Nathanael também não estava com pressa, na verdade, porém foi contando só o necessário. Omitiu, como mais cedo, a parte em que tinha sido agredido para sair com irmão mais novo do Ítalo, e que agora estava num encontro com ele, e detestando. Ou seja, toda a verdade. Evitou ao máximo perguntas como “quem?”, “onde?”, “quando conheceu?”. E o que lhe restou disso foi a tentativa de se equilibrar numa corda de lógica bamba: estou num encontro e me divertindo, ele é legal. Aquele “digitando...” deixava Nathan ansioso, mas igualmente feliz, imaginando se Gabriel engoliria mais essa de encontro com um garoto não previamente comentado com ele. Nathan girava o anel favorito no dedo enquanto esperava a resposta, os detalhes prateados reluzindo, entretendo Nathanael muito mais que qualquer parte daquela noite.
Uns bons minutos se passaram conversando com Gabriel até ele dizer que iria fazer o dever. Nathan, distraído, migrara para o Spotify, tão instintivamente que nem percebeu. E, em pouco tempo, já estava numa partida de Minecraft. Ele ouvira de tudo: de Billie até Mamonas Assassinas.
Quando se deu conta, o peso do tempo passado o assustara. Uma luz falhou no banheiro, e então se apagou. E outra, e agora só umas quatro, daquele banheiro enorme, estavam acesas. Alguns passos ali garantiram a Nathan que pelo menos o shopping ainda não havia fechado, mas que estava quase. Espiou o celular e já eram 23h20.
Destrancou a porta da cabine e saiu dali como se tivesse esquecido o filho recém-nascido fervendo na panela. Guardou o celular e lavou as mãos com a mesma velocidade, e empalideceu inteiro quando viu Isaac parado na porta, olhando para ele com um pacote de amendoim pela metade numa das mãos; uma latinha inacabada de Coca na outra. A latinha de Nathan.
— Oi! Isaac, oi, desculpa, eu acabei... eu nem vi o tempo passar... — tentou se explicar, o rosto em vergonha, arrependido de ter agido como um belo babaca pela primeira vez naquela noite.
— Você está passando m*l?
— Não. — Embora fosse uma ótima desculpa. Mas Nathan não havia pensado nela quando deixou o não escapar. Agora já foi.
— Eu te procurei pelo shopping, sabe. Porque o filme já tinha acabado e você ainda não havia voltado. Aí eu pensei que tivesse acontecido alguma coisa.
— Desculpa.
Então Isaac sorriu sem gosto, lembrando que há algumas horas estava sempre repreendido por pedir desculpa. Naquele momento, naquele breve momento, se arrependeu de todas as vezes que pediu. Mas tentou afastar o pensamento.
Seu coração parecia despedaçado, ou trincado o bastante para isso, pelo menos. Isaac se lembrou das vezes em que divagou, sonhando acordado com o dia em que Nathanael o convidaria para ir a um baile desses de filme teen estaduonidense. Mesmo não sabendo por quê, imaginava Nathan usando um terno preto mas estampado com pétalas rosas, florido assim, tão bonito e chamativo quanto cafona, algo bem a cara de Nathan. Então Isaac o puxaria para a pista de dança, eles bailariam qualquer droga de música melodiosa demais e melancólica demais, e então se beijariam ali mesmo, na frente de todos, orgulhosos e quentinhos por estarem na presença um do outro.
É… talvez fosse apenas mais um sonho i****a mesmo.
— Então você só queria um tempo de mim — disse Isaac. Era uma conclusão tão óbvia que nem ele conseguia mais escapar dela.
Nathan abriu a boca para protestar, mas logo a fechou, calculando as chances de valer a pena. Abriu-a novamente, achando que valia a pena.
— Não, Isaac, sério. Olha só, é claro que — você não pode contar isso pro seu irmão, por favor, seu moleque do c*****o — não é isso! Eu só perdi a noção de tempo. Sinto muito.
— Hum. Tudo bem
— Desculpa mesmo.
— Vem, o shopping já vai fechar.
Nathan foi. Isaac o esperou passar e, sem que Nathan percebesse, jogou a latinha e o resto de amendoim no lixo próximo à porta.
Eles rodaram o andar em busca da escada rolante, que estava desligada, e era tão difícil descer aqueles degraus com o clima tensão que se instaurara entre os dois quanto um alpinista voltando pelo caminho do Everest.
