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1351 Words
Então Ela ficou parada ali por alguns segundos, sentindo a testa dele encostada na dela, o calor dos três cercando, como se o mundo inteiro tivesse sido reduzido àquela porta. As lágrimas ainda caíam, mas o corpo já não tentava fugir. — Eu tô cansada… — ela sussurrou, a voz falhando. — cansada de promessas. Mariano fechou os olhos por um instante. — Eu sei. Maurício passou a mão no rosto, inquieto, mas mais calmo. — Então deixa a gente te mostrar, p***a… em vez de só falar. Magnos deu um passo mais perto, a voz baixa, quase rouca: — Não vai embora hoje. Só… fica. Ela respirou fundo, tremendo. — E amanhã? E depois? Vai ser igual? Silêncio. Dessa vez eles não responderam rápido. Isso foi o que mais pesou. Mariano abriu os olhos devagar. — Amanhã a gente começa diferente. Ela soltou uma risada fraca, ainda chorando. — “Começa diferente”… vocês sempre começam diferente depois que eu quase vou embora. Maurício se aproximou mais da cama, olhando os cartões que ela tinha jogado ali. — Então deixa dessa vez ser diferente sem tu sair. Magnos olhou pra ela de novo, direto: — A gente errou. Tá claro isso. Ela mordeu o lábio, desviando o olhar. — Não é só erro… é rotina de vocês. Mariano passou a mão no rosto dela, secando uma lágrima com o polegar. — Então a gente quebra essa rotina. Ela fechou os olhos por um segundo, como se estivesse lutando contra tudo dentro dela. — Eu não quero mais ser o lugar onde vocês voltam quando o mundo lá fora cansa. A frase bateu forte. Os três ficaram em silêncio. Maurício falou primeiro, mais baixo: — Tu não é isso pra gente. Ela abriu os olhos, encarando ele. — Então prova. Silêncio. Magnos respirou fundo. — Fica hoje. Mariano completou: — Só hoje. Ela olhou pra eles… ainda machucada, ainda desconfiada… mas já sem aquela força de ir embora. Devagar, soltou a mala da mão. Ela caiu no chão com um som seco. Ninguém falou nada por um segundo. Só o barulho da respiração dos quatro. Maurício foi o primeiro a se mover, empurrando a porta com o pé pra fechar. — A gente vai resolver isso direito… não vai ser na base do grito. Magnos passou a mão no braço dela, mais leve agora. — Vem. Mariano ainda ficou olhando pra ela, como se tivesse medo de qualquer movimento quebrar tudo de novo. — A gente tá aqui. Ela não respondeu. Mas também não saiu. E naquela noite… pela primeira vez em dias, ninguém atravessou aquela porta. A pizza chegou ainda quente. O cheiro de massa e queijo não combinava com o clima da sala — pesado, tenso, como se qualquer palavra pudesse virar explosão. Mariano abriu a caixa na mesa com força demais. — Vem. Senta aqui. Ela hesitou… mas sentou. Os três também se sentaram, mas ninguém relaxou. Silêncio. Um silêncio que não era paz — era guerra segurada na garganta. Maurício foi o primeiro a quebrar. — Tu acha mesmo… — ele riu sem humor — que depois de quatro anos com você a gente ia te trair? Ela soltou o ar pelo nariz, amarga. — Eu não acho. Eu vejo. Magnos bateu o copo na mesa, sem força pra quebrar, mas o suficiente pra estalar. — Vê o quê, p***a? Homem da guarda trocando mulher toda semana e tu acha que a gente é igual? Ela encarou ele, fria. — Então por que vocês acham que são diferentes? Mariano inclinou o corpo pra frente, os olhos fixos nela. — Porque a gente é diferente com você. Ela riu alto, sem alegria. — “Comigo”. — ela repetiu. — Eu sou o quê? A exceção? Maurício passou a mão no rosto, irritado. — Tu tá virando essa paranoica dentro de casa, pô. Ela bateu a mão na mesa. — EU? Paranoica? O silêncio estourou de novo. Ela levantou o olhar, os olhos já cheios de lágrima e raiva ao mesmo tempo. — Você chama isso de