. Abri, e a imagem me deu um nó no estômago. A Ane, amordaçada, os olhos verdes arregalados de terror. A voz distorcida do áudio era de um homem: "Estando com sua irmãzinha, libera a Keyla e liberamos a Cecília." Cecília? Minha Cecília? Minha loirinha? O coração gelou. Eles tinham pego a Ane pensando que era minha irmã. Ane era baixinha, loirinha... parecia mesmo com a Ceci de longe. Com lágrimas nos olhos que eu nem sabia que ainda tinha, olhei pro Toquinho, que tava com o rosto inchado da coronhada. — Eles acham que pegaram minha irmã, mano — falei, a voz saindo quebrada. — Pegaram tua irmã por engano. A Ane tá correndo perigo. O olhar do Toquinho mudou de dor pra puro terror. A gente tinha um problema muito maior do que eu imaginava. E agora era minha responsabilidade consertar essa merda. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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