Kitty
Chego na editora com cinco minutos de atraso, o que para mim é praticamente um feito olímpico considerando que eu acordei vinte minutos depois do despertador. A recepção está movimentada como sempre, mas não deixo isso me desanimar.
Dou um sorriso para o segurança, aceno para a recepcionista e até paro para brincar com uma das estagiárias que está carregando uma pilha de livros que parece maior que ela.
— Ei, cuidado pra não ser engolida pelos manuscritos, hein? É assim que o mercado editorial consome as almas dos inocentes.
Ela ri nervosamente, mas eu sigo em frente antes que ela possa processar minha piada.
Entro no elevador e me encontro com dois colegas de outros departamentos. O típico bate-papo começa antes mesmo de as portas fecharem.
— Bom dia, Kitty! Correndo como sempre? — pergunta Roberta, ajustando os óculos.
— Correndo não. Eu sou mais estilo ‘andando com drama,’ mas obrigada por notar — respondo com um sorriso. — Meu fim de semana foi meio doido.
— Onde conseguiu essa bolsa? É maravilhosa! — outra colega comenta, apontando para minha bolsa cheia de adesivos de gatos.
— Ah, essa? Um achado online. Mas o detalhe mais importante são os gatinhos, claro. Cada adesivo representa um momento importante na minha vida. Esse aqui, por exemplo, é do dia em que eu disse ‘não’ para um ex que queria dividir um cachorro. Quem divide um cachorro?!
Elas riem enquanto o elevador sobe, e eu aproveito para tirar um espelho compacto da bolsa e dar uma checada rápida no cabelo. Claro que tem um fio rebelde apontando para o teto como uma antena, mas decido ignorar.
As portas se abrem no meu andar e, com uma despedida rápida, sigo para a sala do meu chefe. O corredor está silencioso como sempre, exceto pelo som de passos suaves vindo mais à frente.
Enquanto caminho, vejo uma figura saindo da sala do café, segurando um copo. Ele está curvado, andando devagar, quase como se estivesse tentando se misturar às paredes. O capuz do moletom cobre a maior parte do rosto, mas consigo perceber que ele está completamente focado em não fazer contato visual com ninguém.
É engraçado, porque eu sou o oposto. Sou do tipo que faz questão de olhar nos olhos de todo mundo, nem que seja só pra dar um “bom dia” animado. Mas ele? Parece que o objetivo da vida é passar despercebido.
Por um segundo, me pergunto quem ele é. Não me lembro de já ter visto alguém assim por aqui. Talvez um estagiário novo? Ou alguém de outro andar?
Antes que eu possa pensar muito sobre isso, ele vira à direita e desaparece pelo corredor.
— Estranho — murmuro para mim mesma, mas logo sacudo a cabeça. Minha mente já está se voltando para a pilha de documentos que sei que me espera.
Abro a porta da sala do meu chefe com meu sorriso habitual.
— Bom dia, chefe, espero que esteja pronto para mais um dia incrível, porque eu já estou a mil por hora! Culpe as bebidas doce que eu engoli no fim de semana.
Ele me olha por cima dos óculos com a expressão de quem não tomou café o suficiente para lidar comigo. O que, francamente, é problema dele, porque eu estou aqui e estou pronta para conquistar o mundo.
Foi ele que decidiu contratar uma maluca
***
Atualmente
— Amiga, está indo bem — falo, vendo o sorriso de Kendra.
Está um pouco ansiosa com iniciar uma nova história, mas também se sente mais segura agora que tem alguém que a apoia incondicionalmente. Como um aviso de que estará com ela, Joshua surge com uma vasilha cheia de mini brownies, colocando-os perto de nós.
— Só não quero fazer nada errado, sabe — me conta, e eu a entendo, depois de todo aquele caos, a revelação de sua identidade, posso compreender, porém, não vai servir de nada continuar encabulada com o futuro.
Já faz quase um ano desde o ocorrido.
O pior é que a família dela se tornou mais turbulenta.
Por isso, como sua amiga, agradeço por ela ter o projeto de Thor ao seu lado.
— Você sempre se supera, se precisar de alguns dias longe no rancho, fodendo sobre o feno, me avisa — digo e ela cai em uma gargalhada, olhando para trás, observando as costas largas de seu noivo, que certamente ouviu o que foi dito.
— Ele voltou para suas aulas, não podemos tirar férias agora — segreda Kendra após se inclinar para mais perto.
Assim como ele tem a apoiado em tudo, também está decidida a fazer igual.
— Mas e sua mudança? Encontrou um lugar legal? — me pergunta Kendra, ansiosa por respostas. Olhou alguns apartamentos comigo, mas nenhum deles fazia com que meu coração balançasse.
Também fiz algumas visitas com Maeves, porém, o resultado foi semelhante.
— Minha mãe começou a sair de novo, não quero que ela pense que não pode t*****r porque estamos sob o mesmo teto — comento. Minha mãe perdeu muito de sua vida, focando-se somente em ser uma mãe modelo que apoiaria a sua filha.