paranoia? Eu vejo vocês mudando, se afastando, sumindo… e eu tenho que fingir que tá tudo bem? Magnos soltou um “tch” irritado. — A gente te ama, pô. Quatro anos não é brincadeira. Ela riu de novo, mas agora mais baixa. — Não adianta falar isso agora. Mariano inclinou a cabeça. — Então o que adianta? Ela respirou fundo… e explodiu. — ADIANTA VOCÊS PARAREM DE AGIR COMO SE EU FOSSE DESCARTÁVEL! O ar ficou pesado. Ela apontou pra eles, tremendo. — Vocês acham mesmo que não estão comendo ninguém lá fora? Ninguém daqui do morro? As colegas minhas? Maurício respondeu rápido, irritado: — Pelo amor de Deus, mestiça… Ela cortou: — ENTÃO PARA DE DAR MOTIVO PRA ELAS! Silêncio seco. Ela levantou da cadeira um pouco, andando de um lado pro outro, como se não coubesse mais nela mesma. — Antigamente vocês me levavam no baile. Hoje não me levam mais. Mariano franziu o cenho. — Porque… Ela apontou pra ele antes que ele terminasse. — Porque têm ciúme. Ela riu com desprezo. — Quando eu danço, quando eu rebolo, quando os caras olham… vocês ficam possessivos. Magnos passou a mão no cabelo, tenso. — Não é isso… — É ISSO SIM! — ela gritou. — Vocês preferem me trancar dentro de casa! Maurício levantou a voz também: — A gente te protege! Ela bateu no próprio peito. — PROTEGE DE QUÊ? DE VIVER? Silêncio pesado. Ela respirou forte, lágrimas escorrendo sem pausa. — Enquanto isso… outras ficam lá fora, perto de vocês, rebolando, rindo… e eu aqui dentro. Mariano ficou duro. Ela continuou, mais baixa agora… mais quebrada, mas mais perigosa: — Vocês sobem pro morro, ficam lá em cima, não mandam mensagem. Nem um “tá bem”. Nem um “tô vivo”. Nada. Maurício abriu a boca, mas não falou. Ela apontou pra eles, a voz tremendo. — Vocês ficaram dias sem pisar aqui. Silêncio. Ela deu uma risada curta. — Vocês sabiam que eu fiquei com febre sozinha? Os três travaram. Ela continuou, mais rápido agora, como se não conseguisse segurar: — Eu caí no banheiro. Eu me machuquei toda. Meu quadril tá roxo… e vocês não sabem de nada porque vocês nunca estão aqui. Magnos deu um passo à frente. — p***a… Ela levantou a mão, interrompendo. — NÃO. A voz dela quebrou. — Vocês acham que deixar cartão, dinheiro… é proteção? Ela respirou fundo, olhando direto nos olhos deles. — Não é. Silêncio pesado. Ela engoliu seco. — Porque tem alguém rondando minha casa. O ar mudou. Instantaneamente. Mariano ficou sério. — O quê? Ela assentiu devagar. — Duas noites. Eu vi a sombra na janela do quarto. Maurício se levantou na hora. — Repete isso. Ela continuou, a voz mais fria agora, como se a raiva tivesse virado medo. — Um cara. Sozinha. Rondando. Magnos deu um passo pra trás, já diferente — não era mais briga, era alerta. — Por que tu não falou isso antes? Ela riu amarga. — Pra quem? Pra vocês que não atendem telefone? Silêncio pesado. Ela respirou fundo, os olhos duros. — E se ele entra aqui? E se ele pula essa janela e faz o que quiser comigo? Ela apontou pra eles, tremendo. — E vocês tão lá em cima. Donos do morro. O silêncio virou pedra. Ela continuou, a voz mais alta, quebrando tudo: — E depois? Vocês vão matar? Vão atrás? Vão resolver? Vão limpar? Ela deu um passo à frente. — O m*l JÁ VAI TER ACONTECIDO! Silêncio absoluto. Ela respirou forte, lágrimas descendo sem parar. — Porque eu tô aqui SOZINHA. Ela apontou pra eles, a voz destruída: — Vocês estão protegendo o morro… mas não estão me protegendo. Silêncio. Dessa vez, nenhum dos três respondeu na hora. Mariano fechou os olhos por um segundo… quando abriu, a voz saiu baixa, perigosa. — Quem foi o cara que tu viu? Magnos já estava em pé. Maurício também. E a paz da sala acabou de vez.
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