Capitulo 1
Sinopse
Maia sempre soube que precisaria ser extraordinária para merecer existir.
Criada em uma família pobre, fria e violenta, ela aprendeu desde cedo que amor não era dado — era disputado. Filha de uma mãe hostil, de um pai abusivo e de um irmão agressivo, cresceu invisível dentro da própria casa. Entre rejeições, agressão, silêncios e medos, fez da excelência sua única forma de sobreviver.
Na infância, sonhava em ser médica não apenas para salvar vidas, mas para provar que era maior do que o destino que lhe haviam imposto. Na adolescência, descobriu que nem mesmo o próprio lar era seguro. E, aos dezoito anos, acreditou ter encontrado no amor a reparação de todas as ausências.
Leandro parecia tudo o que Maia nunca teve: segurança, atenção e promessa de futuro. n***o, brilhante e ambicioso, conquistou-a com paciência e gentileza, tornando-se o primeiro homem a fazê-la sentir-se escolhida. O que Maia não sabia era que aquele relacionamento não nascera do acaso — mas de um plano que, mais tarde, cobraria um preço alto demais.
Enquanto Maia tenta construir uma vida diferente da que teve, cruza o caminho de Vera, uma mulher endurecida pela própria história de violência, maternidade precoce e sonhos destruídos. Amarga, descrente do amor, Vera enxerga em Maia o reflexo de si mesma antes da queda mesmo sendo a mãe dela e sem afeto— e tenta alertá-la, ainda que da forma errada.
Amargurados é um romance intenso sobre pessoas feridas tentando amar sem saber como. Uma história sobre traumas que atravessam gerações, escolhas que moldam destinos e a difícil luta entre endurecer para sobreviver ou se curar para viver. Porque algumas dores não passam. Elas apenas mudam de forma.
Capitulo 1
A MENINA QUE NÃO CABIA NA PRÓPRIA CASA
Maia aprendeu cedo que silêncio também machuca.
Tinha apenas oito anos quando entendeu que, naquela casa, sua voz não tinha peso algum. A cozinha era pequena, abafada, com cheiro constante de café velho e gordura fria. O relógio na parede marcava seis e quarenta da tarde quando ela entrou correndo, o caderno apertado contra o peito, o coração batendo mais rápido que os próprios passos.
— Mãe, olha! — disse, ofegante, estendendo o boletim com as mãos trêmulas de alegria.
Era o melhor da sala em ciências. Nove e meio. A professora havia escrito em vermelho: “Excelente desempenho. Muito dedicada.”
A mãe de Maia estava de costas, mexendo a panela no fogão. Usava o vestido abaixo do joelho, o cabelo preso em coque apertado e a expressão rígida de sempre — a mesma que levava à missa todos os domingos, como se a fé fosse um adorno social, não um exercício de amor. Ela nem se virou.
— Depois, menina. Estou ocupada.
Maia permaneceu ali, em pé, segurando o papel como quem segura um troféu invisível. O sorriso começou a murchar devagar.
— Mas a professora disse que eu fui a melhor da turma…
A mãe suspirou, impaciente, finalmente se virando.
— E fez mais do que a sua obrigação. Não fez nada além.
A frase caiu como um copo se estilhaçando dentro dela.
Naquele instante, Maia aprendeu a primeira grande lição da vida:
naquela casa, esforço nunca era suficiente.
O pai chegou minutos depois. O som da chave girando na fechadura era sempre um aviso de perigo. Maia enrijeceu os ombros sem perceber — o corpo já sabia o que a mente ainda não entendia. Meu pai chegou.
Ele entrou pesado, ocupando o espaço com sua presença agressiva. Jogou a bolsa de ferramenta sobre a mesa, afrouxou a camisa e lançou um olhar rápido para a filha.
— Que cara é essa?
— Ela veio mostrar nota — respondeu a mãe, indiferente.
O pai pegou o boletim, leu rápido e devolveu com desdém.
— Nove e meio? E cadê o dez?
Maia engoliu em seco.
— Eu… eu errei uma questão…
— Sempre tem desculpa — cortou ele. — Se quer ser alguém na vida, não pode errar.
A menina baixou os olhos. O papel já não parecia tão importante.
Naquele dia, Maia entendeu a segunda lição:
Errar não era humano. Era imperdoável.
O irmão surgiu no corredor logo depois. Mais velho, mais forte, mais agressivo — e sempre protegido.
— Aposto que está se achando — debochou. — Nerdzinha.
Ele arrancou o boletim da mão dela e rasgou em dois, rindo.
Maia ficou imóvel. O mundo pareceu parar por um segundo.
A mãe viu. O pai viu.
Ninguém fez nada.
Ela recolheu os pedaços do chão em silêncio.
Ali nasceu a terceira lição:
Naquela família, ela não merecia defesa.
Naquela noite, deitada na cama estreita, Maia olhava o teto escuro, sentindo uma dor funda que não sabia nomear.
Foi ali, com apenas oito anos, que decidiu, em silêncio: eu vou estudar bastante vou crescer e fazer faculdade, vai ser médica, ajudar as pessoas. Vou ser grande.
Vou ser tão importante que ninguém vai poder me ignorar. Não era um sonho.
Era uma necessidade de sobrevivência. Ela não queria status. Queria existir.
Anos depois, aos vinte e oito, Maia ainda carregava aquela menina dentro de si. A criança invisível , a filha rejeitada, A mulher que aprendeu a ser forte porque nunca foi amada.
E mesmo sem perceber, toda a sua vida adulta ainda era guiada por aquela promessa infantil: “Um dia vocês vão engolir cada palavra.”
Porque algumas crianças não crescem.
Apenas aprendem a endurecer.