Sair de sua casa a primeira vez foi um grande passo, mas depois de perder o seu emprego acabou entregando o seu apartamento e veio ficar comigo por um tempo, o que não é um problema para mim.
Mas mesmo que eu esteja chegando nos trinta a mulher não consegue se desvencilhar de mim como eu queria, afinal, quero que seja livre, por esse motivo decidi que deveria comprar outro apartamento para ela poder morar sozinha.
Sempre me preocupei com ela pagando aluguel e agora que posso comprar outro lugar posso deixá-la viver tranquilamente no que moro atualmente.
— Se ela for como você, dá o seu jeito — brinca Kendra, e este é o ponto. Me ensinou a ser tão forte, capaz de cuidar de mim sozinha, mas não tem o mesmo esforço em sua vida, por isso desejo cortar o cordão umbilical de uma vez por todas entre nós.
— Queria bebê, mas não é assim que tem rolado — pontuo, o que a deixa pensativa.
— É somente a questão com o apartamento? Podemos ver outros nesse final de semana — articula minha amiga, enfiando um dos mini brownies na boca, limpa o canto da boca sujo de chocolate em seguida.
— Não — confesso. — O chefe me chamou para uma conversa e espero de verdade que não seja com a intenção de me demitir — aclaro.
— Ele não seria louco, você é uma das funcionárias que mais tem autores sob sua responsabilidade, fora a confiança que temos em você, que Javier tem — fala Kendra, e sempre achei incrível como pode ser sincera, parceira, sua gentileza me atraiu em primeiro lugar. — Se sair, saio também — diz por último.
— Amo você, bebê — declaro, sorrindo, ela arrasta sua cadeira para mais perto, me dando tapinhas no ombro para declarar o seu amor também. Tenho que ser grata por a conhecer.
Contudo, horas mais tarde, depois de enfrentar a academia com Júlia e Amara, ainda me sentia meio nervosa. Em todos os anos que trabalho na editora nunca tive problemas com o chefe, assim, o seu chamado repentino me deixa confusa e enervada.
No elevador, cumprimento algumas pessoas que me olham com olhos brilhantes. Kendra tem razão quando diz que cuido de muitos autores, e corre o boato na editora de que tenho dedo de ouro, porque todos os meus autores são bem sucedidos, assim, ser escolhido por mim é como uma passagem para ser best-seller.
Com o som das botas batendo sobre o piso, continuo caminhando na direção da sala do chefe. Não tenho motivos para continuar o evitando. Como minha mãe diz, o que for acontecer acontecerá, não importa se eu empurrar para mais longe por um tempo.
Tudo tem consequências, evitar pode piorar o que quer que seja.
— Pode dizer para o senhor Hort que cheguei minha linda — pisco para a secretária que dá um sorriso grande antes de fazer a pequena chamada. — Obrigada Charlotte.
— De nada — fala e volta a suas tarefas sem verificar se estou bufando ou não antes de adentrar na sala. Todo cuidado é pouco, mas não deixo de ter algum controle sobre meus sentimentos.
Quando entro na sala, Javier continua com a cabeça inclinada para sua tela verificando os seus afazeres sem se incomodar com a intromissão que lhe foi anunciada.
Caminhando devagar, me sento no sofá que sempre me faz pensar que meu traseiro está em cima de uma nuvem, de tão macio que é. Talvez devesse perguntar onde encontro um igual a ele para poder colocar em meu apartamento novo.
— Obrigada por vir tão rápido Kitty — fala Javier assim que termina de dar quantos cliques precisa para finalizar a sua tarefa.
— Não se pode evitar o seu chefe para sempre — digo. Javier faz um meneio confirmando, no entanto, é impossível não ver o seu sorriso no canto do rosto.
Gosta de dar liberdade a todos que trabalham na editora, acredita que isso torna o trabalho mais fácil de manusear para os funcionários, e está certo, o nosso rendimento é muito maior do que outras editoras no mercado.
Sua estratégia foi eficiente para torná-lo muito conhecido no ramo.
Também pude ver seu interesse em manter todos em uma boa situação depois do que houve com Kendra, apenas me deu liberdade para fazer como queria e foi o que arquitetei para impedir que Michelle a prejudicasse.
Aquela mulher sempre me surpreende.
Igual às suas atitudes recentes, é como se ela fosse outra pessoa.
— Você quer um café? Pode ser uma conversa que demorará um pouco — me informa e, ponderando por dois segundos, concluo que não pode ser uma demissão. Não precisaria evitar me dar com conversa fiada, então é uma coisa diferente.
Um pouco mais aliviada, me questiono o que ele pode querer.
— Um achocolatado seria incrível — digo e ele dá um sorriso estranho.
— Alguém já disse que você é uma chocólatra? — Apenas deixo que suas palavras sejam como o vento seguindo um caminho diferente dos meus ouvidos. — Certo, vamos resolver as coisas.
E é tudo que eu quero.