Capitulo 1
Jamila tinha apenas 11 anos, mas seus olhos já carregavam um peso que muitas vidas inteiras não conheciam. O sol de Moçambique ainda brilhava forte naquele dia, mas para ela, tudo parecia escuro desde o momento em que homens armados invadiram sua aldeia.
Ela segurava firme a mão da irmã mais nova, Aziza, de apenas 6 anos, enquanto tentava manter Amir, o pequeno de 4, perto de si. O choro dele cortava o ar, assustado, sem entender o que estava acontecendo.
— Fica comigo… não solta — Jamila sussurrava, mesmo com a voz tremendo.
Mas o medo já tinha tomado conta de tudo.
Eles foram arrancados de seus pais sem despedida, sem explicação. Jamila ainda podia ouvir o grito da mãe ecoando na sua cabeça, chamando por eles, lutando… e depois, silêncio.
Dias depois, já exaustos e com fome, foram levados até um grande navio. Era a primeira vez que Jamila via o mar. Em outra situação, talvez tivesse achado bonito. Mas naquele momento, ele parecia infinito… e c***l.
As crianças foram empurradas para dentro do porão escuro, junto com outras pessoas. O cheiro era insuportável. O espaço, apertado. O medo, maior que tudo.
Aziza chorava baixinho.
— Jamila… a gente vai voltar pra mamãe?
Jamila engoliu o choro. Ela queria dizer que sim. Queria acreditar nisso. Mas, no fundo, sabia que nada seria como antes.
— Eu tô aqui… eu não vou deixar nada acontecer com vocês — respondeu, abraçando os dois.
E ali, naquele lugar escuro, Jamila deixou de ser apenas uma criança. Naquele instante, ela se tornou proteção, coragem… e esperança.
Os dias no navio pareciam não ter fim. Fome, sede, doença… e o som constante do sofrimento ao redor. Mesmo assim, Jamila fazia de tudo para manter os irmãos vivos. Dividia cada pedaço de comida, cada gole de água.
Ela já não pensava mais nela.
Só neles.
Quando finalmente chegaram ao Brasil, o alívio não veio.
Foram colocados em fila, observados como objetos. Pessoas olhavam, apontavam, negociavam. Jamila sentiu o coração disparar quando percebeu o que estava acontecendo.
Eles seriam vendidos.
Ela apertou ainda mais as mãos dos irmãos, como se pudesse impedir o inevitável.
— A gente vai ficar junto — disse, mais para si mesma do que para eles.
Mas no fundo… ela já sentia que aquela promessa seria a mais difícil de cumprir.O sol estava alto quando começaram a separar as pessoas. Homens gritavam ordens em uma língua que Jamila ainda não entendia completamente, mas o tom era claro: ninguém ali tinha escolha.
Ela segurava Aziza de um lado e Amir do outro, com tanta força que seus dedos já estavam doendo.
— Não solta… não solta de mim — ela repetia, quase como uma oração.
Aziza chorava abertamente agora, agarrada ao braço da irmã. Amir, confuso, apenas tremia, escondendo o rosto contra o corpo de Jamila.
Um homem se aproximou.
Ele observou Jamila com atenção, girando ao redor dela como se estivesse avaliando um objeto. Depois, puxou o braço dela com força.
— NÃO! — Jamila gritou, tentando se soltar. — Eles vêm comigo!
Outro homem segurou Aziza, arrancando-a do abraço da irmã. O grito da menina foi desesperador.
— JAMILA! NÃO! EU NÃO QUERO!
Amir começou a chorar ainda mais alto quando foi puxado para o outro lado.
— Jami… Jami…
Jamila lutou com tudo o que tinha. Chutou, puxou, gritou, tentou alcançar os irmãos, mas era pequena diante da força daqueles homens.
— POR FAVOR! ELES SÃO MEUS IRMÃOS! — sua voz falhava, rasgada pelo desespero.
Ninguém respondeu.
Ninguém se importou.
Ela conseguiu ver, por um último instante, Aziza sendo levada, estendendo a mãozinha em sua direção, os olhos cheios de medo. Amir gritava seu nome, tentando voltar, mas sendo carregado sem piedade.
E então… eles desapareceram.
Jamila caiu de joelhos.
O mundo ficou em silêncio.
Não havia mais gritos ao redor que ela conseguisse ouvir. Não havia mais sol, nem pessoas. Só um vazio enorme crescendo dentro dela.
As mãos que antes seguravam seus irmãos agora estavam vazias.
Ela apertou os dedos contra o próprio peito, como se pudesse
— Qual é o seu nome? — perguntou o um menino mais velho.
Jamila demorou a responder. Sua voz saiu fraca, quebrada:
— Jamila…
A mulher interrompeu friamente:
— Agora você pertence a nós. Vai aprender a se comportar.
Jamila abaixou a cabeça, lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto. Naquele momento, ela não era mais apenas uma menina… era uma criança arrancada de tudo que amava.
Mas, no fundo do seu coração, uma promessa ainda queimava:
Ela nunca esqueceria Aziza e Amir. E, um dia… encontraria seus irmãos novamente.