Já na terceira escadaria, quando a culpa era insuportável até para Nathan, ele intencionalmente esbarrara sua mão na de Isaac, tentando ali fazer ficarem unidas uma à outra. Não conseguindo, tendo em vista que Isaac andava mais rápido ou mais devagar tão intencionalmente quanto, para se desencontrar do toque de Nathan, que agora parecia não ter tanta graça.
Chegaram na entrada do shopping faltando algo próximo de trinta minutos para meia-noite. Um silêncio acumulado ali. Nathan girando o anel no dedo, Isaac no celular.
— Tá chamando seu irmão?
— Ainda não.
Nathan estava com receio de perguntar, porque, embora quisesse se livrar de Isaac, ainda tinha um pingo de noção com uma pitada de respeito. Mas ele queria mesmo ir embora, agora mais que nunca.
— E... já tá chamando?
— Claro, claro. Só esperando.
— Ele responder?
Mas Nathanael sabia que não era isso.
— Eu posso te dar um beijo? — pediu Isaac Monteiro. — Só um. Unzinho. Antes de irmos.
— Isaac... olha, eu acho melhor...
— Nathan… Nath, falando sério agora, por que quis sair comigo? Tipo, você só me chamou pra sair ontem e... meio que já sabia há um tempo que...
— Tá, ó. É o seguinte.
Seu irmão cuzão está me ameaçando encher de porrada ou ah, sabe, é que eu já estava cansado de jogar Minecraft, e queria sair um pouco? Imaginei que, saindo com você de uma vez, você me deixaria em paz ou fingi ser um babaca a noite toda para você perceber que o simples fato de fingir ser um babaca já te transforma num babaca, fazendo assim com que você desistisse de mim, pois tenho medo de relacionamento? Que tal se ele respondesse isso? Hum, que tal?
— Queria ir com calma, sabe. — E seguir as tais etapas., pra variar
— Saquei.
Mas não havia sacado, não. Nathan não era do tipo que seguia etapas, e Isaac não era tão ingênuo ao ponto de não perceber isso. Era por essa razão que tentava alcançar o espírito emocionalmente moderno dele. Era por essa razão, além de querer muito, que queria um beijo de Nathan.
— Não. Quer saber? Tudo bem.
Nathan achou decidir que estava tudo bem.
Isaac inclinou-se sobre ele, sem muitas delongas, porque seu coração apaixonado não aguentaria a tortura da lentidão, e roubou um selinho de Nathan. Um selinho casto, cuidadoso e macio para os dois. Um selinho necessitado que agora misturava receio, ansiedade, amor e luxúria; um selinho que virara beijo quando Isaac moveu seus lábios, obrigando os de Nathan a se moverem também, e por ali ele deslizou sua língua tímida, mas bem incisiva, roubando do seu objeto de desejo até o sabor doce de Coca e Fini que ainda havia no seu beijo.
Uma mão boba deslizou pela cintura de Nathan até alcançar a base da coluna, primeiro como apoio, depois, dando um aperto generoso, agarrando a b***a de Nathan como por muito tempo apenas sonhara em fazer. Mas tão demorado e devorador que não conseguiu escapar do empurrão de repreensão em seu braço, que, de tão rápido, quebrou o beijo; desculpa para Nathan desaparelhar seu corpo do de Isaac, regredindo às posições iniciais do jogo.
Game over.
Sair do jogo Recomeçar.
Mesmo sendo repreendido, Isaac sorriu, satisfeito. Desbloqueou o celular e ligou para o seu irmão, que chegaria dali a exatos vinte e nove minutos.
• • •
— Como foi o cinema? — perguntou Ítalo, já no carro, quando o seu irmão caçula abriu a porta traseira para Nathan ir primeiro. Questionamento feito a Isaac, obviamente, que sorriu confidente para o vazio.
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E assim seguiram. Ítalo fez o retorno, para deixar Nathan em casa. Agora já sabia onde ele morava (embora mais tarde fosse fingir que não), de quando o buscou com Isaac, e não era tão longe da casa deles... caso seu irmão quisesse lhe fazer uma visita, caso Isaac quisesse que Ítalo arrastasse Nathan até ele.
