Então Ela ficou parada ali por alguns segundos, sentindo a testa dele encostada na dela, o calor dos três cercando, como se o mundo inteiro tivesse sido reduzido àquela porta.
As lágrimas ainda caíam, mas o corpo já não tentava fugir.
— Eu tô cansada… — ela sussurrou, a voz falhando. — cansada de promessas.
Mariano fechou os olhos por um instante.
— Eu sei.
Maurício passou a mão no rosto, inquieto, mas mais calmo.
— Então deixa a gente te mostrar, p***a… em vez de só falar.
Magnos deu um passo mais perto, a voz baixa, quase rouca:
— Não vai embora hoje. Só… fica.
Ela respirou fundo, tremendo.
— E amanhã? E depois? Vai ser igual?
Silêncio.
Dessa vez eles não responderam rápido.
Isso foi o que mais pesou.
Mariano abriu os olhos devagar.
— Amanhã a gente começa diferente.
Ela soltou uma risada fraca, ainda chorando.
— “Começa diferente”… vocês sempre começam diferente depois que eu quase vou embora.
Maurício se aproximou mais da cama, olhando os cartões que ela tinha jogado ali.
— Então deixa dessa vez ser diferente sem tu sair.
Magnos olhou pra ela de novo, direto:
— A gente errou. Tá claro isso.
Ela mordeu o lábio, desviando o olhar.
— Não é só erro… é rotina de vocês.
Mariano passou a mão no rosto dela, secando uma lágrima com o polegar.
— Então a gente quebra essa rotina.
Ela fechou os olhos por um segundo, como se estivesse lutando contra tudo dentro dela.
— Eu não quero mais ser o lugar onde vocês voltam quando o mundo lá fora cansa.
A frase bateu forte.
Os três ficaram em silêncio.
Maurício falou primeiro, mais baixo:
— Tu não é isso pra gente.
Ela abriu os olhos, encarando ele.
— Então prova.
Silêncio.
Magnos respirou fundo.
— Fica hoje.
Mariano completou:
— Só hoje.
Ela olhou pra eles… ainda machucada, ainda desconfiada… mas já sem aquela força de ir embora.
Devagar, soltou a mala da mão.
Ela caiu no chão com um som seco.
Ninguém falou nada por um segundo.
Só o barulho da respiração dos quatro.
Maurício foi o primeiro a se mover, empurrando a porta com o pé pra fechar.
— A gente vai resolver isso direito… não vai ser na base do grito.
Magnos passou a mão no braço dela, mais leve agora.
— Vem.
Mariano ainda ficou olhando pra ela, como se tivesse medo de qualquer movimento quebrar tudo de novo.
— A gente tá aqui.
Ela não respondeu.
Mas também não saiu.
E naquela noite… pela primeira vez em dias, ninguém atravessou aquela porta.
A pizza chegou ainda quente.
O cheiro de massa e queijo não combinava com o clima da sala — pesado, tenso, como se qualquer palavra pudesse virar explosão.
Mariano abriu a caixa na mesa com força demais.
— Vem. Senta aqui.
Ela hesitou… mas sentou.
Os três também se sentaram, mas ninguém relaxou.
Silêncio.
Um silêncio que não era paz — era guerra segurada na garganta.
Maurício foi o primeiro a quebrar.
— Tu acha mesmo… — ele riu sem humor — que depois de quatro anos com você a gente ia te trair?
Ela soltou o ar pelo nariz, amarga.
— Eu não acho. Eu vejo.
Magnos bateu o copo na mesa, sem força pra quebrar, mas o suficiente pra estalar.
— Vê o quê, p***a? Homem da guarda trocando mulher toda semana e tu acha que a gente é igual?
Ela encarou ele, fria.
— Então por que vocês acham que são diferentes?
Mariano inclinou o corpo pra frente, os olhos fixos nela.
— Porque a gente é diferente com você.
Ela riu alto, sem alegria.
— “Comigo”. — ela repetiu. — Eu sou o quê? A exceção?
Maurício passou a mão no rosto, irritado.
— Tu tá virando essa paranoica dentro de casa, pô.
Ela bateu a mão na mesa.
— EU? Paranoica?
O silêncio estourou de novo.
Ela levantou o olhar, os olhos já cheios de lágrima e raiva ao mesmo tempo.
— Você chama isso de paranoia? Eu vejo vocês mudando, se afastando, sumindo… e eu tenho que fingir que tá tudo bem?
Magnos soltou um “tch” irritado.
