Prólogo. Boas amigas
Kitty
O barzinho está lotado, mas conseguimos pegar uma mesa redonda bem no canto. O ambiente é aquele clássico pós-jogo universitário: muita conversa alta, música ao vivo que luta para competir com o burburinho e garçons correndo para dar conta de todo mundo.
—Se esse mojito não chegar rápido, vou achar que o bartender tá fazendo yoga com a ruiva gostosa do bar — Maeves comenta, cruzando os braços enquanto olha para o balcão.
— Yoga resolve tudo, né? — Kendra retruca, rindo, enquanto ajeito o seu cabelo loiro num coque perfeito, porque ela só consegue fazer coisas estranhas sem um espelho. — A ruiva é mesmo bonita.
— Vocês duas e essa obsessão por yoga — resmungo, apoiando o queixo na mão. Não é bem uma obsessão, mas é motivo para piada entre nós. — Já não basta me arrastarem pra aquela aula às seis da manhã, agora vocês acham que todos no mundo deviam viver de cabeça pra baixo.
— Olha, se você tentasse mais vezes, talvez sua vida amorosa melhorasse — Maeves responde com um sorriso debochado, apoiando o cotovelo na mesa.
— Eu passo, obrigada. Eu prefiro amor de gato e noites sem dor nas costas — rebato. — Certo, às vezes, dor nas costas é um bom sinal — complemento e rimos juntas.
Amara, como sempre, está com aquele ar de irmã mais velha do grupo, observando a gente com um sorriso indulgente. Ela tamborila os dedos no copo de suco de laranja – porque, claro, ela é a única que ainda está na primeira bebida da noite.
— Vocês duas estão sempre brigando por causa de yoga. Já pararam pra pensar que talvez a Kitty tenha razão em odiar?
— A Kitty odiar coisas é quase um estilo de vida — Júlia comenta, jogando os cabelos loiros sobre os ombros enquanto sorri de lado.
— Ei! Eu não odeio tudo. Só odeio coisas específicas, tipo yoga, abacaxi, e pessoas que acham que um ‘oi, sumida’ às três da manhã é convite pra voltar pra minha vida — rebato. — Tem momentos que a dor nas costas é só um incômodo mesmo.
Maldito desgraçado que me acordou de madrugada para falar merda.
Tomo um gole da minha bebida o praguejando.
— Ah, o abacaxi de novo — Kendra suspira, revirando os olhos.
— É uma fruta inútil! É amarga, espeta a língua, e todo mundo insiste em colocar ela em coisas onde não devia estar, tipo pizza. É o demônio das frutas — falo, enumerando os defeitos dela.
As meninas caem na gargalhada, e Maeves praticamente se joga para trás na cadeira.
— O demônio das frutas? Você é tão dramática!
— Mas ela tem um ponto — Júlia diz, dando um gole no drink. — Eu também odeio abacaxi em pizza. Tem coisas que foram feitas pra ficar separadas.
— Tipo você e aquele ex seu — Amara comenta casualmente, e Júlia quase se engasga.
— Ok, ponto pra você — Júlia admite, limpando o canto da boca com o guardanapo.
Enquanto a conversa segue, um garçom finalmente aparece com os nossos pedidos. Maeves levanta o copo de mojito como se fosse um troféu, e Kendra ergue o dela em solidariedade.
— Um brinde à sobrevivência — Maeves diz.
— À sobrevivência de quê? Do jogo? — Amara pergunta, levantando uma sobrancelha.
— Do jogo, das provas, dos ex, e da vida em geral — Maeves responde, sorrindo.
Dou um gole na minha cerveja e olho em volta.
— Falando nisso, vamos falar de relacionamentos. Ou, no caso de algumas de nós... — faço uma pausa dramática e aponto pra mim mesma. — A falta deles.
Amara solta uma risada curta.
— Você faz parecer que isso é uma escolha consciente.
— Porque é — respondo, inclinando a cabeça. — Sabe o que é libertador? Não ter que responder mensagens que começam com ‘Oi, sumida’ — zombo, odiando que o idota perturbe minha mente.
“Eu só queria trocar o óleo do motor.” Penso com desgosto.
— Ou terminar um date com a sensação de que você podia ter ficado em casa assistindo reality show — Júlia acrescenta, rindo.
— Ou yoga — complementa Kendra, com um sorriso malicioso.
— Ok, isso foi um ataque direto — retruco, apontando pra ela.
— Foi mesmo — Maeves concorda, piscando pra mim.
Dou um gole longo na cerveja antes de me inclinar pra frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Vou ser sincera: eu não preciso de um príncipe em um cavalo branco, sabe? Só de alguém que saiba cozinhar e que f**a bem.
O silêncio na mesa dura meio segundo antes de explodir em gargalhadas. Maeves quase derruba o mojito, e Júlia bate a mão na mesa, atraindo olhares de outras mesas próximas. Amara tenta manter a compostura, mas até ela não consegue segurar o riso.
— Você devia patentear isso — professa Kendra, ainda rindo.
— Vou bordar numa almofada — respondo, colocando uma mão no coração como se fosse uma promessa solene.
“Como se você soubesse bordar” zomba meu lado ineficiente em trabalhos manuais.
— E pendurar no seu quarto, junto com o pôster dos seus gatos — Júlia acrescenta.
— Sabe, eu tô começando a achar que vocês não levam minha filosofia de vida a sério — pontuo, fingindo indignação.
— Ah, Kitty, a gente leva sim. Só não consigo parar de imaginar você colocando um avental no cara e dizendo: ‘Agora vai lá fazer meu risoto’— Maeves diz, secando uma lágrima de tanto rir.
