Capítulo 15

991 Words
O sol já estava alto quando Jamila foi enviada para colher frutas mais afastado da casa principal. O caminho era cercado por árvores altas, e o som dos pássaros misturado ao vento deixava o lugar aparentemente tranquilo… mas ela estava inquieta. Desde os últimos dias, algo dentro dela não a deixava em paz. Ela começou a colher as frutas com cuidado, colocando-as no cesto, tentando se concentrar apenas no trabalho. Foi então que ouviu passos. Seu corpo enrijeceu na hora. Virou-se devagar… e viu o feitor. O medo veio imediato. Ela abaixou o olhar, segurando o cesto com mais força, esperando alguma ordem dura… ou algo pior. Mas, para sua surpresa, ele não veio com a mesma postura de sempre. Parou a alguns passos de distância. — Não precisa ficar assustada — disse, com a voz mais calma do que o normal. Jamila não respondeu, apenas permaneceu em silêncio. Ele respirou fundo, como se também estivesse tentando se controlar. — Eu não vim te fazer m*l. Ela ergueu os olhos por um instante, desconfiada. Aquilo era estranho. Muito estranho. Ele deu mais um passo, mas ainda mantendo certa distância, como se quisesse mostrar que respeitaria o espaço dela. — Só… queria conversar. Jamila hesitou. Parte dela queria sair dali imediatamente… mas outra parte ficou. — Sobre o quê? — perguntou, baixa. Ele passou a mão pela nuca, parecendo menos seguro do que o habitual. — Sobre mim… eu acho. Ela franziu levemente a testa, sem entender. E então ele começou a falar. Contou, de forma simples, que tinha perdido os pais ainda jovem. Que cresceu naquele ambiente duro, aprendendo desde cedo a ser forte, a não demonstrar fraqueza. Que a vida tinha sido mais de sobrevivência do que de escolhas. — Eu fui criado pra fazer isso… — disse, olhando para o chão por um instante. — Pra mandar, pra cobrar… pra ser duro. Jamila escutava em silêncio. — Mas isso não quer dizer que eu goste… — ele continuou. — Eu não sou alguém que sente prazer em castigar ninguém. Houve um pequeno silêncio. Jamila ainda estava tensa, mas algo na forma como ele falava parecia sincero… ou, pelo menos, diferente do que ela conhecia. — Então por que faz? — ela perguntou, quase sem pensar. Ele soltou um leve suspiro. — Porque é o que esperam de mim… e porque é o que mantém tudo funcionando aqui. Ela abaixou o olhar novamente. A conversa era estranha… inesperada. Aos poucos, a tensão inicial começou a diminuir, ainda que o medo não tivesse ido embora completamente. Ele percebeu. — Eu sei que você não confia em mim… e tem razão — disse, com honestidade. — Mas eu queria que você soubesse que eu não sou só aquilo que você vê. Jamila ficou em silêncio por alguns segundos. — Eu… não sei o que pensar — respondeu, sincera. Ele assentiu, como se esperasse exatamente isso. — Não precisa decidir agora. O vento passou entre as árvores, balançando levemente os galhos. O momento parecia mais calmo do que qualquer outro que eles já tinham compartilhado. E, mesmo com o receio ainda presente… Jamila já não estava tão paralisada como antes. — Eu só quero trabalhar… — ela disse, voltando a olhar para o cesto. — E eu vou deixar — ele respondeu. Houve uma pausa. Ele a observou por um instante… claramente lutando contra algo dentro de si. Mas, dessa vez, se conteve. Sabia que, se quisesse se aproximar de verdade… Precisava ir devagar. — Posso te ajudar — disse, por fim. Jamila hesitou… mas, surpreendentemente, não recusou. E assim, lado a lado — ainda distantes, ainda carregados de tensão — começaram a colher as frutas em silêncio. O medo ainda existia. Mas, agora, vinha acompanhado de algo novo. Dúvida. E isso poderia mudar tudo. O silêncio entre os dois era diferente agora. Já não era apenas medo — havia também uma estranha curiosidade. Eles continuavam colhendo as frutas, lado a lado, quando o feitor parou por um instante. Parecia pensar bem no que ia dizer. — Jamila… — chamou, com a voz mais baixa. Ela olhou de leve, ainda cautelosa. Ele respirou fundo. — Eu preciso te pedir desculpa. Ela franziu a testa, sem entender de imediato. — Pelo dia… que eu tentei te agarrar. O corpo dela ficou tenso na mesma hora. A lembrança veio forte. Ele percebeu. — Eu achei… — ele hesitou, escolhendo as palavras — achei que você ia gostar. Que… — balançou a cabeça, como se reconhecesse o erro — eu estava errado. Jamila não disse nada. — Eu não vou fazer isso de novo — continuou, firme. — Pode acreditar. O silêncio caiu entre eles novamente, mas dessa vez não era tão pesado. Ele deu um pequeno passo para trás, respeitando o espaço dela. — Eu admiro você… — disse, com mais calma. — De verdade. Ela levantou o olhar, surpresa. — Você é forte… mesmo com tudo isso aqui. E… — ele pausou por um segundo — sim, eu acho você uma mulher muito bonita. Jamila abaixou o olhar, sem saber como reagir àquilo. Não estava acostumada a ouvir esse tipo de coisa. Ainda mais vindo dele. — Mas eu vou respeitar você — completou. — Não quero que você tenha medo de mim. Mais um silêncio. O vento passou suave entre as árvores, e o som das folhas pareceu acalmar um pouco o momento. — Eu só… queria começar de novo — ele disse. — Nem que seja… como amigo. Jamila ficou alguns segundos sem responder. Havia muita coisa ali dentro dela — medo, desconfiança… mas também aquela conversa diferente, aquele jeito que ela nunca tinha visto nele antes. Lentamente, ela ergueu o olhar. E, quase sem perceber… Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto. Discreto, tímido… mas verdadeiro. Não era confiança. Ainda não. Mas já não era só medo. E, para ele… aquilo já significava muito mais do que qualquer resposta em palavras.
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