— A gente te ama, pô. Quatro anos não é brincadeira.
Ela riu de novo, mas agora mais baixa.
— Não adianta falar isso agora.
Mariano inclinou a cabeça.
— Então o que adianta?
Ela respirou fundo… e explodiu.
— ADIANTA VOCÊS PARAREM DE AGIR COMO SE EU FOSSE DESCARTÁVEL!
O ar ficou pesado.
Ela apontou pra eles, tremendo.
— Vocês acham mesmo que não estão comendo ninguém lá fora? Ninguém daqui do morro? As colegas minhas?
Maurício respondeu rápido, irritado:
— Pelo amor de Deus, mestiça…
Ela cortou:
— ENTÃO PARA DE DAR MOTIVO PRA ELAS!
Silêncio seco.
Ela levantou da cadeira um pouco, andando de um lado pro outro, como se não coubesse mais nela mesma.
— Antigamente vocês me levavam no baile. Hoje não me levam mais.
Mariano franziu o cenho.
— Porque…
Ela apontou pra ele antes que ele terminasse.
— Porque têm ciúme.
Ela riu com desprezo.
— Quando eu danço, quando eu rebolo, quando os caras olham… vocês ficam possessivos.
Magnos passou a mão no cabelo, tenso.
— Não é isso…
— É ISSO SIM! — ela gritou. — Vocês preferem me trancar dentro de casa!
Maurício levantou a voz também:
— A gente te protege!
Ela bateu no próprio peito.
— PROTEGE DE QUÊ? DE VIVER?
Silêncio pesado.
Ela respirou forte, lágrimas escorrendo sem pausa.
— Enquanto isso… outras ficam lá fora, perto de vocês, rebolando, rindo… e eu aqui dentro.
Mariano ficou duro.
Ela continuou, mais baixa agora… mais quebrada, mas mais perigosa:
— Vocês sobem pro morro, ficam lá em cima, não mandam mensagem. Nem um “tá bem”. Nem um “tô vivo”. Nada.
Maurício abriu a boca, mas não falou.
Ela apontou pra eles, a voz tremendo.
— Vocês ficaram dias sem pisar aqui.
Silêncio.
Ela deu uma risada curta.
— Vocês sabiam que eu fiquei com febre sozinha?
Os três travaram.
Ela continuou, mais rápido agora, como se não conseguisse segurar:
— Eu caí no banheiro. Eu me machuquei toda. Meu quadril tá roxo… e vocês não sabem de nada porque vocês nunca estão aqui.
Magnos deu um passo à frente.
— p***a…
Ela levantou a mão, interrompendo.
— NÃO.
A voz dela quebrou.
— Vocês acham que deixar cartão, dinheiro… é proteção?
Ela respirou fundo, olhando direto nos olhos deles.
— Não é.
Silêncio pesado.
Ela engoliu seco.
— Porque tem alguém rondando minha casa.
O ar mudou.
Instantaneamente.
Mariano ficou sério.
— O quê?
Ela assentiu devagar.
— Duas noites. Eu vi a sombra na janela do quarto.
Maurício se levantou na hora.
— Repete isso.
Ela continuou, a voz mais fria agora, como se a raiva tivesse virado medo.
— Um cara. Sozinha. Rondando.
Magnos deu um passo pra trás, já diferente — não era mais briga, era alerta.
— Por que tu não falou isso antes?
Ela riu amarga.
— Pra quem? Pra vocês que não atendem telefone?
Silêncio pesado.
Ela respirou fundo, os olhos duros.
— E se ele entra aqui? E se ele pula essa janela e faz o que quiser comigo?
Ela apontou pra eles, tremendo.
— E vocês tão lá em cima. Donos do morro.
O silêncio virou pedra.
Ela continuou, a voz mais alta, quebrando tudo:
— E depois? Vocês vão matar? Vão atrás? Vão resolver? Vão limpar?
Ela deu um passo à frente.
— O m*l JÁ VAI TER ACONTECIDO!
Silêncio absoluto.
Ela respirou forte, lágrimas descendo sem parar.
— Porque eu tô aqui SOZINHA.
Ela apontou pra eles, a voz destruída:
— Vocês estão protegendo o morro… mas não estão me protegendo.
Silêncio.
Dessa vez, nenhum dos três respondeu na hora.
Mariano fechou os olhos por um segundo… quando abriu, a voz saiu baixa, perigosa.
— Quem foi o cara que tu viu?
Magnos já estava em pé.
Maurício também.
E a paz da sala acabou de vez.