A conversa continua, cada uma adicionando mais histórias ou comentários. Maeves conta sobre um cara que conheceu na aula de yoga e que achava que chakras podiam resolver problemas financeiros. Júlia fala de um date terrível onde o cara passou metade da noite tirando selfies no espelho do banheiro.
— E você, Amara? Alguma história r**m pra compartilhar? — pergunto, inclinando a cabeça pra ela.
— Eu sou a mais velha aqui. Não preciso de histórias ruins. Só observo vocês e aprendo o que não fazer — ela responde com um sorriso.
— Ah, claro. A irmã mais velha do grupo, cheia de sabedoria — Kendra provoca.
— Exatamente. E a sabedoria diz que vocês precisam parar de reclamar tanto e aproveitar mais. Inclusive, Kitty, talvez seja hora de tentar yoga de novo. Quem sabe você encontra o amor no tapete?
— Se encontrar, eu jogo fora. O único amor que eu preciso tá esperando em casa, com quatro patas e bigodes — respondo.
— E sem abacaxi — Júlia adiciona, rindo.
— Exato.
A noite segue assim, cheia de risadas, piadas internas e histórias absurdas que ninguém mais entenderia. No fim, não importa se temos príncipes ou gatos, yoga ou pizza. O que importa é que temos umas às outras – e, claro, drinks para brindar isso.
Estamos apenas no começo dessa vida universitária e eu só tenho a agradecer por encontrá-las.
***
O som da música alta vibra pelas paredes, e as luzes coloridas piscam tão rápido que me sinto em um videoclipe dos anos 2000. Estamos em uma festa na fraternidade mais badalada da universidade – ou, como Júlia gosta de chamar, “o circo dos horrores”.
Aqui as escolhas são limitadas: bêbados, jogadores ou aqueles que são ambos.
— Isso aqui parece um desfile de carnaval, mas só com alas de playboys — comento, olhando ao redor enquanto seguro meu copo de refrigerante – porque já aprendi da pior forma que beber vinho branco nesses eventos é pedir para sofrer.
— E isso é r**m porque…? — Júlia pergunta, jogando o cabelo loiro de um lado para o outro como se quisesse me lembrar que ela brilha em qualquer ambiente.
— Porque não é o meu tipo — respondo, apontando discretamente para um grupo de caras com camisas desabotoadas demais, pulseiras de couro e aquele sorriso de quem acha que é um presente para a humanidade.
Maeves quase se engasga com o drink dela de tanto rir.
— Claro que não é. Eles não têm avental nem sabem fazer bolo de chocolate.
Reviro os olhos, mas não consigo segurar o riso.
— Eu só tô dizendo que esses caras são tipo... ‘namore-me e ganhe uma crise existencial de brinde.’ Não é pra mim.
Kendra se apoia no meu ombro, rindo como se eu tivesse acabado de contar a piada do século.
— Talvez você só esteja procurando no lugar errado.
— Ah, claro, porque o lugar certo tá lotado de opções maravilhosas — replico, gesticulando para a festa ao redor.
— Não estou dizendo que tá aqui — ela retruca com um sorriso provocador.
— Você tá querendo dizer que o amor da vida da Kitty tá numa aula de yoga — Maeves corta, piscando para mim, iniciando a zombaria. Preciso de um jeito que as faça esquecer esse tópico.
— Se ele estiver, espero que caia de cabeça e desista antes de tentar falar comigo — professo, cruzando os braços.
Amara, que está quieta desde que chegamos – provavelmente porque o ambiente é alto demais para a paciência dela –, finalmente decide opinar.
— Talvez o problema seja que você tá esperando algo específico. E a vida nem sempre entrega o que a gente pede, Kitty.
Olho para ela, levantando uma sobrancelha.
— Então eu devo aceitar qualquer coisa que aparece?
— Não foi isso que eu disse — ela retruca, levantando o copo como se fosse me brindar à distância. — Só tô dizendo que você tem que olhar além do risoto e das habilidades... físicas.
Júlia interrompe, sorrindo de um jeito travesso.
— Mas, se for pra escolher entre risoto e habilidades físicas, qual pesa mais?
— Essa é fácil. Habilidades físicas — Kendra responde antes de mim, rindo alto.
— Depende da situação — retruco, dando de ombros. — Mas, sinceramente, eu não acho que meu tipo tá aqui.
Maeves estala os dedos como se tivesse uma grande revelação.
— Ok, então qual é o seu tipo? Descreve pra gente. Vamos achar o cara pra você!
Balanço a cabeça, rindo.
— Vocês não vão parar com isso, né?
— Claro que não — Júlia responde, como se fosse óbvio.
Respiro fundo, fingindo que estou considerando seriamente a pergunta.
— Tá bom. Meu tipo? Alguém que saiba conversar, que tenha um senso de humor decente, e que não precise de um espelho pra saber que tá bonito.
Maeves faz uma careta exagerada.
— Nossa, Kitty, isso foi tão vago que você basicamente descreveu metade dos caras nessa festa.
— Eu não disse que era específico — pontuo.
— Talvez seja isso que você precisa: ser menos específica — Amara sugere, inclinando a cabeça como quem está dando um conselho muito sábio.
— Talvez vocês precisem cuidar da própria vida amorosa em vez de tentar resolver a minha — retruco, apontando para todas elas com meu copo.
Kendra ri e dá um leve empurrão no meu ombro.
— A gente se diverte mais cuidando da sua, Kit Kat.