A viagem seguiu calma e segura; um silêncio confortável mais para Ítalo e Isaac do que para Nathan, mas, ainda assim, bom. Ítalo dirigia com uma plenitude que ninguém associaria ao do dia anterior. Ele observava os dois pelo retrovisor entre um sinal e outro, entre uma rua em linha reta e uma redução de velocidade. O único diálogo em todo o trajeto — qual Ítalo prestou bem atenção — foi:
— Você se divertiu? — sussurrou Isaac para Nathan.
— Hum? Humm! Uhum.
Isaac riu para o nada.
— Não quer que eu te conte o resto do filme?
Silêncio.
— E por quê, Isah? — Ítalo precisou intervir. — Por que contar o resto do filme? Vocês não foram ver o filme juntos?
Aquele maldito pentelho.
— Não — disse Isaac, de repente achando a coisa toda engraçada. — Se ele assistiu a dois quintos do filme, foi muito.
Ítalo ignorou a direção por um momento. Encarando o retrovisor.
— Ah, foi, Nathan? — E questionou, no pleno acaso da curiosidade: — E onde você estava?
— Ele passou o maior tempão no banheiro! Acredita? — Isaac riu tão sinceramente que Ítalo precisou rir também. De um jeito não tão empolgado e audível, mas Nathan poderia jurar que o seu reflexo no espelhinho era o de um sorriso. Um sorriso sem dentes, mas um sorriso. Um sorriso de “eu vou te matar”.
E então Ítalo cruzou uma rua, duas, e chegaram à porta de Nathan antes mesmo da risada de Isaac se esvair por inteira.
— Hum... tchau, Nathan — disse Isaac, sorrindo. Não moveu um músculo sequer para se despedir, porque entendia que já haviam se tocado demais naquela noite, e ele já entendera que se tocar demais era demais para Nathan. Estava feliz com o que já tinha.
Mas Ítalo parecia não estar. Encarando Nathan daquele jeito, sério, não dizendo tchau pro Nathan também... Nathan entendeu que tinha que fazer alguma coisa que ainda não sabia o que era. Mas era bom descobrir rápido. Na rapidez de quem agora tem seus pais esperando na porta para te receber e começar os questionamentos de como havia sido tudo.
Nathan inclinou lentamente, testando o espaço e o próprio equilíbrio, e acabou por ficar quase de quatro ao apoiar uma das mãos nas costas da poltrona de Ítalo. Seus cabelos roçavam na bochecha de Isaac, mas não o suficiente para tampar a visão de quem realmente deveria ver. Com a outra mão, Nathan acariciou a boca de Isaac em direção à sua, e o beijou com a mesma ternura que ele usou para perguntar “tudo bem?”, todas as vezes naquela noite. Puxou os lábios de Isaac com os lábios, vez ou outra o provocando com língua; Isaac ora sedento, ora dando selinhos demorados em Nathan, que, para terminar, mordiscou o lábio dele e o encarcerou por entre seus dentes, e o tomou para si mais uma vez.
Nathan agora era um ótimo ator, e Isaac era uma plateia satisfeita, com uma ovação de bravo! bravíssimo! e palmas que reverberam pelo teatro todo e restante do corpo.
Um Ítalo no retrovisor ameaçou um sorriso, dizendo “ele já está indo” para os pais de Nathan, através de um gesto. Nathan se recolheu, tateou e examinou o banco para ver se não estava esquecendo nada — sua carteira, seu celular, sua dignidade —, e saiu do carro. Nathan os ouviu partir enquanto caminhava até a entrada.
Quando chegou ao quarto, após tomar um bom banho e, bem, finalmente respirar com mais suavidade, Nathan foi logo ver as possíveis mensagens não visualizadas de Gabriel. Mas não havia nada, se não as dos grupos inconvenientes e uma mensagem nova, de um número desconhecido.
78 (28) 92378-4000
online
Oi! Peguei seu número pelo grupo da turma sua e do Ítalo. Ele estava me contando que você estava mesmo passando um pouco m*l por causa de algo que comeu mais cedo. Ele falou que você mandou mensagem, justificando, do banheiro. E que não quis me contar a verdade para não me preocupar ou te achar menos legal, e que era pra ele me explicar melhor ou sei lá kkkkkkk Mas eu adorei estar com você... [00:11]
Boa noite :) [00:12]
E o Ítalo está perguntando aqui se você quer que ele te busque no mesmo horário, amanhã... [00:13]