DOUGLAS
O dia tava cinza, combinando com o meu humor. Fiquei parado do lado de fora do presídio, aquele lugar que cheira a desespero e mofo, esperando o portão principal se abrir. Meu coração tava batendo mais forte que o ronco do motor do carro roubado que eu tinha estacionado ali perto.
Dez anos.
Dez anos desde que eu tinha visto meu pai como um homem livre.
O portão rangiu e ele saiu.
Caralho.
O tempo não tinha sido gentil. O cabelo, que eu lembrava preto, agora tava grisalho e praticamente só tinha cabelo nas laterais, o velho tá calvo. A postura ainda era reta, mas os ombros pareciam carregar o peso de uma década perdida. Ele tava com uma sacola plástica com as coisas dele, vestindo as mesmas roupas que tinha quando entrou — uma camisa social e uma calça que agora ficavam largas nele.
Nosso olhar se encontrou.
Ele parou por um segundo, como se não acreditasse que era eu. Então veio andando rápido, e me abraçou com uma força que quase me derrubou.
— Douglas, meu filho — a voz dele saiu embargada, e eu senti ele tremer.
— Tudo bem, pai. Tá livre agora — falei, batendo nas costas dele, mas a raiva dentro de mim não deixava o momento ser só doce.
Ele se soltou, segurando meus ombros.
— Cadê sua mãe? Ela não veio mesmo, né?
O sorriso que eu forcei saiu mais como uma careta.
— Ela… ela agora tá ocupada, com aquele vacilão. Vamos, pai. Esse lugar não é seguro pra mim.
No carro, o clima ficou pesado. Ele olhava pela janela, tentando absorver uma cidade que tinha mudado demais.
— Então me conta tudo, Douglas. De verdade. Ela realmente…?
— Tá dando pro Ben. Todo dia. Fiquei sabendo que ele prende ela na casa dele feito um tesouro. E eu, seu filho, virei o vilão da história.
Ele bateu o punho no painel.
— EU VOU MATAR ESSE FILHO DA p**a! EU VOU ARRANCAR O CORAÇÃO DAQUELE MENINO E ENFIAR GOELA ABAIXO DAQUELA v***a!
— Calma, pai! — gritei, dando uma fechada no volante. — É isso que o Ben quer! Que a gente faça merda na emoção! Ele tem o morro todo nas mãos! Se a gente chegar na loucura, a gente vira pó!
— E você acha que eu tô com medo de morrer, Douglas? Depois de dez anos na cadeia? Depois de saber que minha mulher tá abrindo a p***a das pernas pra um pirralho? Eu não tenho nada a perder.
— Não é sobre medo! É sobre ser mais esperto! — encarei ele. — A gente vai acabar com ele. Mas tem que ser na hora certa, do jeito certo.
Levei ele pro barraco onde eu tava morando, no morro do Marreco. Era uma casa simples de dois cômodos, mas era longe do Ben. Meu pai entrou e olhou em volta, a expressão dele era de quem não acreditava que tinha trocado uma cela por outra.
— E agora? — ele perguntou, jogando a sacola no chão.
— Agora a gente planeja. Senta aqui.
Peguei um caderno velho e espalhei na mesa de plástico. Desenhei um mapa tosco do morro do Ben, marcando os pontos de venda, os postos dos vapô, a casa dele.
— Olha aqui. Ele tem homens aqui, aqui e aqui. A casa dele é aqui, no ponto mais alto. Blindada. A mãe tá lá.
— Então a gente ataca a casa! — meu pai falou, os olhos brilhando com ódio. — Chega de noite, arromba a porta e acaba com os dois!
— E morre no processo! — revidei. — Ele tem câmeras, trancas eletrônicas, alarmes, e os vapô dele são treinados! Não, pai. Temos que atacar onde mais dói: o coração dele, os sentimentos.
Meu pai ficou quieto, me olhando.
— O que você tá pensando?
— O Ben tem um ponto fraco. Uma ferida que nunca fechou direito. — fiz uma pausa, olhando pro mapa. — A gente sequestra alguém que ele ama. Alguém que vai fazer ele surtar e cometer um erro.
— A Keyla? — meu pai sugeriu, a voz carregada de um desejo vingativo.
— Não… — respondi, um sorriso amargo se formando nos meus lábios. — Na verdade, o Ben ficaria bolado com qualquer um que a gente sequestrar, depois que a Cecília, irmã dele, foi sequestrada por culpa dele anos atrás. Ele tem um trauma pesado com sequestro. Mas a Keyla é muito vigiada. Difícil. Tem outra pessoa…
Meu pai se inclinou pra frente, interessado.
— Quem?
— Alguém que ele se importa de verdade. Alguém que vai fazer ele sair da toca e se expor. E quando ele fizer isso… — minha mão fechou no desenho da casa do Ben no caderno, — a gente acaba com ele.
A estratégia tava formando na minha cabeça, um plano frio e calculista.
Não era mais sobre raiva pura.
Era sobre vingança. E eu ia usar o próprio trauma do Ben contra ele. A ferida da Cecília, que ele carregava como uma culpa, ia ser a arma que ia derrubar o rei do morro. E pelo olhar no rosto do meu pai, ele tava começando a entender que eu não era mais o menino que ele tinha deixado pra trás. Eu era a tempestade que ia varrer o Ben do mapa.
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